Natureza Morta com Tinteiro, Pena e Livros, de John Frederick Peto (1854-1907)
22 de Janeiro de 2005 ⋅ Opinião

Vale mesmo a pena traduzir?

Desidério Murcho

De duas em duas semanas, desde Março de 2003, apresentámos trinta e dois livros que valia a pena traduzir, por diversos motivos. Mas vale mesmo a pena traduzi-los? Quem conhece o meio editorial português sabe do entusiasmo colocado por tantos editores na publicação de ensaios — e sabe também dos sucessivos exemplos de ensaios bem traduzidos e publicados mas cuja venda mal chega para pagar as despesas, quando não representa mesmo prejuízo. Por que razão ensaios centrais de áreas importantes do conhecimento — ensaios tantas vezes de leitura obrigatória noutras universidades do mundo e bem recebidos pelo grande público — enfrentam tantas dificuldades comerciais em Portugal?

Não é possível responder a esta importante questão sem um estudo científico adequado. Contudo, é possível avançar algumas hipóteses plausíveis. Em primeiro lugar, há que não cair na fuga para o subsídio ou para o editor sem fins lucrativos, como a INCM ou a Gulbenkian. Isto porque esta fuga não resolve o problema de fundo: por que razão livros que deveriam ter boa venda têm de ser publicados com prejuízo ou perto disso? Ora, há razões para pensar que este fenómeno estranho tem explicação.

No caso dos ensaios mais decididamente voltados para o público universitário — que, como se sabe, conheceu uma expansão notável nos últimos anos — há dois factores que vale a pena investigar. O primeiro é a escassez de leituras exigidas nas nossas universidades. Nenhum estudante de uma boa universidade obtém uma licenciatura em filosofia, por exemplo, sem ter estudado as ideias centrais de Tomás de Aquino, Leibniz, Espinosa, Nozick, Bernard Williams, Thomas Nagel, Nathan Salmon, P. F. Strawson — mas o presente articulista licenciou-se em filosofia em Lisboa sem que tais filósofos tenham sido leccionados.

O segundo factor é a cultura da fotocópia pirata. As indústrias das fotocópias piratas — que tantas vezes prosperam nas instalações das próprias faculdades — tornam impossível que se publique mais em português. Pois se um editor faz um investimento de uns milhares de euros numa tradução e edição portuguesa de um livro importante, espera pelo menos pagar as despesas e, idealmente, ter lucro. Mas se esse livro for sistematicamente fotocopiado pelo seu público-alvo — o público universitário — o negócio torna-se impossível e o resultado é a pobreza de títulos importantes para os estudantes, que assim terão de ler tudo noutras línguas. É verdade que a língua portuguesa vai acabar por morrer — muito antes da espanhola — mas não é necessário estar já a matá-la à força de fotocópias piratas.

Uma solução para o primeiro caso é acabar com a ideia provinciana de que cada professor universitário "manda" na sua cadeira e é livre de ensinar o que lhe apetece naquele momento. Pelo contrário, nas melhores universidades há um "syllabus" constantemente actualizado, que determina o que é obrigatório leccionar em cada disciplina. Já o caso das fotocópias piratas tem duas soluções. A primeira é cultural: os professores universitários têm de condenar, nas aulas, as fotocópias e de parar de as fomentar. A segunda é legislativa: avance-se corajosamente com impostos de 200 ou 300 por cento sobre todas as fotocópias, de modo a tornar demasiado caro fotocopiar mais de um pequeno capítulo de um livro — revertendo o dinheiro dos impostos para o apoio à edição de ensaios (dado que a literatura não sofre do problema das fotocópias).

Continuaremos a indicar títulos que valia a pena traduzir, na esperança de que estes e outros obstáculos sejam ultrapassados a pouco e pouco, com a cooperação de todos.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado originalmente no jornal Público (4 de Setembro de 2004)
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