Secretária
6 de Março de 2005 ⋅ Opinião

Outra vez o livro sagrado

Desidério Murcho

Pacheco Pereira publicou no seu blog (Abrupto) algumas notas sobre bibliotecas que frequentou na sua juventude. Os seus leitores reagiram com memórias mil de outras tantas experiências fecundas, transcendentes e saudosas das bibliotecas nacionais. Para efeitos de equilíbrio e completude, vou deixar aqui o meu testemunho singelo sobre as bibliotecas nacionais. E é muito simples: nunca as frequentei, porque nunca encontrei nelas nada que valesse realmente a pena ler: só bolor e livros com ideias velhas. Os livros que li, comprei-os ou foram-me emprestados pelos amigos — poucos.

Serei eu uma excepção? Ou terei gostos demasiado esquisitos para não me agradarem os grandes autores embibliotecados nos bolores nacionais? Desconfio que se trata apenas de ser um tudo nada selectivo e desconfiar da pose falsamente intelectual do amor indiscriminado aos livros. Eu tenho amor é às ideias que estão nos livros, e não a todas; mas não tenho amor algum aos livros. Os livros são apenas papéis pintados com tinta. Daí que, ao contrário de um leitor do Abrupto (MJA), que declara "Nunca consegui deitar um livro fora: acho um crime", eu me farte de deitar livros fora. Quase todos os meses mando livros para o lixo. E só posso pensar que alguém que não deita livros fora é porque não lê muitos livros; pois a maior parte dos livros que se publicam são uma choldra. (Isso devia ser evidente dado que até eu já publiquei livros.) E por que razão haveria de ser de outro modo? A maior parte dos quadros que se pintam são uma porcaria, e a maior parte da música e da filosofia que se faz é uma miséria. Na verdade, a maior parte de tudo (incluindo editoriais como este e blogs) é uma porcaria. Daí que seja necessário com os livros, como com tudo na vida, essa capacidadezinha que dá um bocado de trabalho: discernimento.

O amor aos livros é inversamente proporcional ao desenvolvimento cultural das sociedades. Na sociedade portuguesa o livro é encarado como um adereço sagrado da vida culta e o problema é que na vida verdadeiramente culta não pode haver adereços sagrados: há inovação, espírito crítico e independência mental; quando as ideias andam de gravata, em livros bolorentos, são fraquinhas e tolas. Daí que nas sociedades verdadeiramente cultas, onde se produziram e continuam a produzir algumas das ideias mais importantes da humanidade, não se encontre esta atitude de sacralização do livro. Por isso escrevi no editorial "O Livro Sagrado" que precisamos é de dessacralizar o livro, e não de cantar encómios pacóvios ao livro. Como ninguém leu esse editorial, aqui estou a repetir a mesma coisa. Claro que ninguém lê à mesma, mas sempre alivia o espírito.

Desidério Murcho
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