Conversa
22 de Março de 2005 ⋅ Opinião

Erros no campo de tiro

Konrad Szczesniak
Universidade da Silésia, Polónia

Num artigo de 1998, José Saramago deplora o actual estado da Língua Portuguesa, alegando que o português usado hoje está longe do "alto grau de beleza no século XVII" e é "por todos os indícios, provavelmente, um mutante". Depois acrescenta que o mutante está condenado à morte e "agonia desesperada" — tudo pela indolência ou cumplicidade dos seus "suicidários falantes". O autor admite que o quadro é sombrio, e podemos inferir que o efeito de choque foi calculado com o intuíto de captar a atenção para uma causa importante. Como explica o autor, as escolas não ensinam nem a escrever, nem a falar. O óbvio resultado é que os jovens, cada vez menos eloquentes, não sabem usar a sua própria língua, um problema que a linguística chama de analfabetismo funcional. Sem dúvida, uma sociedade que não sabe exprimir ideias novas, quer em escrita quer em fala, não é uma ideal companhia para quem procura estimulação intelectual. O risco é real e sério, mas atrevo-me a argumentar que através destas visões apocalípticas, o Mestre da Literatura Portuguesa está a provocar um risco ainda maior, ou seja, está a ressuscitar o prescritivismo linguístico.

A gramática prescriptiva, conhecida também como normativa, é uma doutrina obsoleta que assume que só algumas pessoas, as mais cultas, não dão erros na sua língua. O resto de usuários (a maioria de nós) precisa de ajuda no que diz respeito ao apuro gramatical. É para tais falantes deficientes que se elaboram "programas correccionais" com listas de erros a evitar, palavras abomináveis, estruturas primitivas, ou registos linguísticos não dignos de Camões. É fácil encontrar na Internet páginas deste género que surgem em grandes números, tanto em Portugal como no Brasil, e que se especializam em investigar vários casos de "crimes linguísticos" e expõem usos considerados incorrectos, mas que, como veremos, nem sempre o são.

Os réus típicos são os baixos registos coloquiais e o calão, linguagem informal que na consciência coletiva dos falantes de qualquer língua é automaticamente associada com uma profunda pobreza, tanto verbal como intelectual (ou até mesmo moral). Por exemplo, o uso do verbo "ter" com o sentido de "haver / existir" em frases como "Hoje não tem muita gente por aqui" é exprobrado como um brasileirismo "sem lógica" que não devia ter lugar na fala das pessoas sensatas. Infelizmente, os autores de tais proibições não explicam porque tais usos são incorrectos ou insensatos. Eles não causam confusão, pois ninguém interpreta a frase acima como "Hoje não possui muita gente por aqui". E mesmo que insistíssemos em limitar o verbo "ter" ao seu sentido de possessão, faríamos isso à custa do uso deste verbo em construções como "Nunca tinha ouvido essa música", e como consequência também não devíamos usar os pronomes possessivos em expressões como "o meu escritor favorito", pois o autor não pertence a ninguém.

A ilustração do verbo "ter" tem duas morais. Primeiro, nem tudo que se desvia da norma literária é incorrecto. E nossa sorte que a linguagem literária não seja utilizada na rua, na loja ou na praia. Imaginem como patologicamente pretenciosa e soberbamente fria seria a nossa comunicação com os demais, se todos tentássemos falar sobre outeiros "erguidos com soberba graciosa / Que de gramíneo esmalte se adornavam." Ao meu ver, quem quer falar assim no seu quotidiano não difere muito de quem quer ostentar-se num fato Armani na cama ou na piscina. O calão é como uma roupa muito menos esplêndida do que um fato, mas em certas ocasiões indispensável e muito mais normal. Além disso, formas que divergem da norma superior não estão privadas de lógica. Elas exibem a mesma sensitividade às características e regras linguísticas que a norma literária. Uma destas características é a tendência metafórica a alargar os sentidos de palavras. Tal como poetas costumam utilizar velhas palavras com novos sentidos (a palavra "estrada" pode significar "vida", ou "flor" pode ser "amor", por exemplo), a linguagem coloquial e o calão também dispõem de palavras com sentidos metafóricos (como "agarrado", no sentido "toxicodependente"), que não são casos de corrupção do sentido, mas sim formas criativas de exprimir conceitos de uma maneira mais gráfica.

A segunda moral: se milhares de falantes maternos utilizam uma "forma incorrecta", deve haver algo errado com a definição de "incorrecto". Para linguistas, verdadeiros exemplos de formas incorrectas são frases do tipo "Sou a fazer ginástica" ou "Não quero que tu perdes o emprego"-erros cometidos por pessoas que aprendem português como uma língua estrangeira, erros que nenhum português dava, nem mesmo o mais suicidário falante, o mais degradado inimigo de Garrett, Camões ou Saramago. Para linguistas, os "erros" presentes na fala de usuários maternos são algo tão entediante que nem são estudadas. Muito mais fascinante é o facto de que todos os falantes maternos obedecem às complexas regras de gramática que são invisíveis para todos os estrangeiros. É com tais questões enredosas que lida a linguística moderna. Quem tem tempo para debater "dilemas" tais como a escrita correcta do "Zimbabué" ou "Zimbábwe", com certeza não tem engenho para fazer nada mais sério.

Há mais vítimas de prescritivismo. Pessoas que "defendem a pureza de linguagem" muitas vezes confessam estar chocadas com o influxo inparável de empréstimos lexicais. Essas palavras alheias, alegam os puristas, ameaçam ou até expulsam o vocabulário original da língua anfitriã. Talvez seja a minha ignorância, mas pessoalmente não conheço casos de palavras portuguesas que perderam a competição com quaisquer vocábulos importados. O único país que leva esta possibilidade a sério é a França, onde L'Académie Française, como uma comissão de vigilância, se ocupa em recusar a cidadania francesa a qualquer novas palavras estrangeiras. Como resultado, a língua francesa, um símbolo de alta sofisticação, só conta com 150 mil palavras (o número de entradas no maior dicionário francês). Em comparação, o inglês, um incansável emprestador de tudo que há de bom, tem um léxico de mais de 500 mil palavras. Os portugueses deviam então estar gratos aos imigrantes que trazem consigo palavras exóticas como "bué" (muito) e que conseguem plantá-las na fala dos (mais tolerantes) portugueses. "Bué" não vai expulsar "muito", tal como "ter" não expulsou "haver". Em vez de expulsar, palavras novas arranjam um nicho, por exemplo no registo informal, onde não só não prejudicam nada, mas revitalizam a expressão. Recentemente a palavra "bué" foi até inscrita em alguns dicionários portugueses (o meu Dicionário Ilustrado da Porto Editora também a define), um facto que não agradou a Fernando V. Peixoto da Fonseca que a "bué" reagiu assim

[Um] exagero [...] é o acolhimento (de braços abertos!) do recentíssimo "bué", autêntico monstro dentro do português, muito pior, na verdade, que a adopção do termo "quilé", usado vulgarmente em calão, já há bastante tempo. Alguém disse com justa graça, a este respeito, que houve discriminação!

Realmente não são claras as razões porque os empréstimos já instalados no português actual não devam ser incluídos nos dicionários. Uma teimosa omissão de "bués" ou "quilés" faz lembrar uma política semelhante frente a palavrões que por razões de pudor (e outras) não se encontravam nos dicionários antes de 1972. Diga-se o que se disser sobre o valor de obscenidades, os dicionários do pré-1972 eram incompletos, pois os palavrões eram, são e serão usados (Num dos casos mais famosos, em 1900, ao ser atingido por uma bala, o Príncipe Albert Edward disse "F***-se, levei uma bala"). Incidentalmente, os palavrões também não vão levar a uma degeneração de línguas. Desde que não se abuse deles, serão um excelente meio expressivo de ênfase, um verdadeiro estrondo na língua de quem é normalmente conhecido como uma pessoa tranquila e moderada.

"Uma Língua que não se Defende, Morre", o título do precitado artigo de Saramago já provocou bastante impacto. A constatação feita neste título junto com várias linhas do artigo são circuladas pela Internet como uma espécie de manifesto de preservação de linguagem. Deve haver agora centenas de defensores ardentes da Língua Portuguesa que vêm ameaças mortíferas em tudo que as pessoas dizem. Há até quem deteste a expressão "sei lá" — certa vez falei com uma professora que me disse "nem lá, nem cá, mas diz-se não sei." Isso pode parecer uma doce e inócua excentricidade de uma professora rabugenta, mas estou com receio de que são precisamente escovadelas puristas deste género que são responsáveis pelos problemas expostos por Saramago. Se em vez de ensinarem simples princípios de coesão e clareza de expressão, os professores se limitarem a vasculhar os textos dos seus alunos em procura de erros, quer autênticos quer inventados, os alunos nunca vão gostar de escrever, pois nunca vão encarar a composição escrita como um campo de exploração intelectual, mas sim um campo minado, onde não há como se mover sem cometer erros.

Konrad Szczesniak

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