Martin Heidegger
27 de Maio de 2005 ⋅ Opinião

Os atarantados da alma

Desidério Murcho

De vez em quando o mundo volta a lembrar-nos de que o bom senso talvez não seja o bem mais bem distribuído, ao contrário do que pensava Descartes, apesar de ninguém se queixar por ser pouco provido dele. Recentemente, um grupo de professores franceses organizou um escândalo anunciado porque alguém disse o que é proibido dizer, apesar de ser verdade: que Heidegger era nazi até aos ossos e nunca o negou. A reacção natural seria dizer "E depois?" Com certeza que se pode ser nazi e apesar disso, ser-se um bom romancista, um bom poeta, um bom cientista ou um bom filósofo. Então, qual é o problema?

O problema é que os filósofos franceses têm a mania de que todo o pensamento filosófico — ainda que seja sobre as mais abstrusos temas da filosofia da linguagem, como grande parte da filosofia de Derrida — tem uma componente essencial de comprometimento político. Assim, a ideia de que está tudo bem com Heidegger apesar de ele ser obviamente nazi e anti-semita é um bocado difícil de engolir. A reacção natural seria, claro, abrir excepções e dizer que um filósofo pode ser bom apesar de ser nazi. Mas aos atarantados da alma não ocorre tal solução simples, e recorrem ao que estão habituados: o escândalo, a movimentação de massas, o grito de "Heresia!" e a vontade de se queimar vivo quem ousa dizer a banalidade: que Heidegger era nazi. Se não fosse grave, por mostrar que afinal nem é apenas Heidegger que é nazi, seria de rir à gargalhada.

Outro exemplo dos atarantados da alma vem-nos da vizinha Espanha. Numa jogada talvez sensata e lúcida, o governo espanhol decidiu eliminar a obrigatoriedade do estudo da filosofia no secundário. E os atarantados da alma lá vieram com os protestos do costume, a que também estamos habituados em Portugal: que é uma vergonha, que é um assalto à Cultura e à Tradição Grega, e outras ameaças deste jaez.

Claro, o motivo principal, é que estão a ver os empregos malparados — porque acabando a filosofia no secundário, os departamentos universitários de filosofia emagrecem imediatamente e lá se vai o emprego que permite ganhar bem e sair cedo. O que é risível é este discurso patético a fazer-se passar por defesa da filosofia, num país que nenhuma filosofia importante produziu desde a segunda guerra mundial, ao contrário de países que a produziram em quantidade e qualidade — países onde, pasme-se, a filosofia é meramente opcional no ensino secundário.

Então qual é o problema? Aparentemente, se há alguma relação causal entre a filosofia ser obrigatória no secundário e a qualidade da produção filosófica de um país, a relação é ao contrário: onde a filosofia não é obrigatória, há mais filosofia de qualidade. E é talvez por essa razão que é a Alemanha o país mais forte filosoficamente da Europa continental: precisamente porque lá a filosofia não é obrigatória no secundário. Mas isto é muita complicação junta para os atarantados da alma — que, precisamente por causa da sua deficiente formação filosófica, nem são capazes de compreender um argumento, uma objecção, a avaliação de possíveis conexões causais, etc. Tudo o que lhes ocorre é a defesa atarantada do tacho, sob a máscara pitoresca da defesa da filosofia.

Se observarmos as coisas de forma imparcial, e não para defender o tacho, temos de reconhecer que não há qualquer relação entre a obrigatoriedade da filosofia no secundário e a qualidade e importância da produção filosófica de um país. Também não se vê que os cidadãos espanhóis, franceses ou portugueses tenham maior sentido cívico do que os de outros países onde não há filosofia no secundário, pelo que não se pode argumentar que a filosofia é fundamental no secundário, por outros motivos que não o desenvolvimento da produção filosófica.

Pergunto-me se a solução dos dois grupos de atarantados não poderia passar por uma síntese hegeliana: tornar a filosofia obrigatória a partir dos seis meses de idade e até aos 89 (a expensas do erário público, claro) e proibir, com direito a pena de morte, a divulgação de toda a verdade desagradável, como o nazismo de Heidegger ou o estalinismo de Sartre. Que tal?

Desidério Murcho
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