Fundo Líquido, de Darren Hester
10 de Junho de 2006 ⋅ Opinião

Elementos

Desidério Murcho
King's College London

A doutrina dos quatro elementos foi introduzida pelo filósofo grego Empédocles (490-430 a. C.) e exerceu uma das mais fortes influências no pensamento científico, filosófico, artístico e religioso de que há memória. As suas palavras originais, pouco conhecidas, são as seguintes: "Ouve primeiro das quatro raízes de todas as coisas: o brilhante Zeus (fogo), a Hera (ar) que dá a vida, e Adónis (terra) e Néstis (água) que humedece as origens dos homens com as suas lágrimas". A ideia de que todo o universo é composto de elementos fundamentais, diferentemente combinados, relaciona-se com a ideia atomista, introduzida pelo filósofo grego antigo Leucipo e desenvolvida por Demócrito (460-370 a. C.). Ambas correspondem à intuição fundamental de que as coisas são compostas por outras coisas — uma peça musical é composta por diferentes notas, um filme por diferentes imagens, uma casa por tijolos e cimento. Durante séculos, todavia, foi a doutrina dos quatro elementos, tal como Aristóteles (384-322 a. C.) a desenvolveu, que dominou o pensamento europeu e influenciou a alquimia e a química, a psicologia, o misticismo e as artes.

Acreditar que podemos compreender a natureza última do universo compreendendo os seus elementos mais simples é a base da grande aventura do conhecimento. Como todas as intuições, pode ser correcta ou incorrectamente desenvolvida, como se vê no contraste entre a química e a alquimia. O apelo da doutrina dos elementos, por oposição à doutrina atomista, que hoje sabemos correcta, reside no facto de ser descaradamente antropocêntrica, concebendo a estrutura fundamental do universo à escala humana do que podemos ver, sentir, ouvir e cheirar. Em contraste, os átomos começaram por ser concebidos pelos gregos antigos como abstracções filosóficas invisíveis, e são hoje partículas que não podemos ver a olho nu nem compreender sem uma formação científica adequada — e por causa de uma precipitação terminológica, os verdadeiros átomos da física de hoje não são os átomos mas sim os quarks.

Uma das maiores conquistas do espírito humano foi a Tabela Periódica dos Elementos, concebida independentemente pelo russo Dimitri Mendeleyev (1834-1907) e pelo alemão Julius Lothar Meyer (1830-1895). A organização visual dos elementos fundamentais do universo em termos do seu peso atómico permitiu ver uma harmonia lógica surpreendente na estrutura mais íntima de todas as coisas, o que por sua vez tornou fácil prever a existência de elementos até então ainda desconhecidos. Hoje, são conhecidos 116 elementos fundamentais. É surpreendente pensar que tudo o que há, tudo o que vemos e sentimos, respiramos e ouvimos, resulta da combinação de pouco mais de uma centena de elementos fundamentais.

A obra Os Elementos, do grego Euclides (325-265 a. C.) representa uma das mais influentes aplicações da mesma intuição geral de que podemos compreender a natureza última das coisas procurando os seus elementos fundamentais. Esta obra ímpar influenciou decisivamente o pensamento posterior, não apenas por causa da compreensão aprofundada que permitiu da geometria e de parte da teoria dos números, mas também pela sua extraordinária elegância. Como acontece no caso da Tabela Periódica, a natureza revela-se à compreensão humana como algo harmonioso, lógico e elegante. As ciências e as artes, a cognição e a estética, encontram-se assim em harmonia. Uma compreensão mais profunda revela a estética oculta da realidade e a procura do efeito estético alarga a nossa compreensão das coisas.

Desidério Murcho
Texto para o projecto Elementos, de Joaquim Pavão (música) e Janek Pfeifer (vídeo).
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte