Gelo em Hidrângea Nua, de Barry Ford
21 de Julho de 2006 ⋅ Opinião

Valeu a pena traduzir

Desidério Murcho
King's College London

Durante o ano de 2005 destacaram-se quatro títulos de filosofia que valeu a pena traduzir e que é importante divulgar — até porque é comum traduzir mal e publicar pior: um dos últimos casos caricatos é o livrinho Desordem por Défice de Atenção e Hiperactividade, de Harvey C. Parker (Porto Editora). Sendo apenas um pequeno livro-folheto informativo, o título português revela o barbarismo em que se encontram as editoras escolares nacionais. Evidentemente que não se trata de um livro sobre uma "desordem por défice de atenção", mas antes do que é conhecido como Síndrome de Défice de Atenção e Hiperactividade. Aliás, parece que o editor sofre precisamente desta síndrome.

Contudo, é da Porto Editora que nos chegou uma das melhores edições de filosofia do ano: Utilitarismo, de John Stuart Mill, com tradução, introdução e notas de Pedro Galvão. Infelizmente, tem o aspecto de um livro escolar, e como tal fica remetido, nas livrarias, para esse ghetto cultural que é a nossa vergonha editorial. Mas não merece. Pois trata-se de uma tradução muitíssimo cuidada, num português despretensioso e preciso, servida por uma introdução ao nível do melhor que se faz em qualquer parte do mundo. Exactamente ao mesmo nível, mas com mais notas explicativas, está a edição de luxo que Pedro Madeira preparou da mesma obra para a Gradiva. Estamos perante edições raras no nosso país, e que erradamente as pessoas costumam associar à Imprensa Nacional e à Gulbenkian, que ultimamente se têm dedicado a fazer edições amadoras, sem notas, sem explicações e muitas vezes com traduções de fazer chorar as pedras da calçada (a edição do clássico Principia Ethica, de G. E. Moore, é um exemplo infeliz).

O mesmo Pedro Galvão organizou e traduziu a antologia A Ética do Aborto (Dinalivro), que apresenta seis ensaios sobre o tema, considerados "clássicos modernos". Três dos filósofos defendem a moralidade do aborto, sendo que os outros três se lhe opõem. A antologia é servida por uma informativa e lúcida introdução. Os filósofos contemplados são Judith Thomson, Stephen D. Schwarz, Michael Tooley, Harry Gensler, Don Marquis e David Boonin. Em Portugal, por algum motivo, os professores de filosofia não organizam antologias de textos centrais das suas áreas, uma prática corrente noutros países. Estas antologias são até mais necessárias em Portugal, pois muitos destes textos centrais foram publicados em revistas da especialidade que não existem nas bibliotecas universitárias portuguesas. Não se pense, contudo, que se encontra nesta antologia uma introdução e tradução pretensiosas, só para exibir ademanes falsamente académicos, com uma terminologia terrorista, carradas de palavras caras e uma sintaxe emprestada de uma língua estrangeira. A introdução e tradução são claras e directas, e em português de portugueses. É um livro que se vê que foi feito com amor e vontade de ser lido — e que merece ser lido.

Finalmente, as Edições 70 publicaram uma edição única dos Diálogos sobre a Religião Natural, de David Hume, com tradução, introdução e notas de Álvaro Nunes. Uma vez mais estamos perante uma tradução de qualidade, servida por um português directo e despretensioso, notas informativas e discretas, e uma introdução que ajuda verdadeiramente o leitor a compreender a obra e a sua actualidade filosófica.

Estes são quatro exemplos de como vale a pena traduzir. Venham mais.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (18 de Fevereiro de 2006)
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