Filosofia política

O dilema dos prisioneiros

Pedro Madeira

O dilema dos prisioneiros é, talvez, a mais fascinante experiência mental que me foi dada a conhecer. Acho que é impossível não se ficar absolutamente fascinado com ela. Só para a conhecer, já valia a pena entrar em contacto com a filosofia. (Este não é, especificamente, um problema da filosofia política, embora tenha implicações na filosofia política. A área a que esta experiência pertence chama-se “teoria da decisão”.)

Então vamos ao exemplo. O Zé e o Manel são dois ladrões que foram apanhados pela polícia. Só há provas suficientes para os incriminar por porte ilegal de arma, portanto a polícia decidiu interrogá-los em salas separadas, para que não possam estar em contacto. Os polícias dizem exactamente a mesma coisa a cada um:

Se confessares e o teu parceiro também confessar, ambos apanham 4 anos de cadeia. Se confessares e ele não confessar, tu apanhas 1 ano e ele apanha 8 anos. Mas se tu não confessares e o teu parceiro confessa, tu apanhas 8 anos e ele 1 ano. Se tu não confessares e ele também não, ambos apanham 2 anos.

Podemos pôr isto numa tabela:

Zé confessa Zé não confessa
Manel confessa Zé: 4 anos
Manel: 4 anos
Zé: 8 anos
Manel: 1 ano
Manel não confessa Zé: 1 ano
Manel: 8 anos
Zé: 2 anos
Manel: 2 anos

Neste caso, cada um dos ladrões só toma em conta o número de anos que vai passar na prisão. O objectivo de cada um é passar o menor número de anos possível na prisão e estão a borrifar-se para o parceiro. (Se isto não fosse verdade, não estávamos num dilema dos prisioneiros.) Portanto, cada um dos dois vai pensar assim: se eu confesso, apanho 4 ou 1. Se não confesso, apanho 8 ou 2. Portanto, aquilo que devo fazer é confessar. E é o que fazem, apanhando cada um 4 anos. Mas a chatice é esta: se nenhum dos dois tivesse confessado, isto é, se tivessem sido altruístas, cada um teria apanhado 2 anos. Resultado: tinham ficado ambos melhor... se tivessem agido irracionalmente.

Pedro Madeira