2 de Agosto de 2006 ·
Opinião
Novidades críticas
Desidério Murcho
King's College London
A Crítica é agora uma publicação reservada a subscritores. Esta decisão resultou da necessidade de cobrir os custos crescentes com a sua manutenção e com a exiguidade de subscrições e donativos voluntários dos leitores. No passado mês de Maio o servidor da Crítica registou mais de cem mil leitores, ao passo que contamos apenas com a boa vontade de seis subscritores e outros tantos mecenas que fizeram donativos. Esta situação é injusta para os poucos que apoiam a Crítica, que poderiam ter uma revista mais dinâmica se esta tivesse mais recursos, e é injusta para o director da Crítica, cujo trabalho não é remunerado.
O valor da subscrição é muitíssimo acessível: apenas 20 euros por semestre (cerca de 3,3 euros por mês). O sistema usado procura ser o mais simples possível, não se incomodando o leitor com pedidos constantes de dados. O leitor pode pagar a subscrição usando o seu cartão de crédito, com toda a segurança, através do sistema PayPal.
A Internet em particular, e a informática em geral, contribuíram para a disseminação de uma noção errada do funcionamento da economia. Para se compreender o que está em causa vale a pena recordar a história de David Harris. Em 1990 surgiu a primeira versão do seu Pegasus Mail, um programa para ler, enviar e gerir e-mails. O programa era gratuito, como ainda hoje, e tornou-se rapidamente um sucesso (mais tarde, seria ultrapassado pela força da Microsoft, que distribui o Outlook Express gratuitamente com o seu sistema operativo). Harris decidiu distribuir o programa gratuitamente porque ficou chocado com os elevados preços praticados pelas empresas que produziam este tipo de software. Tendo desenvolvido o seu programa nas horas livres, podia distribuir gratuitamente o produto do seu trabalho. Contudo, com o sucesso do seu programa, acabou por se desempregar para poder dedicar-se ao desenvolvimento do Pegasus Mail. E foi então que a falta de senso económico se tornou evidente: agora, Harris tinha de encontrar uma forma de se autofinanciar. E começou a cobrar dinheiro pelo apoio técnico e pelos manuais pormenorizados do Pegasus Mail, que é distribuído sem manuais.
Há muitas histórias como esta, e todas revelam os processos económicos fundamentais que urge compreender. Quando uma pessoa oferece algo a outra, alguém está a pagar esse bem ou serviço, directa ou indirectamente. No caso de Harris, ele só pôde oferecer o seu produto inicialmente porque a empresa onde trabalhava estava, indirectamente, a financiá-lo. Assim que Harris se despediu viu-se a braços com o problema de saber como poderia financiar-se. As pessoas que defendem, geralmente de forma veemente e não muito reflectida, as maravilhas do software gratuito são vítimas de uma ilusão fundamental, não compreendendo que, na verdade, quem está a pagar indirectamente esse trabalho são as empresas onde trabalham as pessoas que desenvolveram esse software. E como essas empresas só subsistem porque vendem serviços ou bens que as pessoas compram, são essas pessoas que estão a sustentar esse software, que só aparentemente é gratuito. Na verdade, a única diferença entre a gratuitidade do sistema operativo Linux, por exemplo, e a não gratuitidade do Windows, é que o primeiro é pago por todos os consumidores em geral, independentemente de usarem ou não o Linux, ao passo que o Windows é exclusivamente pago por quem o usa. Note-se que este argumento é compatível com a defesa de que algum software é absurdamente caro — como é o caso do Windows. Tudo o que este argumento procura mostrar é que o gratuito é um mito.
Na realidade, o Windows só é caro porque é vendido em grandes quantidades; se o seu mercado fosse um centésimo do que é, seria barato. O problema, neste caso, é que não se sabe coordenar a diferença entre o valor intrínseco de algo com o seu valor de mercado. (E não ajuda o facto de os economistas fugirem sistematicamente da ideia de que as coisas podem ter um valor intrínseco, para além do valor de mercado.) É o mesmo conflito que está em causa quando se compara o valor intrínseco das funções desempenhadas por um professor, por exemplo, com o valor intrínseco das funções desempenhadas por um futebolista, comparando estes valores com o valor que o mercado atribui às suas funções; como o futebolista atrai milhares de pessoas, dispostas a pagar bem para ver a sua actuação, este acaba por ganhar muitíssimo mais do que o professor. Popularmente, isto provoca indignação. Mas a verdade é que ninguém está a fazer algo de errado: nem o futebolista, nem quem assiste ao futebol e paga os seus bilhetes, nem os empregadores do futebolista. O que se passa é que o número de consumidores interessados em futebol distorce o valor real do produto, e ninguém sabe como se resolve este problema sem provocar injustiças.
Um dos aspectos chocantes da cultura portuguesa é a ideia de que a cultura deve ser gratuita. Esta ideia enfrenta o mesmo problema de quem defende o software gratuito: é uma ilusão, pois alguém paga, de facto, o produto — e talvez seja uma injustiça, pois talvez pague o serviço ou bem quem não o consome. Mas no caso da cultura, a estranha disseminação que a gratuitidade tem resulta talvez do facto de não haver muitos profissionais da cultura no nosso país. No Reino Unido, por exemplo, há inúmeras pessoas doutoradas em história, artes ou física que trabalham em regime de free-lancers, escrevendo livros e artigos, dando conferências, etc. Quando se vive destas actividades, não se pode ter a veleidade de pensar que estas podem ser gratuitas. Mas quando as únicas pessoas que fazem estas actividades são amadores, que profissionalmente fazem outra coisa qualquer, gera-se a ilusão de que a filosofia é gratuita, mas a mecânica de automóveis não.
Ao decidir tornar-se uma revista paga, a Crítica está também a tentar contribuir para que as pessoas revejam os seus preconceitos relativamente ao valor da cultura. Se pagamos o tabaco, o azeite e os óculos de Sol (e fazêmo-lo para financiar as pessoas que fazem essas coisas), por que não pagar a filosofia? Quem faz da filosofia a sua vida precisa tanto de ser financiado como um agricultor — sobretudo se não tiver emprego, como é o meu caso.
A alternativa à subscrição directa seria recorrer à publicidade nas páginas da Crítica. Mas esta alternativa só tem desvantagens: os leitores são massacrados com inúmeros anúncios agressivos, que geram uma receita risível para a Crítica. Isto acontece porque, ao contrário da televisão, dos anúncios de rua ou nos jornais, a publicidade na Internet não gera receitas em função da quantidade de visualizações junto do público, mas sim da quantidade de vezes que o público resolve clicar nos anúncios. Imagine-se que preço teriam os jornais ou a televisão se as empresas que anunciam nesses meios pagassem a publicidade apenas em função do número de telefonemas que tais anúncios geram. Assim, a publicidade não é uma alternativa sensata à subscrição directa.
Como alternativa à subscrição há ainda o muito usado produto para sapatos que dá pelo nome de "graxa". Se a minha espinha dorsal fosse diferente, talvez neste momento esta revista recebesse apoio do Ministério da Cultura ou da Educação. Há inúmeros projectos sem a qualidade comparável da Crítica que recebem esses apoios. Além dos jogos de bastidores que estes apoios envolvem, há um aspecto mais geral igualmente importante: a ideia de que todos os contribuintes portugueses devem pagar indirectamente a Crítica para que os seus leitores não tenham de a pagar directamente é pura e simplesmente indefensável.
A razão pela qual a Crítica só agora enveredou pela via da subscrição obrigatória é o uso escolar dos seus materiais. Efectivamente, a Crítica é lida por muitos estudantes, e gostaria que continuasse a sê-lo. Será que alguns desses estudantes deixarão de ler a Crítica? Talvez. Por outro lado, não é injusto que os pais desses estudantes estejam dispostos a dar sessenta euros por CD-ROMs multimédia que pouca ou nenhuma informação fidedigna contêm, recolhendo depois os seus filhos mais informação gratuita na Crítica? Sem dúvida que sim. Por isso, é perfeitamente justo que os pais desses estudantes subscrevam a Crítica.
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