Ponte, de Agnieszka J. Kowalczyk
17 de Dezembro de 2007 ⋅ Opinião

Filosofia: a arte de pensar

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A filosofia é uma disciplina algo diferente das outras. Em história ou biologia, por exemplo, trata-se sobretudo de compreender um conjunto de importantes resultados, e de saber eventualmente raciocinar com base neles. Raramente ou nunca os estudantes se deparam com problemas em aberto, apesar de haver vários problemas em aberto nessas disciplinas. Um problema em aberto é um problema que os especialistas dessa disciplina não sabem resolver — estão a tentar resolvê-lo agora, tal como no passado tentaram e conseguiram resolver os problemas que deram origem ao que hoje são os resultados que estudamos nas escolas e universidades.

Porque em filosofia não há resultados consensuais substanciais para estudar, esta disciplina exige dos estudantes — e dos professores — uma atitude diferente da que têm relativamente a outras disciplinas: em filosofia, não é apenas uma questão de compreender as ideias dos filósofos e de saber explicá-las. Em filosofia, o objectivo é aprender a discutir as ideias dos filósofos — ou seja, aprender a filosofar, gradualmente. É como aprender a pintar ou aprender natação. Nos dois casos podemos aprender muitas teorias sobre pintura e sobre natação, mas o objectivo dessa aprendizagem é saber pintar um quadro ou saber nadar. Analogamente, é importante compreender correctamente as ideias dos filósofos, mas o objectivo é saber filosofar e não apenas saber repetir as ideias dos filósofos.

Isto significa que a filosofia é uma disciplina muitíssimo criativa; não é apenas uma questão de compreender as coisas, é uma questão de nos entregarmos à mesmíssima discussão a que os grandes filósofos do passado e do presente se entregam. Significa que teremos de apresentar ideias, argumentos, objecções, contra-exemplos; teremos de compreender correctamente os problemas em causa, para podermos avaliar as diferentes teorias ou teses que procuram resolvê-los. Tudo isto significa que temos de ter alguns instrumentos críticos, que nos permitam avaliar ideias e argumentos, teorias e teses. A uma parte desses instrumentos críticos chama-se lógica, tanto informal como formal. A lógica permite-nos estudar melhor os argumentos dos filósofos e ajuda-nos a argumentar melhor a favor das nossas ideias ou contra as ideias que consideramos erradas.

Para nos orientarmos nesta disciplina, não basta saber que a filosofia trata fundamentalmente de problemas em aberto. É preciso também ter uma ideia clara do tipo de problemas abordados pela filosofia. Neste caso, a filosofia é parcialmente semelhante a uma disciplina que todos conhecemos bem: a matemática. É semelhante à matemática no sentido em que na matemática, ao contrário da física ou da história, não tratamos de problemas empíricos; ou seja, não tratamos de problemas que possamos resolver recorrendo à experiência empírica — à visão, medição, testes laboratoriais, telescópios, microscópios, etc. Os problemas da matemática abordam-se recorrendo unicamente ao pensamento, sem auxílio da experiência empírica. O mesmo acontece na filosofia: os problemas da filosofia abordam-se recorrendo unicamente a pensamento. Mas há uma diferença fundamental: na matemática só se abordam problemas que podemos resolver ou pelo menos formular formalmente, recorrendo aos formalismos da própria matemática. No caso da filosofia, abordamos problemas que não podem ser resolvidos formalmente, recorrendo à matemática ou à lógica.

Dito assim, até parece que a filosofia não tem realmente seja o que for para estudar, porque se excluirmos os problemas da matemática, que podem ser abordados pelo pensamento apenas, e os problemas das ciências empíricas, que são resolvidos pela experiência e pela experimentação, nada parece sobrar para ser seriamente estudado. Mas pensar isto é um erro — apesar de alguns filósofos, surpreendentemente, terem precisamente defendido, de modo mais ou menos explícito, que a filosofia era um enorme disparate, por não ter um método seguro para alcançar resultados, como as ciências e a matemática. Mas eis a filosofia em acção: se um filósofo nos disser uma coisa destas sobre a filosofia, nós podemos perguntar-lhe por que razão haveremos de aceitar que só é legítimo estudar os problemas para os quais temos métodos decisivos de solução. E agora o filósofo fica em apuros, pois seja qual for a resposta que der, esta resposta é tipicamente filosófica: será um argumento, e esse argumento não será empírico nem formal. E assim mostramos que a filosofia é inevitável, pois mesmo para refutar a filosofia temos de argumentar filosoficamente: não há argumentos científicos ou matemáticos ou históricos contra a filosofia.

Assim, os problemas da filosofia são precisamente os problemas que queremos resolver porque nos preocupam — mas não sabemos resolvê-los de outra maneira senão pensando tão cuidadosamente quanto possível sobre eles. Não sabemos resolvê-los matematicamente, nem empiricamente, nem historicamente. Tudo o que podemos fazer é pensar. Daí que, num certo sentido, a filosofia seja a arte de pensar.

Desidério Murcho
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