Diógenes (pormenor), de Jean-Léon Gérôme (1824-1904)
4 de Fevereiro de 2008 ⋅ Opinião

A irrelevância da filosofia

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A filosofia é irrelevante, num certo sentido. No sentido psicológico em que a generalidade das pessoas se está nas tintas para o escrutínio cuidadoso das suas convicções. Mas nesse sentido psicológico, quase tudo é irrelevante para quase toda a gente: quase ninguém no mundo tem paciência para aprender a dirigir uma orquestra, ou para saber física quântica, ou para conduzir táxis ou para fazer pão.

Os filósofos ocupam-se do estudo cuidadoso das nossas convicções e crenças mais básicas. Tão básicas que por vezes não temos sequer consciência de que as temos: apenas agimos aceitando-as como pressupostos óbvios. Eis alguns exemplos: pensamos que o mundo não foi criado há dez minutos, com todos os falsos indícios para nos fazer pensar o contrário; pensamos que as outras pessoas têm uma interioridade como a nossa, não sendo meros autómatos; pensamos que o que acontece no passado é um bom guia para o que acontece no futuro, e que por isso a água que ontem nos saciou a sede hoje não vai envenenar-nos.

Os filósofos ocupam-se em grande parte do estudo destas convicções profundas. E um dos aspectos que mais nos interessa é a justificação. Sem dúvida que a justificação é irrelevante para a generalidade das pessoas. As pessoas não acreditam em todas aquelas coisas por haver ou deixar de haver boas justificações para elas. Mas para os filósofos é irrelevante que para a generalidade das pessoas as justificações sejam irrelevantes. Para o maestro também é irrelevante que para a maior parte das pessoas saber dirigir uma orquestra seja irrelevante. Não é irrelevante para o maestro.

Pensa-se por vezes que a filosofia serve apenas para pôr uma cereja de erudição e autoridade em cima do bolo das nossas convicções mais queridas. Mas isto é perverter a filosofia. A atitude filosófica por excelência é a atitude socrática de examinar a nossa vida, pois "uma vida não examinada não vale a pena ser vivida", como Platão (427-347 a.C.) escreveu na Apologia, p. 38a. Este trabalho filosófico é irritante, incómodo, irrelevante? Talvez. Mas é isto a filosofia — e não elucubrações que visam a adesão irreflectida do ouvinte, reformulando com palavras caras os preconceitos que nos são mais queridos. Filosofar é destruir preconceitos e não perfumá-los com o bálsamo da moda.

A atitude socrática deu origem à física, à história e à musicologia, entre outras coisas, e ainda está na base destas actividades. A maior parte das pessoas não tinha grande interesse em justificar a convicção de que os objectos caem; nem em justificar a convicção de que a Terra está imóvel. Mas algumas pessoas deram-se a esse trabalho. E hoje compreendemos melhor o mundo por causa dessa atenção à justificação. O que Sócrates queria dizer é que a vida será emocionalmente mais pobre se não dermos atenção à justificação das nossas crenças mais profundas. Essa atenção liberta-nos do nosso paroquialismo emocional. Transforma-nos em cidadãos do universo.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (15 de Janeiro de 2008)
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