Raios de Jersey, de Michael Galkovsky
4 de Março de 2008 ⋅ Opinião

Acesso privilegiado à verdade

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Uma das mais constantes mentiras presentes na mentalidade humana é a ideia de que há modos de acesso privilegiado à verdade. Como muitas mentiras nocivas, também esta se alimenta do silêncio: a ideia nunca é realmente formulada frontalmente pois, se o fosse, quase toda a gente perceberia que é uma palermice. Somerset W. Maugham (1874-1965) escreveu que uma das maiores embófias que os mais velhos pregam aos mais novos é a ideia de que eles, os mais velhos, são mais sábios e sensatos; quando os mais novos descobrem finalmente que isto é uma palermice já são velhos, de modo que não sentem grande urgência em repor a verdade. Algo de semelhante se passa com a ideia de que há modos de acesso privilegiado à verdade: as únicas pessoas que realmente poderiam denunciar a mentira são precisamente aquelas a quem as outras atribuem um acesso privilegiado à verdade, pelo que não estão muito ansiosas por fazê-lo.

A ideia do acesso privilegiado à verdade manifesta-se na religião, na política, na filosofia, na ciência; e está na base de importantes movimentos de ideias. As suas manifestações mais óbvias são religiosas, mas está igualmente presente na ciência e na filosofia, havendo pessoas que acreditam que quanto mais obscuro é um filósofo mais claro é que tem um acesso privilegiado à verdade — de modo que quando parece que disse um disparate, isso é apenas porque a nossa interpretação é pouco sofisticada.

Um dos movimentos filosóficos com maiores repercussões na cultura do séc. XX foi o positivismo lógico. Na base deste movimento está precisamente a ideia de que há um modo de acesso privilegiado à verdade: a verificação empírica. A ideia é que o contacto com a experiência empírica pode fornecer um critério de verdade de tal modo seguro que nos dá um acesso privilegiado à verdade — e o único que existe. O princípio, contudo, é falso, e a sua falsidade foi demonstrada pelos próprios positivistas. Mas era tarde de mais, porque já muitas pessoas acreditavam no princípio — e continuam a acreditar. É demasiado tentador acreditar que o que dá carácter científico à ciência é a observação. Tal como é demasiado tentador pensar que uma determinada experiência religiosa — minha ou de umas pessoas que morreram há séculos — é infalível e que as coisas são realmente como me parecem que são.

A alternativa a isto é a maçada de reconhecer que não há modos de acesso privilegiado à verdade: há apenas o trabalho contínuo, a tentativa e erro, a discussão pública e aberta de ideias, a disposição para nos corrigirmos constantemente, a procura humilde da exactidão. Pode ser uma maçada, mas tem a vantagem assinalável de ser mais plausível do que a fantasia de que há modos de acesso privilegiado à verdade — sejam eles religiosos, científicos, filosóficos ou poéticos. Ninguém tem um acesso privilegiado à verdade — mas todos podemos procurá-la como iguais. E, trabalhando em conjunto, podemos limitar os nossos erros.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (12 de Fevereiro de 2008)
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