O Escriba Público, de Walter Gould
10 de Março de 2008 ⋅ Opinião

Discussão pública

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A discussão pública é o cerne da democracia porque aceitamos o pressuposto sensato de que ninguém tem um acesso privilegiado à verdade. Contudo, perverte-se a discussão pública quando esta não é encarada como procura pública da verdade mas antes como manipulação e "contagem de armas". Discutir ideias publicamente é procurar a verdade com boa vontade, sinceridade e honestidade intelectual. "Contar armas" é só gritar até à exaustão as mesmas ideias feitas, como num comício, para estimular as pessoas que já concordam connosco a entrar na onda.

Poder-se-ia pensar que as pessoas envolvidas em discussões públicas acaloradas não têm preparação suficiente em lógica informal para saber discutir ideias proficientemente, e isso é parcialmente verdade — mas não é toda a verdade. Pois há uma diferença entre errar por desconhecimento e não mostrar boa vontade para discutir ideias com cuidado. Não há tal boa vontade quando a discussão pública é entendida como "contagem de armas"; não se trata então de entrar em diálogo crítico com quem discorda de nós, mas apenas de incitar as pessoas que já concordam connosco a manifestar-se publicamente, para se "contar armas". É a substituição da genuína discussão pública pela força bruta do número.

Um argumento, para ser cogente, tem de reunir três condições. Tem de ter premissas verdadeiras; as suas premissas têm de tornar impossível ou improvável a falsidade da conclusão; e tem de ter premissas mais plausíveis do que a conclusão. Mas mais plausíveis para quem? Para quem discorda da conclusão. Quando argumentamos a favor de algo, a nossa audiência não é quem já concorda connosco, mas quem discorda. E por isso temos de usar argumentos com premissas que essas pessoas aceitem. Ora, dado que elas rejeitam a nossa conclusão, encaram essas premissas como mais plausivelmente verdadeiras do que a conclusão. O trabalho argumentativo consiste então em mostrar que aquilo que essas pessoas já aceitam implica o que elas querem rejeitar. Isto significa que qualquer discussão racional pressupõe um pano de fundo de opiniões partilhadas, sem o qual nenhuma argumentação cogente pode ter lugar. Discutir ideias é uma abertura aos outros e uma procura de um terreno comum, no qual possamos estudar o que nos divide.

A democracia exige uma genuína discussão pública de ideias. Isso só é possível se formos todos um pouco ateus perante as nossas próprias convicções. Chama-se a isso abertura de espírito: a capacidade para avaliar imparcialmente e com boa vontade todas as ideias, por mais ofensivas ou insuportáveis que nos pareçam. Sem isso, a democracia é uma miragem porque o fundamento da sua estrutura decisória não funciona.

Mas não é apenas a democracia que exige uma discussão genuína de ideias, que não seja mera retórica e "contagem de armas". É a própria vida. Pois nada é mais prático do que ter opiniões verdadeiras, e a probabilidade de as alcançarmos sem discussão de ideias é quase inexistente.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (19 de Fevereiro de 2008)
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