O Caminho para Wigan Pier
1 de Fevereiro de 2009 ⋅ Opinião

Orwell e a igualdade

Maria Filomena Mónica
Universidade de Lisboa

Em vésperas de deixar a vida académica, dei comigo a reflectir sobre o estado da disciplina, a sociologia, a que dediquei, se não os melhores, os mais enérgicos anos da minha vida. Pensei em voltar a ler os clássicos, K. Marx, M. Weber e E. Durkheim, que eu tentara ensinar no final dos anos 1970 em Teorias Sociológicas, assim se chamava a disciplina que eu leccionava no ISCTE. Fiz três montinhos com os respectivos livros, que coloquei ao lado das fichas usadas para os apontamentos de apoio às aulas. Mas eis que sobreveio o enjoo. Mesmo a leitura de obras que prezo, como O 18 Brumário de Luís Napoleão, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo e O Suicídio, não despertou, em mim, o mais leve apetite.

Eu queria, precisava, de qualquer coisa de actual ou, melhor, de qualquer coisa que correspondesse à minha recorrente interrogação no sentido de saber quais os motivos que ainda me levam a considerar de esquerda. Lembrei-me então de reler Orwell: não os seus romances, que considero menores, mas as suas obras de reportagem. Para meu espanto, descobri que, caso ainda desse aulas de sociologia, as teria começado pelo The Road to Wigan Pier, um livro recentemente traduzido para português.

A reportagem que Orwell nos deixou sobre a vida nas comunidades mineiras do Lancashire e Yorkshire durante os anos 1930 — uma época de grande desemprego — é uma obra-prima. Sem o saber, Orwell faz sociologia. E fá-lo da forma como a disciplina deve ser praticada, isto é, começando, não com abstracções, mas pela observação do rosto de uma rapariga. Cito-o longamente, pois penso ser esta a única maneira do leitor compreender a abordagem que usa. Eis o que Orwell escreve no final do capítulo I, ao deixar a comunidade operária que visitara:

"Através daquele cenário monstruoso, formado por montículos de carvão, chaminés, pilhas de sucata, canais mal cheirosos e caminhos de lama cobertos por cinza, onde ainda se viam as marcas deixadas pelos tamancos, o comboio levava-me para longe. Era Março, mas o tempo tinha estado excepcionalmente frio e, por todo o lado, se podiam ver restos de neve enegrecida. À medida que nos movíamos, devagarinho, pelos arrabaldes da cidade, íamos vendo filas e filas de casas pobres, pequenas e cinzentas, dispostas em ângulo recto em relação ao viaduto. Nas traseiras de uma dessas casas, uma jovem rapariga estava de joelhos sobre umas pedras, enfiando um pau pelo cano de esgoto de chumbo, presumivelmente entupido, que vinha do interior da casa".

Repare-se na maneira como termina o parágrafo:

"Tive tempo para reparar nela: no seu avental de serapilheira, nos seus tamancos rudes, nos seus braços avermelhados pelo frio. Ela olhou para cima, em direcção ao comboio que passava e tão perto estava que quase consegui captar o seu olhar. Tinha uma face redonda e pálida e a cara usualmente exausta de uma rapariga destes bairros, as quais, à força de abortos e de cansaço, apesar de terem apenas vinte e cinco parecem ter quarenta anos. (...) O que vi no seu rosto não foi o sofrimento ignaro de um animal. A rapariga sabia perfeitamente o que lhe estava a acontecer: sabia, tal como eu, quão terrível era o destino que a obrigava a estar ali, sob o frio, ajoelhada nas pedras escorregadias de umas traseiras domésticas, tentando meter um pau no interior de um esgoto nojento" (Todas as traduções são minhas).

Poucos foram, seriam, capazes de escrever assim sobre a condição operária.

Observador atento, Orwell consegue transmitir-nos a humilhação a que os trabalhadores eram quotidianamente sujeitos. Aliás, não é só o sofrimento dos trabalhadores que o indigna, mas as casas escuras, as ruas feias e os bairros imundos onde viviam seres tão longe, e por isso tão distantes, das classes médias do sul do país. Apesar do seu esforço, tinha consciência das barreiras que existiam entre ele e os mineiros, as quais começavam no sotaque, a mais óbvia, e terminavam em aspectos tão subtis quanto o cheiro.

Orwell era dotado de um olfacto particularmente sensível, o que faz que, em várias obras, o cheiro apareça como um elemento determinante. Ao contactar os operários, notou logo que o seu cheiro lhe era desagradável:

"Aqui, de facto, encontrei uma barreira intransponível. Por que não há sentimento de simpatia e antipatia tão fundamental como um sentimento físico. O ódio racial, o ódio religioso, as diferenças de educação, de temperamento, de intelecto, até diferenças de códigos morais podem ser ultrapassadas; a repulsa física não".

A peregrinação de Orwell ao interior da Inglaterra proletária é entrecortada por reflexões variadas sobre o seu itinerário. Ao longo dos primeiros capítulos, vai-nos fornecendo informações sobre a sua infância na Índia (onde nascera em 1903), a sua adolescência em Eton (frequentado com uma bolsa de estudo) e a solidão de um menino tímido diante da juventude doirada do seu tempo.

Apesar da qualidade, o livro teve problemas em ser publicado. Quando Victor Gollanz, o editor que o encomendara, o leu, não pôde deixar de admirar a prosa, mas o libelo, incluído na segunda parte do livro, deixou-o aterrado. Ainda tentou publicar apenas a parte inicial, mas, como era de prever, Orwell recusou a ideia. Em 1937, Gollanz ousou dar à luz a obra, mas preventivamente, colocou, no início, um prefácio seu, no qual avisava os leitores que The Left Book Club não se identificava com os pontos de vista do autor.

Orwell era oriundo de uma família da baixa classe média. Ao terminar a escolaridade, diferentemente do que aconteceu na maior parte dos casos dos seus colegas, não encontrou um emprego na City. Em 1922, sem saber o que fazer, partiu, como polícia, para a Birmânia. Um anónimo indiano, condenado à morte, fê-lo compreender, de um jacto, a injustiça da presença imperial britânica. Em 1927, abandonava o posto.

Na Penúria em Paris e Londres

Como alguns dos ex-alunos de Eton, de Oxford e de Cambridge, durante os ardentes anos 1930, Orwell sentia um profundo sentimento de culpa em relação às desigualdades sociais que via à sua volta. Hoje, a ideia de que alguém se possa aproximar da esquerda por compaixão parece ridícula, mas não devemos menosprezar este sentimento. No seu caso, Orwell tentou aliviar a sua consciência, adoptando o estilo de vida dos mais pobres entre os pobres. Durante alguns meses, partilhou com os vagabundos a sua existência. Foi esta descida aos Infernos que constituiu o tema do seu primeiro livro, Down and Out in Paris and London (1933).

A partir de meados da década de 1930, a sua atenção concentrou-se na ascensão do nazismo na Europa. Ao desprezaram Hitler, as classes dirigentes britânicas tinham-se tornado, na sua opinião, incapazes de compreender o perigo que esta corrente política representava. Orwell foi dos primeiros a chamar a atenção para o elemento revolucionário contido no nazismo, que via como um movimento de massas, e não, como diziam os intelectuais do seu tempo, o fruto de uma clique reaccionária. Segundo ele, a única forma de impedir que o nazismo alastrasse pela Europa era através de um movimento socialista alargado. Muitos dos chamados homens comuns estavam, pensava, de acordo com os ideais de esquerda, só não aderindo ao movimento por os intelectuais lhes darem a impressão de que o seu lugar não era ali:

"Para muitas pessoas que se intitulam socialistas, a revolução não significa um movimento de massas, com as quais esperam associar-se, mas um conjunto de reformas que nós, os espertinhos, lhes vamos impor, a eles, os pobre-diabos".

Ora, para Orwell, uma revolução socialista teria de ser feita por um partido de massas e não por uma vanguarda.

Poderão responder-me que, na Europa, já não há a miséria que Orwell encontrou em Wigan. É verdade que as comunidades operárias tradicionais, tais como existiam no Barreiro, na Marinha Grande, em Aljustrel, desapareceram. Hoje, os operários de boina, dirigindo-se para o trabalho de bicicleta, só podem ser vistos nos filmes italianos do pós-guerra. Mas isso não significa que a pobreza tenha desaparecido. Longe disso: ela está aí, para quem a queira ver, nos sem-abrigo que dormem na Baixa pombalina, nas salas das urgências dos hospitais públicos, nas filas dos centros de emprego. O desconforto de Orwell em relação aos pobres sempre me tocou. Como ele, não penso ser possível viver com dignidade num país que esquece os seus membros mais desfavorecidos.

A segunda parte da obra de Orwell é um ataque aos seus amigos de esquerda. Segundo ele, estes tinham aderido ao movimento não tanto por simpatia pela causa operária, mas por albergarem um sentimento de inveja em relação às classes superiores. Algumas das suas frases, como aquela em que descreve os esquerdistas como "uma tribo deprimente de mulheres insuportáveis e de homens barbudos, passeando-se de sandálias, só bebendo sumos de fruta...", ficaram célebres. Foram, na realidade, linhas como esta que fizeram que, em muitos círculos, Orwell passasse a ser tido com um homem de direita. Nada pode estar mais longe da verdade.

É verdade que a arrogância das classes ricas não lhe mereceu a fúria que acabou por dedicar à esquerda, mas isto apenas sucedeu porque ele pensava que aquelas eram inimigos a abater, e não correligionários a reformar. Orwell militou, durante alguns anos, no I.L.P. (Independent Labour Party), um grupo situado à esquerda do Labour Party, e era sobretudo esta gente, que ele via todos os dias, que o irritava. Durante os anos 1940, quando escreveu uma coluna regular no jornal Tribune, continuaria a verberar estes seus camaradas, bem como os comunistas, a quem chamou "meio gangsters, meio gramofones".

O pensamento de Orwell exibe um número suficiente de contradições para permitir interpretações variadas quanto à sua identificação ideológica. Segundo ele, o passado, o presente e o futuro continham coisas boas e más, ou seja, nem o passado era uma noite escura, nem o futuro um paraíso luminoso. Além de não acreditar no progresso, amava a natureza de forma apaixonada. Possuía um sentido patriótico forte. Preferia o campo à cidade. Desprezava as burocracias. Suspeitava da bondade dos governos. No que dizia respeito aos costumes, era conservador. Mas Orwell alimentou sempre a esperança de que os socialistas fossem capazes de dar prioridade à liberdade em detrimento das tendências autoritárias que antevia no movimento.

Independentemente dos rótulos que se lhe queiram aplicar, há, neste homem que constantemente nos fala da resistência à opressão, das virtudes da fraternidade e do prazer de se pensar livremente, qualquer coisa de "decente", no sentido anglo-saxónico do termo. Eric Blair, o seu verdadeiro nome, era um indivíduo moralmente íntegro que, além disso, nos deixou algumas das grandes reportagens da história moderna. Uma maneira de o conhecer é exactamente através de The Road to Wigan Pier.

Maria Filomena Mónica
Originalmente publicado no jornal Público
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