19 de Setembro de 2010 ⋅ Opinião

Edições e editores

Aires Almeida
Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, Portimão

No panorama livreiro português há coisas incompreensíveis. Deixo aqui três exemplos.

1.

Quem passar por uma livraria portuguesa e olhar para a capa de O Erro de Descartes (Europa-América), poderá ficar surpreendido ao ver que o livro de António Damásio vai já na 23.ª edição. Poderá, inclusivamente, descobrir que só no ano de 1995 houve nada menos do que 14 edições, quatro das quais no mês de Julho.

Se não estivesse habituado à falta de rigor e de profissionalismo de muitos editores portugueses, iria pensar que Damásio se tinha tornado um caso patológico de instabilidade académica e intelectual, para estar constantemente a alterar o conteúdo do livro. Isto porque tecnicamente só estamos perante uma nova edição se o autor modifica a sua obra. Nem sequer quando se procede a pequenas correcções de gralhas e de erros pontuais se pode dizer que há uma nova edição do livro. Uma nova edição ocorre apenas quando o autor — ou alguém em seu nome — introduz alterações substanciais em relação à edição original — ou à anterior —, acrescentando, suprimindo ou reescrevendo parte do seu conteúdo. Mas de modo algum estamos perante uma nova edição quando o conteúdo do livro é igual ao que já conhecíamos, mesmo que com uma nova capa ou num formato diferente — por exemplo, no formato de edição de bolso em vez de capa dura. Imagine-se, pois, o que seria se o que é anunciado na capa do livro de Damásio fosse correcto.

O que se passa é que o editor, um dos maiores de Portugal, não tem ideia do que é uma edição, confundindo edição com reimpressão. De resto, isto acontece com muitos outros editores nacionais. Assim, ao contrário do que se anuncia na capa, o livro de Damásio vai ainda na primeira edição, apesar de já terem sido feitas 23 reimpressões da mesma.

Posto isto, qual é o interesse para o leitor em saber que o livro já teve 23 reimpressões?

Indicar na capa que se trata de uma edição diferente da anterior — quando é esse o caso — é muito importante, pois deste modo o leitor fica a saber que se trata de um livro diferente. Pode, assim, justificar-se a compra da nova edição, mesmo que se tenha em casa a anterior. É também por isso que na bibliografia de estudos e ensaios académicos se deve indicar sempre a edição — caso haja mais do que uma — das obras citadas ou utilizadas, pois o que se encontra numa edição pode não se encontrar noutra. Mas a indicação das reimpressões é irrelevante.

Na verdade, a ideia do editor é sugerir aos leitores, de modo algo enganador, que o livro é um sucesso. E de modo enganador porque o número de reimpressões pouco diz sobre o sucesso de um livro. O que realmente conta é o número de exemplares vendidos: um livro que venda vinte e três reimpressões de trezentos exemplares vende muito menos do que outro com uma única impressão de vinte e cinco mil exemplares. Estamos, portanto, perante um caso em que o próprio editor não tem ideia do que é uma edição, o que é grave, e que, ainda por cima, recorre a publicidade enganosa para dar mais visibilidade ao seu produto.

2.

Foi uma agradável surpresa descobrir que a tradução portuguesa do mais recente livro de Dennis Dutton, The Art Instinct, tinha acabado de ser publicada pela Temas & Debates / Círculo de Leitores. Apesar de o título português Arte e Instinto me ter deixado algumas dúvidas (O Instinto Artístico seria mais adequado) e de já ter a edição original, decidi comprar o livro.

Acontece que, logo nas primeiras páginas, se tornou óbvio que a tradução foi feita por alguém que não está minimamente familiarizado com a filosofia da arte, a ponto de tornar algumas passagens completamente obscuras. Ora, o que é grave não é o livro ter sido traduzido por alguém que não está familiarizado com a filosofia da arte mas o facto de isso ser assim tão notório.

Por exemplo, na página 16 refere-se o “engano intencional” a propósito da interpretação das obras de arte. Alguém familiarizado com o tema nem sequer precisa de ir ao original para ver que lá estava intentional fallacy, uma noção introduzida no vocabulário da filosofia da arte por W. K. Wimsatt e Monroe Beardsley nos anos 40 do século passado. Estes dois filósofos procuraram mostrar que é falacioso interpretar o significado das obras de arte invocando as intenções dos artistas que as criaram, o que tem dado origem a enormes discussões entre intencionalistas e anti-intencionalistas. É, pois, fácil verificar que traduzir intentional fallacy por “engano intencional” irá deixar o leitor completamente perdido — mesmo que a noção original seja algo ambígua, só que em sentidos muito diferentes do que sugere a tradução portuguesa.

Este tipo de erros, que prejudicam seriamente a própria inteligibilidade do que se lê, poderiam ser evitados de uma de duas maneiras: ou a tradução ser feita por alguém da área ou então submetê-la a uma revisão científica. Mas é isto precisamente que as editoras portuguesas frequentemente desprezam, partindo do princípio que todos os tradutores servem para traduzir todos os livros e que as revisões científicas não precisam de ser mais do que simples cosmética. Daí que fosse uma excelente ideia as editoras que realmente apostam na qualidade das suas traduções incluírem nas próprias capas dos livros os nomes dos tradutores. É, de resto, o que fazem muitas das melhores editoras de outros países mais desenvolvidos. Seria uma boa maneira de promover a responsabilização dos tradutores e da própria editora por aquilo que traduzem e publicam.

3.

O clássico de Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia (Edições 70), tem finalmente uma tradução portuguesa. Ainda por cima é uma tradução à altura, feita por Vítor Guerreiro. Apesar disso, foi com alguma relutância que decidi comprá-lo. Não por ter o original — que tenho — mas porque há um aspecto importante em que a tradução não respeitou o original: aquilo que em português costumamos chamar “índice geral” — e em inglês é contents — está no fim quando deveria estar no princípio do livro, como no original.

É certo que esta tem sido uma opção do editor e não tanto de tradução. Mas tal opção não faz qualquer sentido, tal como não faz sentido conhecer a ementa apenas no fim da refeição. E quando um conferencista apresenta no início, e não no fim, da sua conferência o resumo ou os tópicos do que vai apresentar, está a fazer precisamente o mesmo que se espera encontrar num livro.

O argumento de que há duas tradições, a anglo-saxónica e a francesa, não é convincente, pela simples razão de que até já as editoras francesas, espanholas e italianas estão a colocar o índice geral no início. Além disso, nunca há boas razões para manter uma tradição errada. Este erro talvez decorra da confusão entre índices remissivos, analíticos, onomásticos, etc. — aquilo que em conjunto se chama index — e o sumário do conteúdo, a que em português costumamos chamar, de forma algo imprecisa, é certo, índice geral.

Seja como for, em caso de dúvida, numa tradução deve prevalecer sempre o que se encontra no original.

E então?

Os exemplos que acabei de expor não evidenciam apenas a frequente falta de profissionalismo de muitas editoras portuguesas. Esta falta de profissionalismo é provavelmente o resultado da falta de exigência dos próprios leitores.

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