Educação de Cão, de stockforfood.com
9 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Duas concepções da educação: a mecanicista e a orgânica

T. W. Moore
Tradução de Rui Daniel Cunha

Há uma distinção entre duas concepções diferentes de uma teoria geral da educação, uma distinção entre uma concepção mecanicista e uma concepção orgânica, baseada em diferentes pressupostos acerca da natureza do ser humano. Por um lado, há a suposição de que o ser humano é análogo a uma máquina, a um sistema de inputs e outputs, cujos outputs ou comportamentos podem ser modelados e dirigidos de fora. Por outro lado, há a suposição de que o ser humano é essencialmente um organismo, que cresce e se desenvolve por dentro, e cujo desenvolvimento pode ser facilitado através da provisão de ambientes estimulantes e agradáveis. Esta distinção traduz-se em diferentes noções ou teorias acerca do papel do professor e do aluno.

A perspectiva mecanicista, na sua forma mais simples, vê a educação como uma transacção entre o professor e o aluno, na qual, pelo menos inicialmente, todas as vantagens estão de um lado e todas as insuficiências estão do outro. O professor é uma autoridade, um repositório do conhecimento, um perito. O aluno não é nada disto. A transacção toma a forma de o professor entregar ao aluno o conhecimento e as competências (skills) de que ele necessita. O fluxo é de sentido único, do professor para o aluno, dado que apenas desta maneira pode ocorrer algum proveito. O professor tem pouco ou nada a aprender com o aluno; o aluno tem tudo a aprender com o professor. Assim, a situação exige o máximo de actividade pedagógica por parte do professor e o máximo de receptividade por parte do aluno. É o reconhecimento destes papéis por ambos os intervenientes que torna possível uma situação de ensino. O papel do professor é maximizar os inputs do aluno, encontrar os meios de fabricar aquelas associações na mente do aluno que constituem o conhecimento, a compreensão e a competência (skill). É tarefa do aluno receber os inputs e fazer o máximo para adquirir as associações apropriadas. A actividade do aluno, idealmente, limita-se às tarefas designadas para a produção de tais associações. A actividade “livre” ou “não estruturada” é desaprovada, especialmente a que envolve os alunos uns com os outros, como, por exemplo, o jogo ou a colaboração. Assim, o papel do professor é principalmente didáctico e regulador. Fornece o material, organiza a produção das associações e verifica se tais associações foram feitas. A sua finalidade é a obtenção dos outputs desejados por parte do aluno, a forma correcta de comportamento.

A perspectiva orgânica tende a enfraquecer a polaridade rígida que caracteriza o modelo mecanicista. O aspecto de “transacção” diminui e a ênfase é colocada na necessidade de o aluno desenvolver os seus próprios métodos de trabalho e de aquisição do conhecimento e da competência. Ainda é possível considerar o professor uma autoridade, mas o seu papel não será tão didáctico ou expositor, mas antes o de um supervisor ou consultor. O seu lugar está nas margens das várias actividades que ocorrem na sala de aula. Estará disponível para conselho e ajuda, mas não estará sempre pronto para desempenhar o papel do mestre-escola e fazer sentir a sua presença. O centro de máxima actividade será o próprio aluno. Idealmente, o aluno estará envolvido em actividades que exercitam as suas capacidades e estimulam os seus interesses, e a sua tarefa será a de conferir um sentido ao seu meio ambiente e construir por si próprio uma visão precisa da realidade. Será encorajado a fazer isto através da exploração, da experienciação, de tentativas e erros, do insight e de lidar com a realidade concreta que lhe é apresentada. A educação não será tanto uma transacção quanto um processo de descoberta. O manual será menos importante do que os problemas para serem resolvidos aqui e agora. Mais, não fará sentido restringir a atenção do aluno às palavras do professor, dado que a tarefa primária do professor não é fornecer informação à criança nem dizer-lhe o que fazer. Existirão vantagens numa polaridade lateral, de aluno para aluno, de modo a que possam aprender entre si.

Os alunos serão encorajados a cooperar entre si, a adquirir os benefícios e a disciplina da tolerância mútua numa tarefa comum. A disciplina social da cooperação tenderá a substituir o papel regulador do professor. Por trás de tudo isto está a noção de que a educação do indivíduo procede do interior, como uma consciencialização crescente do seu lugar e da sua situação, que lhe chega das suas tentativas de descobrir a natureza do seu mundo através dos seus próprios esforços.

T.W. Moore
Retirado de Philosophy of Education: an Introduction (Londres, Routledge, 1982, pp. 74-76)
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