O Encheirídion de Epicteto
15 de Maio de 2012 ⋅ História da filosofia

O punhal de Epicteto

Aldo Dinucci
Universidade Federal de Sergipe

O Encheirídion de Epicteto, de Flávio Arriano
Tradução, introdução e notas de A. Dinucci e A. Julien
São Cristóvão: EdiUFS, 2012, 96 pp.
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Acabamos de lançar, pelo editorial Prometeus, a edição bilíngue do Encheirídion de Epicteto, obra do aluno de Epicteto (55-135) e cidadão romano de origem grega Lúcio Flávio Arriano de Nicomédia (86-160). Tal tradução, produzida por Aldo Dinucci (doutor em filosofia pela PUC-RJ e professor associado do Departamento de Filosofia da UFS) e Alfredo Julien (doutor em história pela USP e professor adjunto do Departamento de História da UFS), foi parcialmente financiada pelo CNPq (edital MCT/CNPq 02/2009 - Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas).

O Encheirídion de Epicteto não é, como muitos poderiam imaginar e como a obra já foi muitas vezes qualificada, um de livro de autoajuda da Antiguidade, mas sim um guia para uma vida filosófica que supõe o conhecimento da lógica estoica e sua aplicação a diversos aspectos de nossa vida cotidiana. Partindo da distinção entre o que é nosso encargo ou não, Epicteto afirma que as únicas coisas que estão sob nosso controle são os juízos, os desejos, as aversões e os impulsos, âmbitos nos quais podemos afetivamente ser livres. E ‘podemos’ está em negrito porque essa liberdade não é dada a priori, mas conquista-se através de um longo trabalho de análise lógica das concepções que cada um tem sobre as coisas que o rodeiam e com as quais se relaciona. Dito em outros termos: Epicteto crê que, se dispusermos de juízos e concepções equivocados em relação a certa coisa, teremos desejos e repulsas equivocados em relação a essa mesma coisa, o que vai afetar nosso impulso para a ação em relação a ela e, consequentemente, acarretar uma atitude errônea quanto a ela. Por exemplo: se considerarmos que alimentos gordurosos fazem bem à saúde, ou que a alimentação deve ter por princípio o prazer imediato, desejaremos comer mormente alimentos desse tipo (como os lanches fast-food), deixando de lado frutas e vegetais. Nesse caso, nossos impulsos quanto à alimentação serão desorientados por nossos desejos, que, por sua vez, serão desorientados por nossos juízos errôneos. Percebe-se por aí a razão da importância capital que Epicteto confere à lógica, pois acreditava que, por meio dela, pode-se avaliar juízos, descartando os errôneos e propiciando a correção dos desejos, das repulsas e dos impulsos para a ação.

Indagado uma vez pela razão de se dever estudar lógica, Epicteto respondeu que até para compreender a resposta a essa pergunta deve-se antes conhecer lógica, pois tal resposta seria na forma de um argumento, e apenas estudando lógica pode-se saber se um argumento é consistente ou não (cf. Diatribes de Epicteto, II.25). Exemplos da aplicação da lógica aos juízos são abundantes no Encheirídion. Citemos um único: partindo da concepção de Crisipo sobre as condicionais, segundo a qual uma condicional só é verdadeira se a contraditória da consequente contradisser a antecedente, Epicteto nos diz que, a partir do fato de sermos mais eloquentes ou mais ricos que alguém, não podemos inferir que somos superiores a esse alguém, pois não somos nem a riqueza nem a eloqüência:

Estes argumentos são inconsistentes: “Eu sou mais rico do que tu, logo sou superior a ti”; “Eu sou mais eloquente do que tu, logo sou superior a ti”. Mas, antes, estes são consistentes: “Eu sou mais rico do que tu, logo minhas posses são maiores do que as tuas”; “Eu sou mais eloquente do que tu, logo minha eloquência é maior do que a tua”. Pois tu não és nem as posses nem a eloquência. (Encheirídion de Epicteto, 44).

Temos neste capítulo primeiramente dois argumentos apresentados como entimemas, quais sejam:

Se sou mais rico do que tu, sou superior a ti; Sou mais rico do que tu; Logo, sou superior a ti.

Se sou mais eloquente do que tu, sou superior a ti; Sou mais eloquente do que tu; Logo, sou superior a ti.

Partindo da concepção de Crisipo sobre as condicionais, os dois argumentos concluem erroneamente, pois a contraditória de ‘Eu sou superior a ti’ (qual seja: ‘Não sou superior a ti’) não entra em conflito com ‘Eu sou mais rico que tu’ ou ‘Eu sou mais eloqüente que tu’. Entretanto esse conflito é verificado nos dois últimos argumentos apresentados:

Se sou mais rico do que tu, minhas posses são maiores que as tuas; Sou mais rico do que tu; Logo, posses são maiores que as tuas.

Se sou mais eloqüente do que tu, minha eloqüência é maior do que a tua; Sou mais eloqüente do que tu; Logo, minha eloqüência é maior do que a tua.

Nossa tradução foi feita a partir do texto recentemente estabelecido por Boter (EPICTETO. The Encheiridion of Epictetus and its Three Christian Adaptations. Trad. Boter, G. Leiden: Brill, 1999.). Além da introdução e da tradução bilíngüe (o texto original foi escrito em grego koiné), o trabalho oferece notas e referências intertextuais. De modo a propiciar ao máximo a difusão da obra, o livro pode ser baixado gratuitamente e está formatado para ser impresso no formato brochura tanto no tamanho A4 (21 por 29,7 cm) quanto no tamanho A5 (14,8 por 21).

Aldo Dinucci
aldodinucci@yahoo.com.br
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