Os Intelectuais e o Liberalismo
17 de Junho de 2005 ⋅ Opinião

Anti-liberalismo

João Cardoso Rosas
Universidade do Minho

Em Portugal, "liberalismo" é uma palavra feia. Cada vez que me esqueço deste facto há algum episódio que se encarrega de mo recordar. Na semana passada, assisti a uma palestra sobre o modo de leccionar aos alunos do ensino secundário o tema ético-político da "liberdade", que surge no programa da disciplina de Filosofia. Para qualquer pessoa informada sobre a história do pensamento, este tema conheceu grande desenvolvimento com o liberalismo e com as reflexões de autores como Benjamin Constant, John Stuart Mill, etc. Seria lógico que se recorresse a esta tradição de pensamento para introduzir os alunos ao conceito de liberdade.

Ora, o orador da palestra a que assisti sugeriu que o tema da liberdade fosse completamente afastado da tradição liberal. Inscrevê-lo aí, afirmou, seria "ideológico". Para sermos "críticos", teríamos de evitar a tradição liberal. A ideia em si é, à partida, curiosa. Ou não fosse precisamente a tradição liberal a que mais valoriza a abertura crítica. Mas ainda mais espantosa era a lista de autores anti-liberais que, de acordo com o nosso orador, deveriam ser usados para ensinar a ideia de liberdade aos jovens. Esses autores incluíam Thomas Hobbes (um partidário da monarquia absoluta), De Bonald (um reaccionário, inimigo da modernidade), Carl Schmitt (o jurista do nazismo) e Michel Foucault (um autor francês que elogiou a revolução islâmica no Irão). Parece uma anedota, mas não é.

A ideia subjacente a esta estratégia é a de propalar entre os alunos do liceu o anti-liberalismo e o pessimismo face ao regime liberal-democrático em que vivemos. Trata-se pois de uma visão claramente ideológica, ao contrário daquilo que pretende. Devo dizer que considero perfeitamente adequado ensinar as ideias dos autores citados ao nível universitário. Eu próprio o faço. Mas é mais do que óbvio que não são os mais adequados para jovens de 16 anos que ainda estão a tentar compreender os conceitos políticos básicos. Nem são, em qualquer circunstância, os mais adequados para começar a compreender uma ideia tão rica e com tantas implicações como a de liberdade.

A atitude do orador de que faço aqui eco é muito mais comum do que se possa imaginar. Entre muitos intelectuais, a hostilidade ao pensamento liberal traduz também um ódio mal disfarçado às instituições liberais: à democracia representativa, aos mercados livres, etc. Os intelectuais nunca gostaram da democracia porque lhes causa impressão que a populaça — que não é sábia e inteligente como eles — tenha direito de voto. Da mesma forma, exprimem um enorme desprezo pelos mecanismos de mercado e pelos seus agentes na medida em que, enquanto funcionários públicos (geralmente docentes), acham que não dependem deles. Numa primeira leitura, nenhuma destas atitudes é muito séria. Mas a verdade é que elas acabam por influenciar decisivamente aquilo que muitos dizem e pensam.

Num livro recente, intitulado Os Intelectuais e o Liberalismo, o sociólogo francês Raymond Boudon procura algumas explicações para este fenómeno, tão comum em França como em Portugal. Segundo Boudon, parte da explicação para o facto de os intelectuais não gostarem do liberalismo está na massificação do ensino. Na tradição liberal, cabe aos intelectuais procurar a verdade incessantemente. Mas este ideal de busca da verdade, difícil e penoso, está em crise. Num sistema massificado, o que atrai são ideias mais úteis do que verdadeiras. Ou seja, ideias com a função terapêutica de aplacar as nossas penas, que são muitas. Ocorrem-me alguns exemplos: a desconfiança face aos processos democráticos, que tendem sempre a prometer mais do que aquilo que podem resolver; a impotência face aos mecanismos impessoais do mercado que podem gerar, por exemplo, desemprego; a angústia diante de um futuro que é sempre desconhecido. A nossa vida colectiva está cheia de desilusões, inseguranças e incertezas. Este é um facto que todas as pessoas verdadeiramente maduras compreendem e aceitam. Mas é também um terreno fértil para o anti-liberalismo.

João Cardoso Rosas

Publicado no Diário Económico (12 de Abril de 2005)
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