La educación está enferma
11 de Julho de 2005 ⋅ Ensino da filosofia

Há pedagogos e pedagogos

Maria Helena Damião
La Educación Está Enferma: Informe Pedagógico sobre la Educación Actual, de J. A. Quintana Cabanas.
Valencia: Nau Libres, 2004.

José Maria Quintana Cabanas é um professor catedrático de Pedagogia da Universidade Nacional de Educação à Distância (U.N.E.D.), Madrid, que recentemente teve a amabilidade de visitar a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Nesta escola proferiu uma palestra brilhante, reveladora de uma erudição construída ao longo de muitos anos de trabalho aturado e de uma reflexão crítica bem alicerçada e ponderada. Não se pense, no entanto, que a forma de comunicar deste autor, de vasta e substancial obra, se carregou de um cinzento obscuro, como é comum atribuir-se aos académicos; bem pelo contrário, revestiu-se de um tom claro, exacto, honesto.

É precisamente este estilo de abordagem das questões educativas que transparece neste livro recentemente dado à estampa. Trata-se de um livro que urgia ser escrito. E urgia ser escrito por alguém de dentro da Pedagogia que se movimentasse com à-vontade nos domínios histórico, ideológico, político e científico. Passamos a explicar esta dupla afirmação.

A concepção actual de educação escolar está longe de ser unívoca e pacífica. Esta circunstância, apesar de ser tão antiga quanto a própria educação, tem vindo a materializar-se em tópicos de intensa polémica que, em geral, se apresentam segundo a forma de antinomias, aspecto a que Quintana Cabanas dedicou atenção especial num outro livro que, em boa hora, foi traduzido para a nossa língua (Teoria da Educação: Uma Concepção Antinómica da Educação, Porto: Asa, 2002). Nesse livro, socorrendo-se das palavras O. Reboul, explica que antinomia "não significa simplesmente contradição, mas também oposição de duas leis, quer dizer, de duas regras, cada uma das quais pode reivindicar com justiça a nossa adesão", analisando, de seguida, algumas das antinomias que se têm estruturado em torno da educação e que têm sido assumidas, convicta e afirmativamente, por intelectuais de diversas formações.

No trabalho em apreço, o autor retoma esta problemática mas torna-a mais específica, ao centrar-se no sistema educativo espanhol, e mais pessoal, ao explicitar a sua opinião em relação à qualidade do mesmo.

À semelhança de autores que se movimentam em áreas distintas da Pedagogia e que, em tempo recente, empreenderam o mesmo exercício em relação a outros sistemas de ensino ocidentais, nomeadamente o norte-americano, o inglês e o alemão (v.g., Barzun, 2003; Bloom, 2001; Levitt, 1999; Hirsch, 1999; Schwanitz, 2004; Steiner, 2004), Quintana Cabanas declara, de modo inequívoco, que a educação "está doente" e que essa situação se deve à prevalência acrítica de certos princípios educativos que se situam no pólo antinómico conotado com a Educação Nova. Contudo, vai além deles, quando, depois de apresentar inequivocamente cada um desses princípios, explica, de modo rigoroso e fundamentado, a sua origem e percurso, bem como as suas potencialidades e perigos. E, ao contrário do que eventualmente se esperaria, faz este exercício distanciando-se também do pólo antinómico conotado com a Educação Tradicional. Entendemos que esta lucidez é fundamental para ultrapassar ambos os pólos enunciados, que pouco ou nada têm de actual e de científico.

Ora, quando um prestigiado teórico que fez carreira na Pedagogia declara, em jeito de síntese, que "as reformas educativas não se inspiram em critérios estritamente pedagógicos, mas sim em critérios políticos e em ideias pedagógicas que estão na moda, mas que, por vezes, possuem uma base errada" (pág. 200) devemos reconhecer-lhe o mérito e dar-lhe atenção redobrada. Primeiro, porque desmistifica a ideia corrente de que os especialistas em Pedagogia pensam todos do mesmo modo e falam a uma só voz que se faz ouvir num tom alto e dogmático, veiculando ideias peregrinas e inconsistentes sobre a aprendizagem e o ensino, tornando-se, deste modo, os principais responsáveis pelo lastimável estado que os sistemas educativos denotam. Segundo, porque demonstra que há pedagogos, mais do que provavelmente se supõe do exterior, que se orientam por princípios de objectividade e de responsabilidade que prestigiam as áreas disciplinares e que as fazem avançar em direcção a conhecimentos mais adequados.

Em concreto, o livro em questão organiza-se em cinco capítulos com carácter sequencial, cujos títulos, inovadores e algo irónicos, são retirados da terminologia médica.

No primeiro capítulo ("Sintomatologia"), o autor afirma inequivocamente a existência de problemas que afectam, de modo muito sério, o sistema educativo do seu país, apresentando, de seguida, as razões que os precipitaram e delineando a sua real expressão.

No segundo capítulo ("Diagnóstico"), debate nove desses problemas, os quais não podemos deixar de enunciar, uma vez que constituem o cerne do dito trabalho: confiança ingénua no espontâneo e harmonioso desenvolvimento do aprendiz; diminuição da autoridade educativa e da atitude de respeito; diminuição da coerção educativa, ambiente de facilitismo e de dispersão; menor exigência no estudo, tanto no que respeita à amplitude dos conhecimentos a adquirir como ao rendimento esperado dos alunos; desprestígio dos meios didácticos tradicionais, acompanhado de propaganda dos métodos activos e globais; disfunções do sistema educativo (indisciplina e violência, tecnicismo didáctico, desmotivação dos professores); politização do debate sobre a educação e a reforma do sistema educativo; e falta de ideais.

No terceiro capítulo ("Etiologia"), conjectura sobre as origens dos ditos problemas, destacando, entre outras, o ambiente rousseauniano e pós-moderno em que se movem certos pretensos teóricos da educação que influenciam as políticas educativas.

No quarto capítulo ("Prognóstico"), disserta sobre a evolução dos problemas, alertando para que a sua resolução depende da revisão de certos princípios educativos que se têm por correctos e inquestionáveis, mas que, uma vez implementados, podem tornar-se particularmente perigosos. Entre esses princípios inclui o naturalismo, a educação activa, a educação global, a multiculturalidade, a educação compreensiva, a auto-orientação axiológica, e a atenuação ou exclusão do esforço.

No quarto capítulo ("Terapia"), aponta medidas concretas para superar os problemas aflorados, as quais passam pela assunção de princípios educativos distintos dos acima referidos, reorganização da dinâmica das escolas, bem como da criação de uma cultura de ensino estruturante e, não menos importante, pela formação inicial e contínua de professores.

Pelo exposto e porque estamos em crer que Quintana Cabanas constitui um dos maiores pensadores da educação escolar da actualidade, ousamos sugerir a publicação em português da obra que se apresenta. Na verdade, não se nos afigurando as fragilidades do nosso sistema educativo substancialmente diferentes das do sistema educativo espanhol, consideramos que a divulgação deste texto ajudaria especialistas, políticos, estudantes e outras pessoas interessadas pela educação a repensar os fundamentos da mesma e as práticas que deles derivam.

Maria Helena Damião
hdamiao@fpce.uc.pt

Referências

Barzun, J. (2003). Da Alvorada à Decadência. Lisboa: Gradiva.
Bloom, A. (2001). A Cultura Inculta. Lisboa: Europa-América.
Hirsch, E. D. (1999). The Schools we Need and Why we Don't Have Them. New York: Anchor Books.
Levitt, N. (1999). Prometheus Bedeviled: Science and the Contradictions of Contemporary Culture. Nova Iorque: Rutgers University Press.
Savater, F. (1997). O Valor de Educar. Lisboa: Presença.
Schwanitz, D. (2004). Cultura: Tudo o que é Preciso Saber. Lisboa: Dom Quixote.
Steiner, G. (2004). As Lições dos Mestres. Lisboa: Gradiva.

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