Philosophy for AS and A2
7 de Dezembro de 2005 ⋅ Ensino da filosofia

A filosofia no ensino secundário

Nigel Warburton
Universidade Aberta, Londres

Estudar filosofia tem por obrigação ser emocionante e talvez um pouco perturbador. Emocionante porque pode abrir novas perspectivas sobre o mundo e nós mesmos e fornecer instrumentos poderosos para pensar claramente num vasto domínio de contextos. Perturbador, talvez, porque quando é levada a sério a filosofia toma muito pouco por garantido. Podemos descobrir que a filosofia põe em causa aquilo em que sempre acreditámos. Se acreditarmos em Deus, por exemplo, pensar sobre as supostas provas e refutações da existência de Deus pode ser enervante (apesar de nos poder dar também, em última análise, confiança). A filosofia pode até pôr em causa as nossas crenças perceptivas. Como sabe o leitor que está de facto com este livro nas mãos e não, por exemplo, a dormir na cama, sonhando que tem este livro nas mãos? Ou ligado a um tipo qualquer de máquina de experiências, como acontece no filme The Matrix? Se quer manter intactos os seus pressupostos, a filosofia não é provavelmente uma disciplina para si. Contudo, se deseja desenvolver a sua capacidade para pensar de forma independente sobre várias questões enigmáticas mas muito importantes, e estudar e contactar com o pensamento de alguns dos maiores pensadores do mundo, a filosofia pode ser uma disciplina enriquecedora e intelectualmente libertadora.

Só tive oportunidade de estudar filosofia institucionalmente quando entrei na universidade, e mesmo nessa altura só a abordei como disciplina complementar. Tenho de admitir que demorei algum tempo a perceber aonde os meus professores queriam chegar. Como muitos dos meus colegas de licenciatura, quase não fazia ideia do que me esperava quando assisti à primeira aula, apesar de ter feito o esforço de ler (cabeceando por vezes de sono) Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell no Verão anterior à minha entrada na universidade.

No princípio dos anos oitenta não existia filosofia no ensino secundário inglês. Os estudantes ingleses estão agora em muito melhores condições do que eu estava, pois podem estudar filosofia a um nível bastante profundo antes de decidir estudar filosofia na universidade. O "A level" [10.º e 11.º anos] é suficientemente exigente para dar a quem o estudar seriamente um ponto de partida excelente na disciplina. Os estudantes têm hoje também muito mais sorte do que os da minha geração, pois têm uma diversidade e qualidade de livros introdutórios que clamam pela sua atenção nas livrarias (incluindo vários livros excelentes da autoria do co-organizador deste livro, Stephen Law). Quando comecei a ensinar filosofia no "A level", ao mesmo tempo que terminava o meu doutoramento, havia apenas, inacreditavelmente, duas ou três introduções à filosofia facilmente disponíveis. Dada a ausência de um livro especificamente apropriado para o nível dos estudantes inteligentes do 10.º ano, expandi e reescrevi algumas das notas que escrevera para as minhas aulas, dando assim origem ao livro Elementos Básicos de Filosofia (Lisboa: Gradiva, 1998). O meu objectivo era, em parte, escrever o livro que eu desejava que tivesse podido comprar quando tinha 16 anos. Este livro tinha também o objectivo de dar a quem enfrenta pela primeira vez a disciplina um quadro de referência para a compreender ao chegar ao primeiro ano de filosofia na universidade. Agora há pelo menos uma meia dúzia de livros que recomendo sem reservas aos estudantes do 10.º ano (ou quaisquer outras pessoas) que tenham interesse em aprender qualquer coisa sobre a disciplina. A minha lista pessoal, em ordem aproximada de dificuldade, inclui os seguintes livros: Que Quer Dizer Tudo Isto? de Thomas Nagel (Lisboa: Gradiva, 1995); The Philosophy Gym, de Stephen Law (Londres: Headline, 2003); Philosophy: A Very Short Introduction, de Edward Craig (Oxford: Oxford University Press, 2002); e Pense: Uma Introdução à Filosofia, de Simon Blackburn (Lisboa: Gradiva, 2001).

Este livro é diferente dos mencionados porque seguem muito de perto o programa oficial para o ensino secundário inglês. É além disso escrito por vários autores, cada qual concentrando-se na sua própria área de especialização. Os filósofos das universidades têm sido muito lentos a fornecer materiais didácticos para o ensino secundário. É encorajador ver que os filósofos do Heythrop College, que é parte da Universidade de Londres, dedicaram tempo e energia à criação deste manual. Os seus pontos fortes são óbvios. A experiência dos autores enquanto professores manifesta-se na clareza das suas explicações, algo de que quase não nos apercebemos quando é bem feito mas que, como se descobre ao alargar as leituras, não é tão comum como poderíamos desejar.

Aconselho a leitura atenta, mas activa, deste livro. Não devemos absorver passivamente o seu conteúdo. É necessário procurar pensar criticamente sobre o que está aqui escrito. A filosofia nunca deve ser regurgitação. Nem é uma questão de passear por um museu de ideias secas e poeirentas. Estudar filosofia é aprender a filosofar, e não apenas aprender o que outras pessoas disseram. É necessário usar os nossos próprios exemplos, pensar cuidadosamente a partir do nosso ponto de vista, e talvez discordar com alguns dos autores. Devemos entregar-nos criticamente ao que lemos. O que pode não ser óbvio quando estamos imersos nos pormenores é que quando estudamos filosofia não estamos apenas a aprender um corpo de ideias; o que estamos a fazer é a aprender a pensar por nós sobre algumas das perguntas mais profundas que podemos fazer.

Tradução de Desidério Murcho
Retirado de Philosophy for AS and A2, org. por Elizabeth Burns e Stephen Law (Londres: Routledge, 2004)
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