A Tempestade, de Claude Théberge
24 de Abril de 2006 ⋅ Ensino

Ensino e infantilização

Marco Loureiro
Escola Secundária de São Pedro da Cova, Gondomar

Ai Portugal, Portugal,
dar-te conselhos é bem pouco original
por favor, não me queiras levar a mal,
ai Portugal, não te deixes assim vestir
Sérgio Godinho

A minha experiência como professor estagiário de Introdução à Filosofia fez-me ver o lirismo que preenche a distância entre as belas teorias pedagógicas enclausuradas em floridos muros disciplinares e os resultados das práticas educativas, que, dizendo-se democráticas e mostrando-se preocupadas com as diferenças sociais, alimentam o défice democrático dos cidadãos e adiam a possibilidade dos mesmos se promoverem socialmente. Passo a descrever algumas das práticas educativas que um estagiário de Filosofia aprende a implementar numa sala de aula.

Sempre que possível, deve-se trazer para a sala de aula filmes, músicas, exemplos de toda a ordem que correspondam aos interesses dos alunos. Nada a opor. Esta posição parece-me bastante sensata em si mesma e baseia-se naquela concepção pedagógica (que considero correcta) segundo a qual o processo de ensino e aprendizagem não deve ser unilateral, isto é, não deve consistir exclusivamente num debitar por parte do professor, concebendo-se o aluno como uma tábua rasa a ser preenchida pela suma sapiência do senhor doutor. As experiências dos alunos podem ser e são factores de enriquecimento de uma aula (nomeadamente em aulas de Filosofia, que se prendem com valores e com raciocínios que podem e devem ser confrontados com as condutas dos alunos). No entanto — e aqui reside o problema — na prática, muitas vezes esta concepção não passa de uma forma de camuflar um defeito enorme do sistema de ensino, e da cultura e sociedade em geral. Passo a explicar. Sucede muitas vezes, temo-o bem, que os professores se demitem (por mais inconscientemente que seja) da sua tarefa de educadores, dado que se utiliza este princípio para não se elevar a fasquia dos conhecimentos e competências, para não se aumentar a diversidade cultural dos alunos, argumentando-se que se deve sempre recorrer às experiências e gostos dos alunos. Isto é uma clara deturpação do princípio. O que o princípio diz é que o professor, em suma, deve interagir com os alunos; não diz que o professor deve limitar-se a responder às experiências e aos gostos dos alunos. Ora, isto é apenas outro unilateralismo pedagógico — só que agora a tábua rasa é o professor. Que fique bem claro: não acho possível haver uma transmissão de conhecimento se não houver um mediador e um mestre, e esse só pode ser o professor. As consequências desta degenerescência é que não vale a pena expor o filme Laranja Mecânica porque é demasiado complexo para a idade dos miúdos, ou que não vale a pena pôr os miúdos a ouvir o Requiem de Mozart porque eles preferem Linkin Park. Se a escola não serve para fomentar o gosto por diversas formas culturais, se não serve para aumentar o leque cultural, estético e ético, se não serve para aprofundar, para analisar... então, pergunto, para que serve?

Outra coisa que nos ensinam é a importância do diálogo. Mais uma vez, a importância do intercâmbio entre professor e aluno. Em si mesmo, correcto. Só que o que a maior parte das vezes acontece é exactamente a infantilização, aquilo a que chamo o falso diálogo, pelo qual o professor pergunta o óbvio fechando a pergunta, ouvindo-se de seguida um uníssono sim ou um uníssono não, ou, paralelamente, quando se quer dar ares profissionais, dirige-se a mesma pergunta oca a um aluno, segundo as boas regras pedagógicas, ouvindo-se o consequente sim ou não, ou um outro vocábulo escasso que toda a gente já está à espera de ouvir. E isto, não no primeiro ciclo, não no segundo ciclo, não no terceiro ciclo, mas no secundário. Vamos todos aprender como se vai para a rua Sésamo?

O mesmo se aplica a actividades levadas para a sala de aula. Nada tenho contra as sopas conceptuais nem contra os textos com espaços em branco para preencher com conceitos. No entanto, o problema é idêntico aos que já expus. Tal como o dever de ter em conta os gostos dos alunos não pode ser pretexto para baixar a fasquia da educação, tal como o dever de dialogar com os alunos não pode ser pretexto para a inexistência de aprofundamento das questões, cerne do verdadeiro e significativo diálogo, o uso de sopas conceptuais e textos com espaço em branco para preencher com conceitos não pode ser um pretexto para não se clarificar o significado dos mesmos e para não se analisar as relações entre eles.

E o mesmo direi do uso de imagens e de esquemas. São óptimos para fixar conceitos e ordenar ideias, mas não podem ser pretexto para não se ler e interpretar textos sob a desculpa de que são muito aborrecidos para os alunos (e a fazer-se, que sejam textos curtos e fáceis). O facto de as imagens ajudarem a fixar melhor a matéria do que a audição ou a leitura isoladas pode e deve ser utilizado pelo professor para a sua tarefa educativa, mas não o deve isentar do trabalho de análise do texto, que no caso da Filosofia, é o principal instrumento de trabalho. De facto, se a aula tiver muitas imagens, possivelmente o aluno irá lembrar-se delas. Mas imaginemos que a aula seja acerca dos valores religiosos; o aluno pode reter imagens de igrejas católicas e pode reter imagens de deuses gregos no Olimpo — mas se não se fizer a devida análise do que é o valor religioso, o que significa o valor religioso, em que medida a religião é uma forma de se responder à angústia do sentido da vida, etc., terá sido a aula bem sucedida? É que se isto acontecer, não se passará do nível do "sabes que começou na A, e a seguir veio o E...", e isto não no primeiro ciclo, não no segundo ciclo, não no terceiro, mas no secundário.

O sacrifício

O que estas deturpações que mencionei têm em comum é o sacrifício de tudo o que se deve fazer para educar realmente — ou seja, alargar os horizontes culturais, alargar os conhecimentos, alargar as competências — em prol do aspecto motivacional. Hoje há uma verdadeira obsessão com a motivação. Coitadinhos dos alunos, não vamos massacrá-los com coisas enfadonhas, com textos maçadores, com análises profundas, bem pelo contrário, vamos ser dinâmicos e florear os minutos da aula com imensas actividades, umas atrás das outras. No entanto, lemos o programa das finalidades do ensino da Filosofia (falo da Filosofia especificamente porque é a minha área), e constatamos o tal lirismo a preencher o vácuo que vai da teoria à prática. Lemos que, sim senhor, é para formar cidadãos com espírito crítico, responsáveis e livres — quando na realidade tudo o que fazemos é adiar a mais que necessária reforma das mentalidades, que, não tenho dúvidas, passa muito pela educação e pela escola. Mentalidades que, num Portugal do século XXI, se caracterizam por um espírito crítico futeboleiro, e portanto, acéfalo, do género "a vaca da vizinha dá mais leite do que a minha"; por uma liberdade desconhecedora de regras e de autonomia moral.

A fábrica social

É claro que todo este meu arrazoado também pode ser considerado lírico. De facto, estou mesmo a ver algumas pessoas a dizerem-me qualquer coisa como isto: "Experimenta levar o Requiem de Mozart para uma sala de aula para veres o que é que te acontece". Ou então, podem dizer que subestimo a importância das perguntas fechadas, podem dizer-me que apesar de as perguntas parecerem óbvias, acontece os alunos dizerem não quando deviam dizer sim. Pois, acredito, mas isto não resolve o problema; apenas mostra a sua dimensão. Quanto às perguntas fechadas, digo delas o mesmo que digo das outras práticas que exemplifiquei: têm o seu lugar, e podem ser usadas, e até acho normal um aluno responder não quando devia responder sim, e aí admito a importância da pergunta fechada como meio de diagnóstico e clarificação básica — mas não é esse o problema. Estou convencido de que o problema não é a compreensão mais imediata das questões envolvidas, mas o seu aprofundamento. É normal que num primeiro contacto com uma matéria nova os alunos possam confundir alguns conceitos básicos, ou que tenham crenças que colidem com a roupagem mais científica de conceitos usados vulgarmente num sentido diferente. O que não é normal é existirem muitos alunos com 15 e 16 anos que se recusam a ler quando solicitados; o que não é normal é existirem muitos alunos do secundário que lêem e escrevem tão bem como eu escrevia quando tinha 8 anos; o que não é normal é que um adolescente não saiba interpretar um texto, que não tenha opinião acerca do mundo que o rodeia; o que não é normal é que um aluno do secundário "estude para os testes", debitando a matéria que tem no caderno e não sentindo qualquer gosto especial pelo saber (qualquer que seja). Estou em crer que uma franja importante da população estudantil que temos no nosso país corresponde a este retrato. E não, não é normal; nem o raciocínio pode ser que eles não têm estruturas. Não sou eu que sou um génio por escrever com menos erros tendo 8 anos de idade, do que muitos com 16 anos — são estes que têm 16 anos que não estão preparados, não por qualquer defeito congénito, mas por causa da fábrica social, que engloba a escola, a cultura, os políticos, as famílias, as instituições.

Os alunos chegam sem qualquer preparação ao secundário, e esperam que no secundário os professores invertam essa situação, quando a única maneira de reparar o problema é reparar a base, que começa no primeiro ciclo. Depois, como é evidente, a dose repete-se em pleno ensino universitário, onde se formam licenciados sem preparação para o mundo do trabalho e sem qualquer bagagem cultural. Junte-se a isto que passámos de um regime salazarista retrógrado e repressor, em que o professor, qual capataz, fustigava os alunos que apelidava não raras vezes de burros, para um sistema no qual uma boa percentagem dos alunos (e estou a falar também de alunos de secundário) desobedece sistematicamente dos professores, prejudica o correcto funcionamento das aulas e não raras vezes passa o limite da boa educação. O que me apraz dizer é que este não é um problema do ensino per se; é um problema de cultura (ou de falta dela). Creio que um dos factores que explicam esta tendência do desrespeito que os alunos têm pelos professores (e note-se, não é preciso disparar pontapés ou socos para desrespeitar e prejudicar uma aula) na sala de aula, e também, note-se, perante os colegas que querem e têm o direito de assistir à aula em boas condições, é a forma cada vez mais irresponsável como as famílias educam os seus filhos. Também no sector mais básico da sociedade, a família, grassa a irresponsabilidade. Nota-se em muitos adolescentes de secundário uma grande lacuna de regras, de consciência cívica, e isto, em larga medida, deve-se à demissão dos pais como educadores. Há uma espécie de novo-riquismo também na educação. Basta dar telemóveis de topo aos putos e pô-los a jogar Sega. A este propósito, lembro uma conversa que tive com uma psicóloga que trabalha numa instituição social. Disse-me ela que conhece muitas crianças que vão para lá apesar de não terem problemas de aprendizagem (a instituição trabalha fundamentalmente com problemas de aprendizagem e problemas familiares) e que ficam lá o dia inteiro, de manhã à noite, comem o pequeno-almoço, o almoço e lancham. Às 20 horas a instituição fecha, portanto têm de jantar em casa com os pais. Segundo ela, algumas dessas crianças dizem que não jantaram, embora as suas famílias não tenham problemas económicos. Mencionou ainda que uma das crianças com quem trabalha disse-lhe que passou o fim-de-semana a jogar Sega, e que a mãe lhe levava as refeições ao quarto, para que continuasse a jogar. Mencionou ainda que conhece uma mãe que sai relativamente cedo do emprego, mas só vai buscar a criança às 20 horas, quando a instituição fecha, e que a tem visto às vezes estacionada em frente da instituição 15 minutos antes das 20, e por lá fica até a instituição fechar; só então vai buscar a criança, quando o pode fazer antes. Penso que este é um dos retratos do país real.

Conclusão

Claro que, além disto, temos um outro país, muito distante do "país real" que vemos todos os dias na televisão, o país do interior, o país pobre, o país dos pais analfabetos, o país do abandono. É difícil pedir a uma franja significativa da população estudantil portuguesa que se interesse pela cultura e pelo saber quando o meio em que vivem é completamente o avesso disto; é estúpido pensar que um filho de um bêbado desnaturado e selvagem, com poucos indícios de civilidade, tenha as mesmas condições para se formar integralmente do que o filho de um licenciado. Não esqueçamos que quando Portugal iniciou o seu processo de alfabetização já os países mais desenvolvidos da Europa olhavam para nós como se vivêssemos na Idade da Pedra. O que é preciso é resgatar os filhos dos analfabetos e iliterados, e este é um processo lento, mas necessário, e requer políticas eficientes. Maria Filomena Mónica faz referência à necessidade de se fazer um estudo acerca de como a origem social determina o acesso às universidades. Apesar de o grande raciocínio que podemos fazer de todo este arrazoado acerca da pedagogia ser o de que a necessidade de Portugal democratizar o ensino e em particular o acesso à universidade acarretou um enorme nivelamento por baixo no que toca à qualidade de ensino, a verdade é que, ainda assim, Portugal tem ainda uma das taxas de abandono escolar mais elevadas e uma das piores taxas de insucesso escolar europeu. É que, por mais que nos custe, somos realmente um país pobre. E a velha tese, aliás conservadora, segundo a qual "quem tem unhas é que toca guitarra" é, no mínimo, para rir. Sempre que ouço alguém a dizer esta, a única dúvida que me resta é saber em que casa de fados terá nascido. A grande ironia desta história é que neste mundo que temos (e, caros jovens colegas licenciados, cada vez menos a nossos pés), o crescimento económico que inevitavelmente precisamos, se é que queremos sair do fosso e competir com um mundo cada vez mais agressivo, implica um enorme investimento na educação, investimento que só pode funcionar se abandonarmos o modelo vigente, que é o da democratização pelo menor denominador comum. E investir não se trata apenas de dinheiro, mas de visão. Uma das críticas que às vezes é frequente fazer-se ao nosso sistema é que somos um país de doutores, isto é, todo o ensino é orientado para o ensino universitário. Apesar de haver uma cultura bacoca de adulação dos doutorzinhos de toga (na boa linha da cultura da subserviência salazarista), a verdade é que os números não enganam. Portugal precisa de mais gente com formação superior do que aquela que tem. Por outro lado, também é necessário investir nas escolas profissionais, como via alternativa a quem não quer seguir um ensino universitário e prefere uma formação técnica mais prática e mais directamente orientada para o mercado de trabalho. Mas, seja para aumentar a qualidade do ensino superior ou para aumentar a qualidade do ensino técnico-profissional, a chave, penso, tem de ser esta: para sermos competitivos, temos de formar gente competente, e para formarmos gente competente temos de ter um ensino rico em competências, que comece desde as bases. E temos de ser exigentes desde o primeiro ciclo, se não queremos desbaratar o único recurso plausível que temos: as pessoas.

Marco Loureiro
casadopereira@clix.pt
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