Estúdio, de Raoul Dufy
29 de Abril de 2010 ⋅ Opinião

Ensinar melhor

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A solidez da formação científica dos professores é um factor crucial para a qualidade do ensino. As universidades nem sempre fizeram um trabalho de qualidade, tendo formado alguns professores com carências científicas. Isto seria hoje mais fácil de colmatar, porque se pode comprar na Internet bons livros introdutórios estrangeiros; mas como alguns professores não lêem qualquer língua estrangeira (e até com a portuguesa têm dificuldades), o esforço de qualificação dos professores tem de incluir a tradução de bons livros introdutórios de física, português, filosofia, história, etc., adequados para os diversos graus de ensino. Sem bibliografia introdutória de qualidade não há ensino de qualidade.

Um segundo factor crucial para a qualidade do ensino é o modo como o professor reage às carências culturais e educativas do estudante. O professor tem de encarar como muito grave que os estudantes reprovem — não pode simplesmente declarar que os estudantes não estudam e não valorizam a escola. Se isso acontece, compete ao professor mostrar aos estudantes, à família e à sociedade o valor do estudo. Dificilmente o professor que não estuda, não tem praticamente livros em casa e não lê regularmente livros da sua área pode desempenhar este papel.

Exames nacionais rigorosos são simultaneamente uma maneira objectiva e simples de avaliar professores e escolas, e de estimular os estudantes a esforçar-se. Mas é evidente que se uma parte significativa dos estudantes reprovar nos exames, já é tarde de mais para fazer alguma coisa. Assim, deve-se associar a exames nacionais rigorosos medidas enérgicas para os professores e escolas cujos alunos reprovarem. Os exames devem ser vistos, por professores e estudantes, como um desafio importante. O que importa é encarar esse desafio como algo que dignifica a escola, os bons resultados como algo que está ao alcance de qualquer estudante e que é importante para qualquer estudante. Compete aos professores passar esta mensagem aos alunos mais carenciados, e dar-lhes mais apoio escolar.

Os responsáveis educativos têm eliminado dos curricula os conteúdos vistos como académicos, fazendo programas com conversa fiada e eliminando as próprias disciplinas centrais, para as substituir por mais conversa fiada. Isto não funciona junto dos alunos culturalmente mais carenciados porque quanto mais vagos forem os conteúdos, mais informação cultural de fundo eles precisam para os compreender. Conversas vagas sobre o mundo contemporâneo, sobre tudo e sobre nada, não estimulam alunos culturalmente carenciados — que podem contudo sentir-se fascinados por uma apresentação inteligente de aspectos fundamentais do sistema solar, trigonometria ou história. O segredo é o modo de apresentação dos conteúdos, com linguagens simples mas não simplistas e de modo estimulante mas não infantilizador. Isto exige dos professores e responsáveis educativos um domínio científico sólido das matérias e uma forte sensibilidade social e didáctica.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (18 de Novembro de 2008)
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