Leitura de Casa de Banho, de thejbird
5 de Outubro de 2009 ⋅ Opinião

É possível ensinar sem filosofia?

Algumas reflexões sobre a filosofia universitária brasileira Márcio Gimenes de Paula
Universidade Federal de Sergipe
Eu sou assim...
Quem quiser gostar de mim, eu sou assim
Meu mundo é hoje
Não existe amanhã para mim
Eu sou assim e assim morrerei um dia
Não levarei arrependimento e nem o peso da hipocrisia
Tenho pena daqueles que se abaixam até o chão
Enganando a si mesmos por dinheiro ou posição
Nunca tomei parte nesse enorme batalhão
Pois sei que além de flores
Nada mais vai num caixão

Wilson Batista, letra do samba "Meu mundo é hoje"

Para começo de conversa...

Tal como o velho Paulo Freire recomendava, não vou direto à pergunta. Vou tentar cercá-la. Nem sei se vou conseguir abordá-la. Se conseguir alcançar a lógica mineira, isto é, "quem come pelas beiradas também come", já estou satisfeito. Então, vamos lá.

Entre os séculos XVIII e XIX, notadamente entre alguns senhores de engenho do Nordeste e alguns barões do café de São Paulo, ocorre um estranho fato: ambos investem na educação dos seus filhos mandando os mesmos para os melhores centros europeus. Ao retornarem, muitos desses jovens senhores entram em choque com a sua realidade. Depois de anos na Europa, respirando, ao menos em aparência, o mais puro ar do iluminismo desse período, eles devem esquecer tudo aquilo que viveram e retomar as suas tarefas, isto é, assumirem o posto de senhores de engenho e de barões do café. Afinal, foi baseado nessa estrutura que eles conseguiram recursos para se manterem no Velho Mundo e agora devem, pelo menos por um momento, esquecer tudo que ouviram e quiçá viveram para assumir, no melhor estilo do Brasil arcaico, o papel que lhes cabe. Tal situação parece gerar, no âmago da própria cultura brasileira, uma espécie de esquizofrenia. Por isso, são fartos os exemplos na nossa história sobre episódios dessa natureza, bem como são fartos exemplos também na literatura desse período.

O que chama atenção, porém, é que tal fato não parece ter sido superado, mas apenas mudado de configuração. Se a antiga nobreza portuguesa trocou o seu brasão de armas pela força dos diplomas, os antigos mandatários nordestinos ou paulistas, também parecem ter efetuado tal troca. O que isso parece ter a ver com a nossa pergunta inicial, isto é, "é possível ensinar sem filosofia"? Vou tentar elucidar melhor o meu tema. A educação e a prática de boa parte dos professores brasileiros não empolga e nem deve enganar ninguém. Essa história de filosofia e educação como elementos de crítica não deve convencer nem o mais desavisado dos seres. Já aprendemos, com a prática de alguns filósofos e algumas filósofas, e também com as reflexões dos pensadores da Escola de Frankfurt, que filosofia e educação não são, por si mesmas libertadoras. Se fossem, a Alemanha, pátria de notórios intelectuais, não teria desembocado na trágica experiência nazista no século XX.

Vejamos alguns dados: 01) Sócrates é morto por Atenas. Alguém duvida que havia filosofia nessa cidade? Ou será que Sócrates era o único filósofo? ; 02) Giordano Bruno é queimado pela Inquisição. Alguém duvida que os argumentos usados contra ele eram de caráter racional e, portanto, filosóficos ou muito próximos disso?; 03) Tomás de Aquino, que ninguém parece discutir que era filósofo afirma, numa passagem bem conhecida da Suma de Teologia, que aqueles que estão no céu assistirão o sofrimento daqueles que foram condenados na Terra, pois Deus assim procede para dar maior prazer aos seus eleitos. Bacana, não acham?; 04) Rousseau, que ninguém também ousaria dizer que não é um grande pensador, afirma no seu Emílio que o seu garoto ideal não deveria viver em nenhum país muito quente, visto que muito sol costuma prejudicar a mente das pessoas destes lugares e que em tais continentes jamais existiria filosofia. Como ficamos nós que moramos num "país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza"?; 05) O mesmo Rousseau, que também sabia muito de filosofia abandona seus filhos, colocando-os ao dispor dos interessados numa espécie de roda dos enjeitados. Se a filosofia e educação estivessem tão ligadas assim, o genebrino teria sido o maior pai do mundo, o que parece que não foi bem assim...

Voltemos agora ao Brasil. No nosso meio universitário, a coisa é ainda mais grave. Somos cópias de um modelo europeu-paulista que não se aplica mais, se é que algum dia se aplicou. Tal modelo, ciente da sua magnitude e do seu cetro iluminista que deve ser estendido para todos os demais mortais (e que alguém ouse não querer!) ampliou os seus domínios, tal como o Império Romano, para todo o país. O importante é ter representantes desse tipo de modelo em cada província, por mais insignificante que seja a província.

Nesse modelo parecem ter lucrar todos: alguns professores paulistas - que estendem os seus domínios e a sua "generosidade" intelectual para todos os desgraçados da nação e alguns professores provincianos, que aceitam o jogo da submissão e o papel de serem fiscais do Império na sua própria terra, açoitando os seus conterrâneos. Adotam, sem nenhum pudor, a política de sempre lamber o chão do palácio para ver se um dia assistem a uma audiência real ou pelo menos a troca da guarda de sua majestade: God save the Queen!

Alguns alunos paulistas esperam, tal como alguns de seus mestres, dominar o resto do Brasil. Alguns alunos das províncias, tal como alguns de seus mestres, aceitam lamber botas na sua terra e também na região Sudeste, desde que voltem de lá com um título de doutor que justifique doravante seu domínio sobre todos os demais. Chamemos esse modelo de CJI — Coronelismo Jaguncístico Ilustrado. A força não se fará notar agora pelas armas, capangas, jagunços tal como os antigos senhores, mas pelo sotaque (ora francês, ora alemão, ora inglês) e pelos títulos conseguidos sabe-se lá de qual maneira. O chicote coronelístico continua cortando do mesmo jeito, mas agora corta com sotaques diversos e está legitimado por uma série de homens cultos: Le coronel c'est moi. Aqui podemos lembrar ainda do célebre intelectual sergipano que, por seu mais profundo amor aos estudos germânicos, resolveu redigir um jornal diário em alemão mesmo vivendo numa cidade onde o povo sequer sabia português. Bons tempos aqueles em que tal coisa era apenas um episódio engraçado, hoje ele não tem mais sequer esse mérito.

Aos professores paulistas que jogam esse jogo restam algumas benesses: passagens para verificar, na beira das praias das províncias, como anda o controle da situação, jantares, homenagens e outras cafonices típicas de uma mentalidade atrasada e servil. Aos professores provincianos, que também participam do jogo, resta a vergonha de travar qualquer real e afetivo progresso no melhor andamento das coisas e a esquizofrenia de proclamar coisas supostamente tão modernas e realizar alianças tão antigas quanto espúrias. Aos alunos, que não querem fazer parte desse jogo, resta a pergunta: o que posso fazer? Um bom começo, é aprender a separar, tal como já ensinou alguém, "o joio do trigo e jamais se iludir julgando que não existe educação sem filosofia. Não dê crédito a promessas vazia ou a discursos onde somos obrigados a acreditar que alguém parece ser bom pelo fato de afirmar, em excessos catatônicos e psiquiátricos, tal como um papagaio, que é bom. Analise os critérios, investigue para saber se não estão querendo vender gato por lebre aos incautos. Papagaios ficam bem nos ombros de piratas, mas pirataria não cai bem quando o assunto é filosofia.

Por isso nós, brasileiros, temos que ler Etienne De La Boétie , um desses filósofos iluministas que todos deveriam ler, inclusive, os iluministas. Ele possui um tratado excelente intitulado Discurso da servidão voluntária. Nele, o filósofo defende que o tirano, mais do que se manter pelas armas se mantém sempre que existe uma consciência cativa e servil. Em outras palavras, para que exista um tirano é preciso que exista consciência servil, gente que aceite desmando e que não viva sem um "papai" para arrumar a sua vida. Kant também já sabia disso e num texto sobre o significado do Iluminismo afirma que muitos preferem ser tutelados a pensar com a sua própria cabeça. Nesse sentido, é possível ser filósofo, seguir com rigor tudo o que essa disciplina prescreve e ficar bem longe da educação mesmo tendo tudo isso.

Sou professor de filosofia e trabalho mais especificamente com ética e filosofia da religião. Em geral, as pessoas imaginam que eu sei sempre dizer o que é uma ação ética e tenho todos os informes também sobre o andar de cima ou de baixo. Segundo penso, nada poderia ser mais enganoso. Estudar ética não significa agir eticamente, os exemplos são fartos e não vou enumerá-los aqui por uma razão pragmática: não teria dinheiro para pagar tantos advogados de defesa depois do final desse artigo, mas penso que todos sabem do que estou falando, ou melhor, eu espero que saibam... Estudar filosofia da religião também não significa professar necessariamente alguma crença. Devo fazer isso porque, tal como já anunciou o Fernando Pessoa, "queria resolver um problema afetivo nos termos da razão". Bem, então, para que serve a filosofia se não serve para educar? Há uma resposta consagrada, em geral dada por filósofos, de que ela não serve para nada e que o mundo, mesmo sem ela, segue do mesmo jeito. Só não consigo entender uma coisa: quem dá essa resposta até hoje não saiu da filosofia, vive dela e, inclusive, briga se tiver que dividir um pouquinho dela com alguém. O velho Kierkegaard dizia que Lutero tinha razão quando no advento da Reforma Protestante afirmou que nós deveríamos pregar nas ruas, pena que ele fez isso no altar de uma igreja. Do mesmo modo procedem alguns filósofos e algumas filósofas que eu conheço...

Portanto, essa resposta não me satisfaz. Acho que a filosofia serve para alguma coisa. Acho muito banal e comum dizer que ela é inútil. Certamente ela não tem o mesmo modo de algumas outras disciplinas. Ela também não é crítica por si só. Ser crítico cabe aos indivíduos autônomos, que não tem medo de pensar por si mesmos. Não é a filosofia que vai fazer milagres na vida de ninguém. Horkheimer, célebre companheiro intelectual de Adorno, já afirmava que a filosofia não deve ser um tipo de panacéia, isto é, um remédio para qualquer tipo de malefício. Se fosse assim, era só transformar a filosofia em auto-ajuda que, em geral, serve como auto-ajuda para o autor...

Conheci muitos homens e mulheres que não sabem uma linha de filosofia, inclusive, minha mãe. Será que eu não fui educado? A maioria dos brasileiros — e dos demais cidadãos desse planeta — não foram educados? O modelo platônico não vingou. O que fazer agora? Nos meus tempos de passeata, quando isso ainda existia no Brasil, vi uma moça que carregava um faixa onde se lia "justiça para os mais pobres" esbarrar numa senhora que fazia a limpeza da rua. Quando isso ocorreu, a moça, no melhor estilo burguês, disse a ela: "A senhora não viu que está atrapalhando?". Que beleza! Isso é mais um pouquinho de Brasil!

A filosofia não melhora o mundo, não ajuda ninguém a pensar melhor, não resolve problemas pessoais e nem enxaquecas, não paga dívidas. Ela apenas pode fazer com que olhemos tudo isso de um modo diferente, de acordo com a sua especificidade. Ela não consegue moldar caráter de gente que nasceu sem ele ou que resolveu vendê-lo no meio do caminho. A filosofia morreu! Viva a filosofia!

Para o final da conversa: A filosofia brasileira entre a autonomia, o copismo e o autoritarismo

Mais de cinqüenta anos já se passaram desde as primeiras análises de Cruz Costa e mais de dez anos já se passaram desde os escritos críticos de Paulo Arantes sobre o inventário de Costa sobre a filosofia no Brasil, mas a pergunta continua a nos inquietar: o que é a filosofia no Brasil? Se não podemos falar de uma filosofia brasileira que seria, por definição, impossível, o que é a história da recepção das idéias filosóficas no Brasil? Num país marcado por tantas contradições e abruptas passagens de uma coisa a outra sem que nada fique claro, como podemos falar de filosofia?

Uma pista talvez instigante para analisar as dificuldades da filosofia no Brasil é a análise do comportamento autoritário e da falta da idéia de algo público em nossa pátria. Como Kant já nos preveniu no século XVIII a filosofia só pode ser feita com a autonomia da razão e do pensar do indivíduo. Contudo, ainda hoje, a triste realidade é constatar a inexistência de tal coisa tanto por conta de sistemas que sufocam os indivíduos e tanto por indivíduos que, tal como os antigos bárbaros, não querem mexer nas estruturas, mas apenas ter o direito de usufruir das benesses do Império Romano. Só existe senhor onde existe consciência cativa e servil.

A filosofia cresceu a olhos vistos no Brasil. Seu reconhecimento acadêmico e na sociedade é uma prova eficaz de tal coisa. A discussão sobre sua inserção nos currículos, sua entrada, enquanto disciplina, em alguns exames vestibulares também prova tal coisa. Contudo, seu crescimento parece também ter muito do meramente social. Não são raros os encontros onde os professores e alunos de filosofia vão apenas para passeio, para recebimento de certificado ou para usufruir de alguns dias de folga. Não são raros também os grupos fechados - dentro e fora das universidades — controlando a pesquisa e o pensamento crítico. Não é raro encontrar gente que parece advogar as melhores da autonomia do sujeito, mas que age de modo truculento nas esferas acadêmicas. De 1994 aos dias atuais, os filósofos se revezam na tarefa de justificar os governantes de plantão. Ora podemos assistir aos defensores da zona cinzenta de poder justificar os aspectos talvez mais criticáveis de um governante e ora podemos assistir ilustres companheiros e companheiras defender governos supostamente inovadores, que se mantém, na prática, baseado no cultivo das desigualdades e no constrangimento das liberdades individuais e por que não dizer no gigantismo de um Estado repartido entre seus comparsas, como tão bem já apontou a sentença do Superior Tribunal Federal.

Infelizmente, não superamos o historicismo de Cruz Costa e nem possuímos nenhuma leitura mais crítica de importantes conceitos filosóficos. Nosso máximo alcance é a cópia mecanizada que, na maioria dos casos, já foi descartada em vários lugares do mundo. Nossa filosofia é, na maioria dos casos uma espécie de gato, ligação clandestina das Luzes alheias. Por isso, urge discutir, com o reaparecimento da filosofia no ensino médio, um novo modelo também para a filosofia acadêmica e um projeto abrangente que contemple as várias faces da filosofia em todo o Brasil e suas peculiaridades.

Márcio Gimenes de Paula
magipa@bol.com.br

Referências

Adorno e Horkheimer, Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

Arantes, Paulo Eduardo. Um Departamento Francês Ultramar. São Paulo: Paz e Terra, 1994.

Arantes, Paulo Eduardo et al. A Filosofia e Seu Ensino. Petrópolis: Vozes, 1995.

Bosi, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Chauí, Marilena. Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária. São Paulo: Perseu Abramo, 2000.

Costa, João Cruz. História das Idéias no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.

Ribeiro, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Weffort, Francisco C. Formação do Pensamento Político Brasileiro. São Paulo: Ática, 2006.

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