29 de Abril de 2010 ⋅ Opinião

Ensino elitista

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

O ensino público português não está a cumprir o seu papel social de dar oportunidades aos estudantes oriundos de famílias culturalmente carenciadas. Isto acontece porque as políticas do Ministério da Educação têm tido o efeito de dificultar cada vez mais a aprendizagem desses estudantes. Vejamos porquê.

A convicção que tem orientado as políticas educativas dos últimos anos é a seguinte: os estudantes culturalmente carenciados não são realmente ensináveis, nem podem ter qualquer interesse em física, medicina ou geografia, porque são cognitivamente deficientes: só os filhos das famílias culturalmente privilegiadas são ensináveis, porque não são cognitivamente deficientes, e por isso só eles podem ter interesse nas matérias "elitistas". Esta convicção não só é uma aberração biológica, como põe o mundo de pernas para o ar: o elitismo é precisamente a crença de que a física quântica, por exemplo, ou o piano, é só para certos estudantes privilegiados, ao passo que para aos outros só pode interessar o surf. Esta atitude é parecida ao racismo, porque em vez de ver os estudantes individualmente como seres humanos, vê os estudantes apenas como membros de classes sociais, e presume que os estudantes culturalmente carenciados o são não por serem vítimas da falta de oportunidades, mas por incapacidade cognitiva.

Ao eliminar as disciplinas centrais das diversas áreas académicas que constituem o legado da humanidade, substituindo-as por vacuidades escolares que visam aparentemente a integração social ou a educação para a cidadania, a escola pública faz precisamente o oposto: não permite que um estudante culturalmente carenciado possa tornar-se um cidadão pleno porque não lhe dá as competências cognitivas relevantes, nem lhe ensina os conteúdos sem os quais só poderá ser um consumidor passivo de Coca-Cola, telenovelas e futebol. Ao tornar os exames cada vez mais fáceis, a escola pública prejudica exclusivamente os estudantes mais carenciados, pois está efectivamente a dizer-lhes que não precisam de estudar, ao mesmo tempo que aprofunda o fosso entre eles e os mais privilegiados, pois estes estudam em qualquer caso, com exames fáceis ou difíceis.

O Ministério da Educação não consegue persuadir os estudantes mais carenciados do valor intrínseco do conhecimento, do estudo e consequentemente da escola, porque considera que estes estudantes não têm capacidade cognitiva para valorizar tais coisas. Mas qualquer agência de publicidade conhece as técnicas básicas para criar nas pessoas apetência pelo que elas antes não valorizavam. Proponho por isso que se substitua o Ministério da Educação por uma agência de publicidade. Se é possível convencer os estudantes mais carenciados a valorizar inanidades como a Coca-Cola, os ténis Nike e os bonés americanos de basebol, tanto mais fácil será ensinar-lhes a valorizar o que realmente tem valor intrínseco: o legado cognitivo da humanidade, codificado em coisas como a matemática, a física ou a história.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (15 de Julho de 2008)
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