Filosofia para o Ensino Médio
21 de Maio de 2011 ⋅ Filosofia

Erros graves

Marcelo Fischborn
Universidade Federal de Santa Maria
Filosofia para o Ensino Médio, de Maria Luiza Silveira Teles.
Petrópolis: Rio de Janeiro, Vozes, 2010, 157 pp.
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A obrigatoriedade do ensino da filosofia no ensino médio brasileiro certamente aumentará a produção bibliográfica em português destinada a esse fim específico. Atualmente, entretanto, temos razoável carência de material de qualidade e mesmo falta de clareza sobre o perfil que a filosofia deve assumir nesse nível de ensino. O livro de Maria Luiza Silveira Teles ilustra bem essa realidade. Embora seja um livro redigido com a melhor das intenções e muito bem ilustrado, contém alguns erros graves de conteúdo. Abaixo aponto e comento alguns desses problemas.

No capítulo III, intitulado “Metodologia”, há uma afirmação que, se não é uma falsidade evidente, requereria no mínimo uma defesa elaborada:

“A filosofia é uma ciência empírica porque se baseia principalmente na observação. Este, portanto, seria o método básico.” (p. 33)

Esta afirmação só pode fazer confusão a um aluno que está tendo os primeiros contatos com a filosofia, pois o que caracteriza a maior parte da tradição filosófica ocidental é justamente o fato de não ser uma ciência empírica! Poderia ser uma boa explicação para a ocorrência dessas afirmações a hipótese de que a palavra “não” foi ali esquecida algumas vezes. Desse modo, a filosofia não é uma ciência empírica e não se baseia na observação. A observação não é o método básico da filosofia. Essa correção seria condizente com o que é afirmado nos parágrafos precedentes:

“a discussão em Filosofia não pode ser uma mera conversa de “bar.” Tem de ser um levantamento de hipóteses, com respostas lógicas. […]

Nas ciências, de um modo geral, costuma-se usar o método científico, que começa com a observação rigorosa […]. Isso, porém, não é possível em Filosofia, já que lidamos somente com idéias, conceitos.” (p. 33)

Estas afirmações traduzem melhor o que a filosofia tem sido ao longo de nossa história. Mas contradizem a primeira passagem citada.

Outro conjunto de afirmações explicitamente problemáticas e difíceis de entender pode ser encontrado no capítulo 2, cujo título é “O pensamento lógico.” Na p. 19, a autora apresenta uma definição de silogismo, seguida de dois exemplos:

“[Silogismo] é uma conclusão razoável e lógica que se baseia em duas proposições ou premissas verdadeiras. […]:

Pedro é homem.
Todo homem é mortal.
Logo, Pedro é mortal. […]

Todos os negros são pessoas.
Napoleão era uma pessoa.
Logo, Napoleão era negro.” (p. 19)

A caracterização de silogismo como “conclusão razoável e lógica” é, no mínimo, estranha. Pois um silogismo não é a conclusão de um certo tipo de argumento, mas o próprio argumento. Além disso, há silogismos com premissas falsas, o que contradiz a segunda parte da caracterização fornecida pela autora. E não está claro em que sentido a conclusão do segundo silogismo (“Napoleão era negro”) seria razoável e lógica, uma vez o que esse silogismo é claramente inválido. A conclusão não se segue das premissas.

A definição de Aristóteles do termo grego para “silogismo” é “um discurso no qual, tendo certas coisas sido pressupostas, algo diferente do que é pressuposto resulta necessariamente” (Aristóteles, Prior Analytics, trad. Robin Smith. Hacket: Indianapolis, 1989, 24b20). Atualmente, o uso dessa palavra não se restringe a argumentos válidos. De qualquer modo, o uso que Teles faz do termo “silogismo” não é adequado, nem ao uso aristotélico, nem ao uso corrente. Parece, assim, que ela pretendia de fato apresentar a noção de um argumento correto, e não a de argumento válido.

Em seguida, Teles apresenta dois princípios da lógica clássica, o de não-contradição e o do terceiro excluído. Logo na seqüência, os argumentos previamente oferecidos como exemplos são avaliados. Encontramos aí ainda mais dificuldades:

“Podemos representar proposições por meio de frases (como já fizemos no início do capítulo) ou símbolos. Uma cadeia que forma uma expressão válida (isto é, que ofereça um valor falso (F) ou verdadeiro (V) de retorno) é chamada de fórmula bem formulada.

Assim, o primeiro exemplo de silogismo que apresentamos é uma fórmula bem formulada. Já o segundo exemplo não é uma fórmula bem formulada, pois leva a uma conclusão falsa.

Esclarecendo, proposição é uma sentença declarativa, afirmativa, que pode assumir o valor de verdadeiro (V) ou falso (F).” (p. 20)

É difícil oferecer uma leitura caridosa deste trecho. Em primeiro lugar, a caracterização oferecida para “expressão válida” é adequada não a argumentos, mas ao que usualmente denominamos proposição. A autora confunde as duas noções ao introduzir a noção de validade como equivalente à noção de proposição. Os argumentos não são verdadeiros ou falsos, mas válidos ou inválidos; as suas premissas e conclusões podem, sim, ser verdadeiras ou falsas, porque expressam proposições. A maneira mais econômica de se corrigir esse trecho parece ser excluir o que está entre parênteses e consertar a noção de validade. Esta não esclarece que a validade de um argumento não depende do valor de verdade efetivo das premissas e da conclusão. Um argumento não é válido simplesmente por ter premissas verdadeiras e conclusão verdadeira. O que um argumento válido precisa garantir é que a conclusão se segue das premissas, ou seja, que é impossível que a conclusão seja falsa se as premissas forem verdadeiras.

Além desses dois capítulos, temos um sobre “Os clássicos da Filosofia” (cap. IV) que apresenta um resumo sobre os principais filósofos gregos e uma coleção de pequenos trechos de filósofos medievais e modernos. Há também a clássica introdução com “O que é a filosofia” (cap. I), sendo que o restante do livro é dedicado a reflexões sobre temas como “O sentido da vida” (cap. V), “Nosso jardim interior” (VI), “Transformação interior” (VII), “O essencial” (VIII), “A responsabilidade para com o outro” (IX), “Reflexão sobre drogas” (X), “Valores” (XI), “Autoconhecimento” (XII) e “A morte” (XIII). Há dois problemas principais na apresentação desses temas. O primeiro é não levar em conta o aspecto argumentativo das discussões filosóficas, o que bem pode estar associado à incompreensão do papel da lógica na filosofia e no ensino médio. O segundo problema é não apontar para textos filosóficos — clássicos ou não — que sejam exemplos de tentativas de responder aos problemas filosóficos apresentados no decorrer do livro. A falta desses dois aspectos, centrais ao ensino da filosofia, pode sugerir que a disciplina é um mero falar sobre o que bem se entender ou que os textos filosóficos não são diferentes das obras de arte ou de jornais e revistas. Também fica algumas vezes a impressão de que a autora oscila entre o que seria propriamente uma discussão filosófica e o que poderia ser mais bem descrito como uma educação espiritual ou moral.

Temos, assim, uma amostra razoável de aspectos que desfavorecem esse livro. Os capítulos 2 e 3, em particular, são impróprios para o público leigo. Assim, só temos a lamentar que a editora Vozes tenha publicado este livro sem o submeter ao escrutínio e avaliação crítica competente que mereceria qualquer material dedicado a estudantes.

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