The Epicurus Reader
14 de Abril de 2007 ⋅ História da filosofia

Passeios no jardim

Desidério Murcho
The Epicurus Reader: Selected Writings and Testimonia, org. por Brad Inwood e L. P. Gerson
Hackett, 1994, 111 pp.
Comprar

Não se pode considerar culta uma língua que não dispõe de traduções da generalidade dos clássicos fundamentais. Acresce que a inexistência de traduções facilmente acessíveis e de qualidade, vertidas directamente do original, introduz uma tremenda injustiça social. De um lado, estão os portugueses de primeira, cujas famílias lhes deram um ensino de qualidade, com um bom domínio de uma língua culta estrangeira e acesso aos respectivos livros; do outro, os portugueses de segunda, embrutecidos pela escola para atrasados mentais inventada pelo ministério da educação, ignorantes das ciências, da filosofia, da história e de todos os conteúdos centrais que a actividade cognitiva humana produziu ao longo de 2500 anos.

Valia a pena traduzir boas traduções estrangeiras de obras clássicas — dado que o país não abunda em Fredericos Lourenços, capazes de verter com qualidade do grego para o português, mas sem ademanes falsamente académicos que, ironicamente, tornam os livros apenas acessíveis aos tais portugueses de primeira (que não precisam deles porque podem ler boas traduções estrangeiras). Este livrinho poderia ser um bom ponto de partida.

Um dos mais modernos pensadores da antiguidade grega, Epicuro (341-270 a.C.) foi um caso raro de sofisticação filosófica e sabedoria de vida. Na verdade, na Grécia antiga os estudantes mudavam de escola para escola à procura da melhor — mas quando descobriam os jardins de Epicuro, não voltavam a mudar. Ler directamente os seus escritos permite-nos compreender porquê: a sua tranquila racionalidade e sensatez, a sofisticação da sua argumentação, que todavia consegue transmitir de forma simples, são ingredientes que não é fácil encontrar noutros filósofos.

Epicuro defendia uma vida de prazeres simples, mas não simplistas; era materialista e atomista; e procurava mostrar que a ansiedade torna as pessoas miseráveis, não havendo razões para cair nessa armadilha. Hoje em dia, a nova "psicologia positiva", que procura determinar como se pode viver feliz, defende ideias semelhantes — mas hoje é preciso chamar-lhe "a ciência da felicidade", para lhe dar um ar sério. A "Carta a Meneceu" é uma das mais citadas; nela, Epicuro defende que a morte não deve provocar-nos ansiedade precisamente porque depois de mortos nós não existimos e enquanto estivermos vivos, não estamos mortos. Devemos também a Epicuro uma das primeiras formulações do problema do mal: se os deuses são omnipotentes e bons e sábios, por que razão há tanto mal no mundo? Epicuro defendia que os deuses, se existem, se estão nas tintas para nós e portanto não vale a pena estarmos nós preocupados com eles.

Estritamente materialista, Epicuro destacou-se pela tolerância cognitiva e pela recusa de dogmatismo. Os seus escritos sobre astronomia, por exemplo, ou sobre outros fenómenos físicos, exploram as diferentes teorias da altura, mas sem se comprometer dogmaticamente com nenhuma: argumenta que em muitos casos não se sabe pura e simplesmente como as coisas realmente são.

A filosofia do período helenístico tem conhecido uma profusão de estudos recentes que rejeitam a ideia de que os pontos altos da filosofia grega foram Platão e Aristóteles. Inwood e Gerson têm sido incansáveis na divulgação deste riquíssimo legado injustamente esquecido. Este livrinho é um bom ponto de partida para a aventura de descobrir a imensa riqueza da filosofia grega.

Desidério Murcho
Recensão publicada no jornal Público (10 de Novembro de 2006)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte