O Rapaz de Boné Vermelho, de Carolyn Miller
2 de Abril de 2008 ⋅ Opinião

Equívocos no ensino

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

O que podemos fazer para melhorar o ensino? Se abordarmos esta questão seriamente, temos de começar por evitar cair na armadilha em que caíram quase todas as equipas do Ministério da Educação dos últimos trinta anos. Essa armadilha é tão própria da mentalidade portuguesa que está mesmo diante dos olhos e não a vemos. E é a ideia de que se consegue melhorar o ensino por via legislativa. Este pensamento mágico atravessa a mentalidade portuguesa, e no caso da educação tem consequências desastrosas. A legislação sucede-se em catadupa, as regras do jogo nunca são claras, as reformas são permanentes. Cada reformador inventa a sua receita mágica para resolver os problemas do ensino. E nunca funcionam — porque não há receitas mágicas.

Se pararmos um pouco para pensar, consideremos o seguinte: estaríamos hoje pior se nunca tivéssemos reformado substancialmente o sistema de ensino que tínhamos em 1973? Não estou a dizer que não actualizássemos os programas, retirando-lhes obviamente a ideologia fascista — mas sem a substituir pela ideologia comunista, primeiro, e modernaça, depois. Mas se, à parte pequenos ajustes de pormenor, não se tivesse procurado reformar todo o sistema de cima abaixo, estaríamos hoje realmente pior? Duvido muito. Professores e estudantes saberiam as regras: quando se transita de ano e quando não se transita; quando há exames e quando não há; a própria designação das coisas seria conhecida por todos; haveria um clima de tranquilidade, tão necessária ao estudo; os professores não perderiam tempo precioso a tratar de burocracias novas, que desconhecem, e poderíamos exigir deles mais estudo, mais proficiência no ensino, mais rigor, mais leituras, mais conhecimentos. Estaríamos a discutir o que realmente interessa: a qualidade científica dos programas e a sua adequação didáctica; a qualidade dos manuais escolares; as técnicas de ensino. Poderíamos insistir no valor intrínseco do conhecimento — da matemática, da física, da história, da filosofia, da geografia, das belas-artes, da literatura, das religiões. Estaríamos a discutir estratégias para estimular os estudantes de famílias culturalmente carenciadas a dedicarem-se mais à escola, mostrando-lhes a eles e às suas famílias a importância da escola também como meio de qualificação e ascensão social. Estaríamos, em suma, a educar Portugal.

Em vez disso, temos medidas ministeriais cuidadosamente concebidas para fazer os estudantes transitar de ano, saibam ou não o que devem saber. Medidas que prendem os professores a papéis e burocracias, quando deviam estimulá-los a estudar e conviver com os estudantes numa atitude de partilha de conhecimentos. Medidas que provocam agitações sociais que têm graves custos para todos nós. Medidas que transformam o ensino numa batalha campal.

No ensino, exige-se tranquilidade, objectivos de longo prazo, cooperação entre todos. Enquanto se continuar a pensar que há soluções legislativas mágicas para os problemas da educação, continuaremos atarantados.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (11 de Março de 2008)
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