Como Havemos de Viver?

Escolhas últimas

Peter Singer
Universidade de Princeton

Grande parte das escolhas que fazemos no dia-a-dia são escolhas delimitadas, e são-no porque são feitas a partir de um dado quadro ou conjunto de valores. Porque me quero manter em forma, escolho ir dar uma volta a pé em vez de me deitar no sofá a ver um jogo de futebol e a beber cerveja. Uma vez que quero fazer alguma coisa para preservar a natureza faço parte de uma associação de defesa do ambiente que tem por objectivo chamar a atenção das pessoas em geral para a destruição contínua da natureza. Outra pessoa deseja ter uma carreira interessante e bem paga e por isso vai estudar direito. Em cada uma destas escolhas, os valores fundamentais já estão pressupostos, e a escolha é apenas uma questão de encontrar os melhores meios para atingir aquilo que é valorizado.

Contudo, nas escolhas últimas os próprios valores estão em jogo. Neste caso, a nossa escolha já não é feita a partir de um conjunto de valores no qual se pressupõe que aquilo que queremos é apenas maximizar os nossos interesses pessoais, nem a partir de um conjunto de valores que pressupõe que iremos fazer aquilo que consideramos ser, eticamente falando, o melhor. Em vez disso, a escolha diz respeito a diferentes modos de vida: o modo de vida no qual os interesses pessoais são o mais importante, ou o modo de vida no qual a ética é o mais importante; ou, talvez, o modo de vida que encontra um equilíbrio entre os dois [...].

As escolhas últimas requerem coragem. Ao fazermos escolhas delimitadas, os nossos valores fundamentais formam um alicerce no qual nos podemos apoiar quando escolhemos [...]. Para fazermos uma escolha última temos que pôr em questão os alicerces nos quais a nossa vida assenta [...].

Não é fácil fazer escolhas decisivas [...]. Supõe que tens oportunidade de vender o teu carro — que, como bem sabes, precisará em breve de uma grande reparação — a um estranho que é inexperiente demais para mandar inspeccionar o carro correctamente. O carro agrada-lhe e ele pergunta-te se o carro tem algum problema. Se responderes "Não, que eu saiba não", o estranho comprar-te-á o carro e, com isso, ganharás mais mil euros do que se o vendesses a uma pessoa que soubesse do assunto. Ele nunca poderá provar que estavas a mentir. Estás convencido que seria errado mentir-lhe, mas mais mil euros tornaria a tua vida um pouco mais confortável nos próximos meses. Nesta situação não vês necessidade de procurar conselhos sobre o que é mais importante para ti, nem é necessário perguntar aquilo que seria correcto fazer. Mas fará sentido perguntar “o que fazer”?

Claro que sim [...]. Todos nós enfrentamos questões últimas, e com igual intensidade, quer a oportunidade seja para ganhar 500 ou 50.000 euros. O estado do mundo nos últimos anos indica-nos que, mesmo que nunca sejamos tentados a seguir por caminhos menos éticos de fazer dinheiro, temos que decidir até que ponto queremos viver para nós, e até que ponto queremos viver para os outros. Existem pessoas com fome, pessoas mal alimentadas, com falta de abrigo, ou com falta de condições básicas de higiene e existem organizações voluntárias que juntam dinheiro para ajudar essas pessoas. É verdade, o problema é tão grande que um indivíduo apenas não pode alterar grande coisa; sem dúvida que uma parte do dinheiro será absorvido pelos governos, ou será roubado, ou, por qualquer outra razão, não chegará junto das pessoas que mais dele precisam. Apesar destes problemas inevitáveis, a discrepância entre a riqueza do mundo desenvolvido e a pobreza das pessoas mais pobres nos países em desenvolvimento é tão grande que mesmo que apenas uma pequena fracção do dinheiro chegue à pessoa que dele necessita, essa fracção fará uma diferença maior para essa pessoa do que a totalidade do dinheiro faria nas nossas vidas. [...]

Alguns produtos que usamos danificam a camada de ozono, contribuem para o efeito de estufa, danificam as florestas, ou poluem os rios e os lagos. Outros são testados, de forma concentrada, nos olhos de coelhos conscientes. Existem alternativas para os produtos que são nocivos para o ambiente, ou testados de forma tão cruel. Todavia, procurar e encontrar alternativas exige o nosso tempo e pode ser uma maçada. Serás capaz de te dar ao trabalho de os encontrar?

Nas nossas relações estamos constantemente a enfrentar questões éticas. Temos oportunidades de usar as pessoas e depois abandoná-las, ou então de lhes sermos leais. Podemos defender aquilo que acreditamos, ou então deixarmo-nos levar por aquilo que os outros nos dizem [...].

Devemos colocar a nós próprios a seguinte questão: Que lugar tem a ética na minha vida do dia-a-dia? Ao reflectires sobre esta questão, pergunta a ti mesmo: o que é para mim uma vida boa, no sentido mais pleno dessa termo? Esta é uma questão última. Colocá-la é perguntar: que tipo de vida é que eu verdadeiramente admiro, e que tipo de vida quero eu ter para que, quando for mais velho, possa olhar para trás e pensar sobre o modo como vivi? Será suficiente dizer "Foi giro"? Será que alguma vez serei capaz de dizer verdadeiramente que foi giro? Seja qual for a tua posição ou estatuto social, podes sempre perguntar — dentro dos limites do que é possível para ti — o que queres alcançar com a tua vida.

Peter Singer

Tradução e adaptação de Luís Filipe Bettencourt.
Excerto de Como Havemos de Viver?, de Peter Singer (Dinalivro, 2005).
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