29 de Abril de 2010 ⋅ Opinião

Escolher conteúdos

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A operacionalidade cognitiva é o primeiro factor importante na escolha de conteúdos escolares. A operacionalidade cognitiva de um conteúdo escolar é tanto maior quanto mais esse conteúdo pode ser proveitosamente aplicado pelo estudante para adquirir por si outros conteúdos. Em filosofia, por exemplo, insiste-se por vezes em ensinar aspectos irrelevantes da lógica aristotélica — além de a própria lógica aristotélica ser irrelevante, quando se pode ensinar lógica proposicional, que é mais operacional e mais intuitiva. O estudante é assim obrigado a decorar um conjunto de conteúdos sem qualquer aplicação para ele descobrir seja o que for, posteriormente. Contudo, é perfeitamente possível leccionar apenas aqueles aspectos centrais da lógica aristotélica que são necessários para que o estudante, se precisar aprofundar o tema, possa fazê-lo partindo de uma base segura.

Um inimigo da operacionalidade cognitiva é a avaliação. Alguns professores tendem a complicar o óbvio e a baralhar o simples, para poder depois fazer perguntas de aparência sofisticada. O resultado é treinar o aluno como um macaco fazedor de exames e testes, e não como um ser humano que compreende os conteúdos em causa. É preciso perder o medo de fazer perguntas directas e simples, centradas na compreensão de conteúdos centrais e — sobretudo — no raciocínio autónomo do aluno com base nesses conteúdos. Por exemplo, um argumento é válido quando é impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa; mas em vez de pedir esta definição ao aluno, podemos perguntar-lhe se um argumento dedutivo válido pode ter conclusão falsa, e porquê. Se ele compreendeu a definição e foi ensinado a raciocinar, descobre por si a resposta, afirmativa; se nos limitarmos a pedir-lhe a definição, estaremos a treinar um macaco.

O modo de apresentação de conteúdos tende para o terrorismo intelectual quando a mentalidade é aristocrática, entendendo a cultura e a ciência como mecanismos de opressão social; usa-se então uma linguagem de difícil compreensão (a que Marçal Grilo famosamente chamou "eduquês") para impressionar incautos e demarcar territórios sociais. Dada a mentalidade aristocrática, não admira que muitos estudantes se sintam alienados da escola e não a valorizem: os manuais, programas e linguagens foram supostamente concebidos para eles, mas na verdade estão feitos contra muitos deles — que reagem desprezando, e com razão, essa escola. Os responsáveis educativos pensam então que a rejeição resulta do desinteresse dos alunos pelos conteúdos, e esvaziam programas e manuais de conteúdos, enchendo-os de mais linguagens rebuscadas, que alienam ainda mais os alunos. Quando se torna óbvio que nada disto funciona, fazem-se exames nacionais de fantasia e inventa-se o sucesso escolar para inglês ver. E, no entanto, bastaria olhar com seriedade para a operacionalidade cognitiva dos conteúdos e para a simplificação das linguagens para dar um passo certo na direcção da excelência educativa.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (25 de Novembro de 2008)
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