29 de Abril de 2010 ⋅ Opinião

Especulação

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Os progressos da física, da química ou da medicina, a partir do séc. XVIII, deram novos argumentos à ideia de que não vale a pena tentar saber o que não se sabe porque ninguém o soube antes e consequentemente não vamos nós também conseguir saber. Antes do progresso evidente na compreensão da realidade que essas e outras ciências nos deram, o argumento era que a tentativa de conhecer coisas tão abstrusas como a composição química da água ou a constituição íntima da matéria era não apenas impossível como inútil: a vida quotidiana passava bem sem isso. Outro argumento era que tais coisas só podiam ser realmente conhecidas pelos deuses, sendo consequentemente sacrílego procurarmos atingir algo que lhes estava reservado. O livro do Génesis pode evidentemente ser interpretado de outro modo mas apresenta em qualquer caso o desejo humano de conhecer as coisas como um pecado capital e como a razão última da impossibilidade actual de uma vida paradisíaca. E ao contrário do que historiadores mais desatentos podem fazer crer, na Grécia antiga os filósofos e cientistas eram vistos com desconfiança pela população em geral, o que poderá explicar a condenação de Sócrates, um homem de 71 anos que não podia fazer mal a uma mosca mas insistia em especular sobre o que os outros queriam calar.

O argumento é hoje forçosamente diferente porque se tornou inegável a contribuição prática e teórica do conhecimento abstruso: microondas e Internet, aviões e medicina. Assim, circunscreveu-se o argumento actual contra a especulação: podemos especular, mas só se for "cientificamente". E esta palavra quer vagamente dizer qualquer como "pode-se observar ou experimentar no laboratório". A mentalidade cientificista é tal que praticamente todo o entulho cognitivo contemporâneo — criacionismo, astrologia, ocultismo, numerologia, homeopatia, etc. — é instintivamente justificado recorrendo a uma linguagem pretensamente científica: fala-se das energias quânticas ou dos fluxos energéticos, da comunicação transvectorial ou qualquer coisa assim.

A ideia de que só devemos especular ou tentar saber algo se o fizermos cientificamente é insustentável. Na verdade, essa mesma ideia não pode ser sustentada cientificamente, pelo que é auto-refutante. Antes de tentarmos saber algo não podemos muitas vezes saber se podemos sabê-lo. E mesmo depois de termos tentado saber e falhado mil vezes, não podemos muitas vezes saber se à milésima primeira não acabaremos por conseguir. Especular é tentar saber o que não sabemos e o que nem sequer fazemos ideia de como podemos tentar saber, mas é ao tentar que descobrimos isso mesmo. É a especulação que faz surgir o método científico; e apesar de também o método científico fazer surgir outras especulações, não o teríamos se ninguém se tivesse atrevido a especular sem ele. Consequentemente, nenhum método científico pode ser encarado como delimitador de toda a especulação possível, mas antes como um dos resultados felizes da ousadia de especular sem método científico.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (14 de Outubro de 2008)
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