Sinais de Trânsito, de Corene Spellman
20 de Novembro de 2009 ⋅ Filosofia

Estudar filosofia: uma abordagem

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Alguns estudantes de filosofia sentem-se perdidos perante a imensidão de bibliografias e filósofos. Por onde começar? Como fazer?

Este problema é agravado porque se usa muitas vezes a metodologia da autoridade doxástica: considera-se que estudar filosofia é fundamentalmente conhecer a opinião de várias autoridades importantes. E desata-se a ler esta e aquela autoridade, penetrando a custo nas complicações da sua linguagem e das suas ideias.

Eis uma metodologia diferente de estudo da filosofia. Começa-se com os problemas, e não com as opiniões das autoridades. O ponto de partida é um problema ou família de problemas. Os melhores problemas ou famílias de problemas por onde começar são os mais gerais e centrais da filosofia. Em vez de começar por estudar o problema de saber se há ou não uma linguagem privada, começar por estudar o problema geral do significado: o que é isso de uma sequência de sons ou marcas num papel terem significado? Eis outro exemplo: em vez de começar por estudar a diferença entre o utilitarismo das regras e dos actos, começar por estudar o que será afinal o bem último, se é que há tal coisa, e que melhores candidatos há.

Isto significa que se dá muita importância a bons livros introdutórios, que apresentem didacticamente estes problemas mais gerais, assim como as principais tentativas de resposta. Entre as tarefas centrais nessa fase do estudo contam-se as seguintes:

  1. Compreender com muito rigor o problema. Isto implica distinguir formulações erradas do problema, e saber explicar por que razão é um problema genuíno e não uma confusão qualquer. É preciso compreender a força intuitiva do problema. Não pode tratar-se de um mero artificialismo escolar ou académico.
  2. Compreender as alternativas conceptuais de resposta ao problema que podemos já vislumbrar. Isto é muito importante porque as respostas reais que depois iremos ler nos filósofos são explorações dessas alternativas que com um pouco de imaginação e discussão podemos desde logo ver que existem. Os filósofos limitam-se a explorar em pormenor uma delas. (E às vezes tentam combinar alternativas teóricas que não podem ser combinadas.)
  3. Compreender logo as dificuldades óbvias que cada alternativa teórica enfrenta. Esta compreensão será crucial quando se analisar cuidadosamente as respostas que efectivamente os filósofos dão a esses problemas.
  4. Saber, historicamente, que alternativas foram realmente defendidas por quem. Isto é muito importante porque sem contrastar teorias rivais (as respostas dos filósofos) não se consegue avaliá-las criticamente de modo adequado, e ficamos então presos à doxografia autoritária, que consiste em parafrasear filósofos.

Esta maneira de proceder significa que se lê os textos dos filósofos sabendo contextualizá-los conceptualmente (e não apenas historicamente, o que na maior parte dos casos não é assim tão relevante). Ou seja, sabemos a que problemas ou família de problemas o autor está a responder, e portanto não o lemos como um produtor de ficções algo aleatórias, mas como um produtor de respostas que queremos ver se são plausíveis; e só podemos ver se são plausíveis se sentirmos na pele a realidade dos problemas que estão em causa. Além disso, ao ler um dado filósofo, só podemos avaliar as suas ideias se tivermos conhecimento das alternativas teóricas — sem alternativas teóricas toda a teoria é boa (repare-se: se não tivéssemos alternativa à teoria de Copérnico que raio de razão teríamos para não aceitar que a Terra está imóvel no centro do universo?)

Outra vantagem desta abordagem é que eliminamos da nossa leitura dos textos dos filósofos as imensas irrelevâncias que muitas vezes têm, e concentramo-nos apenas no que nos interessa. É uma leitura que resolutamente não se interessa pela psicologia do filósofo, pelo seu sistema, a maneira como concebe o mundo e se gosta de café ou prefere chá. É uma abordagem terrorista, puramente teórica, completamente instrumentalista: o texto do filósofo é um mero meio para a nossa investigação, e não um fim em si. Há um desprezo profundo pela psicologia do filósofo, pelas suas intenções laterais, pela sua personalidade, etc. Tudo o que queremos saber é se a alternativa teórica que está a explorar funciona ou não e porquê, que dificuldades enfrenta, que vantagens e desvantagens relativas tem perante as outras alternativas. É uma leitura completamente desinteressante para quem vê a filosofia como uma subdisciplina da literatura ou da história (estas abordagens têm, é claro, todo o direito a existir). E nunca se presume que o filósofo tem um acesso privilegiado à verdade; lemos os seus textos como produtos de um ser humano como nós que está a tentar resolver um problema ou família de problemas que também nos preocupam: o filósofo é um interlocutor que podemos refutar e interrogar, e não uma autoridade que fala do púlpito e que só nos resta compreender e sistematizar.

Esta abordagem visa também adquirir as distinções conceptuais e outros instrumentos filosóficos fundamentais para se poder discutir as ideias dos filósofos. A ideia é dominar as noções de análise, definição, caracterização, contingência, necessidade, argumento, dedução válida, argumento falacioso, etc. — noções sem as quais a discussão filosófica nunca vai além do mero senso comum historicamente ilustrado. E não se fica agarrado à terminologia dos próprios filósofos, que muitas vezes é tendenciosa ou que esconde confusões; pelo contrário, um dos objectivos do nosso trabalho é reconstruir as teorias propostas pelos filósofos na nossa terminologia, e não na deles: não se trata portanto de aprender a parafrasear e citar filósofos, trata-se de aprender a discutir-lhes as ideias.

A abordagem aqui proposta do estudo da filosofia opõe-se à seguinte ideia comum: para podermos discutir as ideias de um filósofo, como Kant ou outro, primeiro temos de dominar muito bem, muito bem, o que ele realmente defende, de preferência lendo-o na língua original; só assim garantimos que não estamos a compreender mal o filósofo.

Considero que esta abordagem não funciona por dois motivos.

Em primeiro lugar, porque pressupõe falsamente que é possível compreender bem os filósofos sem os submeter ao género de leitura activa aqui apresentada. Na verdade, a melhor maneira de compreender os filósofos é levantar objecções, contra-exemplos e outras dificuldades, pois isso permite-nos ver em que casos compreendemos mal as suas ideias, em que casos as suas teorias têm recursos para responder a objecções ou contra-exemplos aparentes.

Em segundo lugar, porque pressupõe falsamente que a leitura activa é incompatível com o rigor histórico e interpretativo. Pelo contrário, a melhor motivação para o rigor histórico e interpretativo é querermos saber o que realmente pensava o filósofo, e não o que parece à primeira vista que ele pensava, pois o que queremos saber é se o que ele pensava ajuda a resolver o problema que queremos resolver. Por isso, queremos garantir que temos a melhor representação possível das ideias do filósofo; queremos garantir que fazemos a leitura mais rigorosa e mais favorável possível ao filósofo. O objectivo não é a tolice de senso comum de ficar famoso refutando Kant, pois o que não falta no mundo são refutações de filósofos e só é possível pensar que se fica famoso com mais uma quando se desconhece a bibliografia filosófica relevante; o objectivo é saber que recursos têm as teorias do filósofo para responder às piores dificuldades, e se são comparativamente mais plausíveis do que as suas alternativas.

Isto significa que, nesta abordagem, os textos dos filósofos não são usados didacticamente, como se fossem textos introdutórios. Os textos dos filósofos são usados como textos teóricos por direito próprio, que só podem ser lidos activamente com preparação adequada para tal. Mas isto também não significa que se vai passar anos a ler livros introdutórios e que só depois disso estamos autorizados a ler os filósofos directamente. O processo é dialéctico: uma coisa enriquece a outra e vai-se fazendo ambas paralelamente. A vantagem desta abordagem é permitir a formação de filósofos propriamente ditos — e de historiadores da filosofia de altíssimo perfil, pois sem saber filosofia não é possível fazer boa história da filosofia e sem lutar directamente com os problemas filosóficos e sem conhecer as alternativas teóricas não é possível saber filosofia.

Na abordagem aqui proposta o aluno não esgota toda a sua energia cognitiva tentando apenas compreender mais ou menos o pensamento dos filósofos; pois o aluno apreendeu de maneira didáctica e acessível os instrumentos e conhecimentos necessários para compreender as ideias e argumentos dos filósofos. A sua energia cognitiva é reservada para o trabalho crítico de saber se tais ideias são melhores do que as suas alternativas e para o trabalho criativo de propor ideias filosóficas próprias.

Esta abordagem é compatível com um trabalho histórico de maior pormenor, dedicando-se um seminário ao estudo de um diálogo de Platão, por exemplo, ou ao Naming and Necessity de Kripke. Este trabalho de pormenor é de extrema importância. Mas só poderá ser frutuoso se o aluno souber situar-se teoricamente, isto é, se conhecer o contexto teórico em causa — que problemas estão em causa naquele texto e que alternativas teóricas existem? — e se dispuser dos instrumentos filosóficos que lhe permitam levantar objecções e contra-exemplos, propor modificações que melhorem as ideias em causa, analisar a cogência dos argumentos do filósofo e a plausibilidade das suas ideias.

A esperança de que basta ler directamente os clássicos da filosofia para se aprender a filosofar parece-me uma ilusão, na maior parte dos casos. Parece-me que na maior parte dos casos se aprende apenas a parafrasear. O mesmo ocorre se uma pessoa sem preparação tentar aprender biologia lendo textos sofisticados de biologia: conseguirá parafrasear esses textos, mas será relativamente baixa a probabilidade de aprender a fazer biologia.

Desidério Murcho
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