The President of Good and Evil
21 de Janeiro de 2006 ⋅ Opinião

Bush, o bem e o mal

Peter Singer
Universidade de Princeton

A facilidade com que Bush fala sobre bem e mal data de muito antes de 11 de Setembro de 2001, de antes da sua eleição como presidente, e de antes da sua campanha para este cargo, centrada na ideia de que ele levaria "honra e dignidade" à Casa Branca (no que todas as pessoas entenderam como um contraste em relação a Bill Clinton). Bush inicia a sua dissertação pré-eleitoral, A Charge to Keep, afirmando que um dos momentos definidores da sua vida ocorreu durante uma oração, momentos antes de prestar juramento na tomada de posse do segundo mandato como governador do Texas. Nos termos em que Bush conta a história, o Pastor Mark Craig disse que as pessoas "têm necessidade de líderes que possuam coragem ética e moral […] líderes que tenham coragem moral para fazer o que é correcto, pela razão correcta." Bush diz-nos que este sermão falou directamente com "o meu coração e a minha vida", desafiando-o a fazer mais do que fizera durante os primeiros quatro anos como governador. Segundo parece, tomou a resolução de ser o tipo de líder de quem, como dissera o Pastor Craig, as pessoas têm necessidade.

Mas, apesar de Bush afirmar que o discurso de Craig constituiu um daqueles momentos "que nos mudam para sempre […] que nos colocam numa rota diferente", parece que ele já estava nessa rota. A moral estava já no cerne do seu discurso de tomada de posse do segundo mandato como governador, que ele evidentemente preparara antes de ouvir o sermão de Craig. Depois de dizer que os nossos filhos têm de ser ensinados sobre o bem e o mal, prosseguiu: "Têm de aprender a dizer sim às responsabilidades, sim à família, sim à honestidade e ao trabalho […] e não à droga, não à violência, não à promiscuidade e a ter filhos fora do laço matrimonial". É difícil saber quando é que Bush decidiu fazer da ética o tema central da sua vida pública. Talvez tenha sido durante um fim-de-semana de Verão, em 1985, quando Bush se reuniu aos pais e outros familiares na residência de Verão da família, em Kennbunkport, no Maine. O evangelista Billy Graham foi convidado a juntar-se à família e, enquanto Bush caminhava até à praia, Graham perguntou-lhe se ele estava "em paz com Deus". Bush respondeu que não tinha a certeza, mas a conversa levou-o a pensar no assunto. Em A Charge to Keep, refere que este foi o momento em que "o Reverendo Billy Graham colocou uma semente de mostarda na minha alma" que o levou a "entregar novamente o coração a Jesus Cristo" e a tornar-se leitor regular da Bíblia. É evidente que as crenças cristãs de Bush têm um papel importante no seu pensamento moral.

O facto de George W. Bush ser o presidente da única superpotência do mundo é razão suficiente para querer compreender as suas opiniões morais. Mas não é a única razão. Bush representa uma atitude moral distintamente americana — não partilhada por todos os americanos, claro, mas, ainda assim, com um papel mais central na vida pública americana do que noutro local qualquer. Tendo vivido a maior parte da minha vida fora dos Estados Unidos, sou frequentemente surpreendido pelo modo de pensar tão diferente de americanos e europeus, australianos e mesmo canadianos acerca de questões sociais, políticas e éticas. Bush e eu pertencemos à mesma geração — na verdade, nascemos no mesmo dia: 6 de Julho de 1946 — e, no entanto, sob certos aspectos vivemos em universos éticos distintos. Compreender melhor Bush é compreender um filão do complexo conjunto de ideias que torna a América diferente. Por isso, este livro não é apenas um estudo da ética de um presidente dos Estados Unidos, mas também a perspectiva de um outsider relativamente a um filão importante do pensamento americano — a forma de pensar que actualmente conduz as políticas do país dominante e que tem abertamente como objectivo transformar o século XXI no "século americano".

Dada a importância mundial das opiniões de Bush sobre o bem e o mal, pode parecer surpreendente que os filósofos tenham prestado pouca atenção à sua ética. Uma razão provável para isto ter acontecido é os filósofos o considerarem indigno da sua atenção. Quando disse a amigos e colegas que estava a trabalhar num livro sobre "a ética de Bush", alguns deles observaram que a expressão era um oximoro ou que o livro devia ter poucas páginas. Então eu não via — perguntaram-me, incrédulos — que Bush era apenas mais um político que diz seja o que for que julgue contribuir para a sua eleição ou reeleição? Ele nem sequer tem o poder de concentração, quanto mais a inteligência — disseram-me —, para pensar numa filosofia coerente. Em vez de perder o meu tempo a levar a sério as suas observações sobre ética — sugeriram-me — devia denunciar a hipocrisia de toda a sua conversa sobre moral. Devia mostrar que o que ele realmente faz é sempre do interesse dos seus amigos texanos da indústria petrolífera ou das grandes empresas e ricos patrocinadores individuais que contribuem substancialmente para os cofres da campanha.

Há ocasiões no meu livro em que pergunto se o que Bush faz é coerente com aquilo em que afirma acreditar. Depois de fazer isto, pergunto-me se a visão cínica dos meus amigos estará correcta. Claro que Bush é um político e está sujeito às mesmas pressões que qualquer político, mas penso que a verdade é mais complexa do que julgam os meus amigos cépticos. Contudo, mesmo que tivessem razão relativamente aos motivos do presidente, isso não retiraria todo o interesse à filosofia moral que defende. Dezenas de milhões de americanos acreditam na sua sinceridade e partilham as opiniões que ele apresenta acerca de uma vasta gama de questões morais. Também aceitam sem questionar a imagem luminosa e positiva da América e a sua bondade única, que perpassa os seus discursos. Aqueles que me julgam ingénuo no que diz respeito às opiniões de Bush podem, então, encarar o meu livro como uma análise e uma crítica de um conjunto de crenças amplamente partilhadas pelo povo americano, independentemente de o seu principal porta-voz acreditar ou não no que diz. Assim, o meu ponto de partida é tomar à letra o que Bush diz e ver quão defensáveis são as posições que ele adopta.

Peter Singer

Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Retirado de The President of Good and Evil: Taking George W. Bush Seriously, de Peter Singer (Londres: Granta, 2004)
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