On the Meaning of Life
18 de Fevereiro de 2006 ⋅ Ética

Deus e o sentido da vida

Desidério Murcho
On the Meaning of Life, de John Cottingham
Londres: Routledge, 2002, 144 pp.
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"Pensamento em Acção" é o título da recente colecção da Routledge que pretende competir com a famosa "Introduções Concisas" da Oxford University Press. Em ambos os casos, trata-se de livros de pequeno formato e poucas páginas, dirigidos ao grande público, mas da autoria de especialistas das mais diversas áreas. A ideia é transmitir de forma sintética e agradável alguma informação central sobre temas de reconhecida importância, da filosofia da ciência à ética, da literatura à história, da ciência à arte, da arqueologia à religião. Desta colecção, Pedro Galvão divulgou já o livro do filósofo John Harris dedicado à clonagem.

Fale-se com qualquer pessoa que nada sabe de filosofia, ou muito pouco, e é quase certo que ela pensa que o sentido da vida é o problema central da filosofia. Isto é, de facto, historicamente falso. A generalidade dos filósofos, ao longo da história, tem dado muitíssimo mais importância a vários outros problemas da filosofia — o problema do cepticismo, o problema do bem, o problema da existência de Deus, o problema dos universais. Mas nos últimos decénios têm-se sucedido os estudos sobre o sentido da vida, destacando-se nesta área os filósofos Thomas Nagel, Susan Wolf, Kurt Baier, Robert Nozick e David Wiggins. John Cottingham é um recém-chegado a esta área, depois de se ter notabilizado fundamentalmente como historiador da filosofia, especialista em Descartes.

A sua religiosidade manifesta-se no tratamento que oferece do tema do sentido da vida. Do seu ponto de vista, só Deus poderá dar sentido à vida — uma opinião popular, mas que tem tido pouca aceitação entre os filósofos especialistas na área. Cottingham entende que uma vida religiosa é, pela sua prática, mais satisfatória do que uma vida não religiosa. Mas como acontece com a generalidade dos pensadores religiosos, é a promessa de imortalidade que para o autor faz a diferença entre o sentido e a falta dele. Esta perspectiva levanta muitos problemas; como argumenta Thomas Nagel, se uma vida não tem sentido não é por ser eterna que o ganha, e se o tem não é por ser finita que o perde; e Bernard Williams vai mais longe e argumenta que uma vida com sentido poderá até perdê-lo caso se prolongue indefinidamente.

Na página final o autor declara:

"Não podemos criar os nossos próprios valores, e não podemos alcançar o sentido inventando os nossos próprios fins; a realização da nossa natureza depende da cultivação sistemática das nossas capacidades humanas para o fascínio e o deleite perante a beleza do mundo, e no desenvolvimento da nossa sensibilidade moral para a compaixão, simpatia e diálogo racional com os outros. Contudo, por causa da fragilidade da condição humana, precisamos de mais do que da determinação racional para nos orientarmos para o bem. Precisamos de ser sustentados por uma fé na resistência do bem; precisamos de viver à luz da esperança."

Os filósofos ateus não ficarão persuadidos por este argumento, objectando que se a religião é apenas uma espécie de cenoura para nos manter no caminho do bem, voltamos ao inaceitável Deus primitivo do castigo e da recompensa — e estamos ao mesmo tempo a prostituir o bem, que deve ser praticado por si e não pela recompensa numa vida do além. De uma maneira ou de outra, Cottingham oferece neste livrinho muitas ideias e referências que podem ajudar o leitor a dar os primeiros passos na reflexão sobre o sentido da vida.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (29 de Outubro de 2005).
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