A Companion to Ethics
24 de Julho de 2004 ⋅ Ética

Ética para o povo

Desidério Murcho
A Companion to Ethics, org. por Peter Singer
Oxford: Blackwell, 1993, 592 pp., £19.99
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Este é o tipo de obra que valia mesmo a pena traduzir — sobretudo agora que se adivinha mais um debate nacional, desinformado e meramente ideológico, sobre o aborto. O volume, em sete partes, é constituído por quase cinquenta artigos de cerca de uma dezena de páginas, redigidos por vários especialistas (como Mary Migdley, Will Kymlicka, Jonathan Dancy, Philip Pettit, Robert E. Goodin, Brenda Almond, Helga Kuhse, Hugh LaFollette, C. L. Ten, Michael Smith, James Rachels, R. M. Hare e Michael Ruse). Muitos deles têm inúmeros artigos publicados nas melhores publicações académicas, e são autores de livros cujas ideias constituem parte essencial da discussão entre especialistas.

A primeira parte tem por título "As Raízes" e reúne artigos dedicados à origem da ética, à ética em pequenas sociedades e à ética das civilizações antigas, anteriores à cultura clássica. A segunda parte, dedicada às grandes tradições éticas, inclui artigos sobre as éticas clássicas indiana, budista, chinesa, judaica, cristã e islâmica. Os artigos explicam a origem destas tradições éticas, as suas relações com outras tradições, e os princípios fundamentais que as caracterizam e as diferenciam de outras tradições. A terceira parte apresenta uma história concisa da ética filosófica ocidental, abrangendo a ética clássica grega, a ética medieval e renascentista e a ética contemporânea.

A quarta parte é dedicada à ética normativa. É nesta parte que abandonamos os preâmbulos históricos da ética e entramos no estudo da ética propriamente dita. Nesta parte encontramos artigos dedicados a várias teorias éticas rivais ou complementares: teorias da lei natural, deontológicas, consequencialistas, contratualistas e teorias das virtudes, entre outras. A quinta parte é dedicada à ética aplicada. Esta é uma das áreas da filosofia com maior impacto na vida pública e onde uma boa formação em filosofia marca a diferença. Esta parte é dedicada aos problemas da pobreza mundial, da ética do meio ambiente, da eutanásia, aborto, sexo, relações pessoais, igualdade, discriminação e tratamento preferencial, tratamento dos animais, ética empresarial, problema da punição, problema das "mãos sujas" na política, e, finalmente, os problemas éticos levantados pela guerra. A sexta parte é dedicada à metaética e a última às críticas radicais à própria ética: as críticas feministas, darwinistas, marxistas, religiosas e que resultam da ideia de que o universo é determinista.

Os artigos apresentam com clareza e simplicidade os problemas da área e as teorias mais importantes, discutindo os seus méritos e deméritos, formulando os argumentos que defendem as diferentes posições e mostrando os seus pontos fracos e fortes. No final de cada artigo encontram-se duas bibliografias: uma com as obras referidas nesse artigo e outra com leituras complementares. Esta obra constitui assim um bom ponto de partida para quem quer aprofundar o estudo da ética, ao mesmo tempo que fornece a informação mínima que qualquer pessoa deveria possuir antes de discutir assuntos éticos em público. É uma obra imprescindível, sendo ao mesmo tempo uma pequena enciclopédia de ética e portanto uma obra de consulta, mas também uma colecção de ensaios relativamente independentes que podemos ler isoladamente. Essencial.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (7 de Fevereiro de 2004)
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