The Moral Life
12 de Fevereiro de 2005 ⋅ Ética

Filosofia e literatura

Desidério Murcho
The Moral Life: An Introductory Reader in Ethics and Literature, org. por Louis P. Pojman
Oxford: Oxford University Press, 2003, 1004 pp., £37.50
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"A imaginação apaixonada da literatura é cega sem a cabeça fria da filosofia, mas a cabeça fria da filosofia é estéril e tão frígida quanto um "iceberg" sem as paixões da vida, transmitidas na literatura", podemos ler no Prefácio do organizador a esta interessante colectânea. Dividida em quatro partes, respectivamente dedicadas à natureza da moralidade, às diferentes teorias morais, a questões morais gerais e à ética aplicada, trata-se de uma fonte riquíssima para quaisquer professores, do superior ou do secundário, que procurem materiais estimulantes para tornar mais vivo o ensino da ética. O que destaca esta colectânea de tantas outras muitíssimo boas é precisamente a inclusão da literatura e de outras fontes (como discursos políticos ou religiosos), que poderão constituir importantes estímulos para fazer os estudantes compreender a força dos problemas filosóficos tratados na disciplina de ética, abandonando a ideia errada de que a filosofia é um artificialismo de pessoas ociosas.

Colin McGinn, no livro Moral Literacy, tinha já apresentado um modelo semelhante, no qual a literatura e a filosofia encontram pontos de contacto frutíferos para ambas. Esta abordagem permite compreender a confusão que consiste em defender o indefensável: que a filosofia é literatura. Sem dúvida que existem pontos de contacto entre a filosofia e a literatura. Mas se não atendermos com lucidez aos diferentes aspectos que fazem a diferença destas disciplinas, estaremos condenados à confusão elementar de pensar que basta um texto ter palavras filosóficas para ser filosofia e que basta ter aspectos literários para ser literatura. Claro que há aspectos de tudo em tudo, mas esta verdade desinteressante não nos ajuda a compreender melhor coisa alguma.

Cada parte desta colectânea está dividida em vários capítulos temáticos, precedidos por uma útil introdução do organizador, concluindo-se com um conjunto de perguntas que ajudam o estudante a focar a sua atenção em alguns aspectos centrais. A título de exemplo, o primeiro capítulo da primeira parte, dedicado ao propósito da moralidade, apresenta leituras de William Golding (O Deus das Moscas), do organizador e de Hobbes (um excelente ponto de partida para leccionar também o problema do estado de natureza e da justificação do estado, problema do âmbito da filosofia política). As leituras são em geral clássicos centrais da filosofia, intercalados com excertos de romances, contos, discursos políticos ou escritos religiosos. Assim, encontramos escritos de, por exemplo, Nietzsche, Richard Taylor, Bentham, Bernard Williams, Kierkegaard, Kant e Thomas Nagel, mas também de Ibsen, Heródoto, Melville, Dostoevski, Ursula LeGuin, Aldous Huxley, Vítor Hugo, Buda, Martin Luther King Jr. e Camus, entre muitos outros.

Os temas abrangidos pela colectânea incluem a origem do bem e do mal, o relativismo moral, o utilitarismo, a ética deontológica e das virtudes, o egoísmo ético, o sentido da vida, a vida sexual, o aborto, as drogas, os animais não humanos e a ética do meio ambiente. Dado que muitos destes temas integram os programas de filosofia do ensino secundário, esta obra é uma fonte importante de leituras para este nível de ensino. A segunda edição, entretanto publicada, contém um novo capítulo dedicado ao terrorismo, reunindo um texto bíblico, um ensaio de Nussbaum e um ensaio do organizador.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (2 de Outubro de 2004)
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