The President of Good and Evil
7 de Novembro de 2005 ⋅ Ética

A ética da crença

Peter Singer
Universidade de Princeton

William Clifford, matemático e filósofo britânico do século XIX, escreveu um ensaio sobre a ética da crença que começava com a história de um armador prestes a enviar um navio cheio de emigrantes para o mar. Ele sabia que o navio era velho e precisava de reparações, por isso tinha dúvidas quanto às suas condições de navegação e perguntava-se se deveria suportar a despesa de o consertar e equipar completamente. Mas, ao invés, decidiu depositar a sua confiança na Providência, que dificilmente deixaria de proteger aquelas famílias que abandonavam a sua terra natal em busca de uma melhor vida no estrangeiro. Assim, convenceu-se de que tudo correria bem e assistiu sem apreensões à partida do navio. Quando o navio naufragou, provocando a morte de grande número de pessoas, os seus prejuízos foram cobertos pela companhia de seguros.

O argumento de Clifford é que a sinceridade da crença do armador não o absolve da culpa em relação às vidas perdidas pois, tendo em conta as provas perante si, este não tinha o direito de acreditar que a embarcação estava capaz de seguir viagem. Como afirma Clifford, "ele adquirira a sua crença, não granjeando-a honestamente através de uma investigação paciente, mas abafando as suas dúvidas". Mesmo que o navio estivesse em condições e houvesse concluído em segurança a viagem, isso não significaria que o proprietário estava justificado por tê-lo considerado em condições de navegar. Ainda assim, seria incorrecto permitir que as vidas dos passageiros dependessem da sua fé, e não da prova cabal de que o navio se encontrava em boas condições.

À luz deste exemplo, consideremos a própria descrição de Bush, em A Charge to Keep, da sua decisão de "reentregar o meu coração a Jesus Cristo". Bush faz remontar esta decisão ao passeio a pé pela praia do Maine em companhia do evangelista cristão Billy Graham. Conversando com Graham, Bush sentiu-se, segundo afirma, "humilde ao saber que Deus enviara o Seu Filho para morrer por um pecador como eu". Depois da sua decisão de se entregar novamente a Jesus, diz-nos Bush, começou a ler regularmente a Bíblia e aderiu a um grupo de reflexão sobre o Livro Sagrado. Mais à frente, ao descrever uma visita a Israel que ele e a mulher fizeram em 1998, percebemos melhor a sua perspectiva dos evangelhos enquanto história. É-nos dito que George e Laura foram ao Mar da Galileia e "subiram ao monte onde Jesus pregou o Sermão da Montanha". Foi, acrescenta ele, "uma sensação avassaladora, estar no local exacto onde foi proferido o sermão mais famoso da história do mundo, o local onde Jesus definiu o carácter e a conduta do crente e revelou aos seus discípulos e ao mundo as bênçãos, a Regra de Ouro e o Pai-Nosso". Bush conclui a sua descrição da visita que fez a Israel afirmando saber que a fé muda as vidas, porque, diz, "a fé mudou a minha". Esta fé é algo que lhe permite construir a vida sobre "um alicerce que não cederá".

Bush apresenta aqui a imagem de um homem que aceita o que lhe dizem sem se colocar quaisquer questões críticas sobre o assunto. O modo como as pessoas adquirem a fé religiosa é um tema demasiado vasto para ser discutido aqui, mas, ainda assim, há qualquer coisa nessa aceitação incondicional que deveria perturbar-nos. As pessoas que reflectem e estão habituadas a questionar aquilo que lhe dizem resistirão a abraçar a ideia cristã de que o mundo está feito de acordo com um plano divino. Notarão que o principal factor decisivo de crença na religião cristã é ter sido educado nela e que poucas pessoas que cresceram em lares islâmicos, hindus, judeus e budistas acreditam que Jesus seja o filho de Deus. Bush parece acreditar que só os cristãos têm lugar no céu. A maioria dos muçulmanos acredita, de modo igualmente fervoroso, que só os muçulmanos o terão. Não podem ter todos razão (embora possam estar todos errados). A reivindicação cristã da verdade será mais bem fundamentada do que a islâmica, a judaica, a hindu ou a budista? Devemos mostrar-nos cépticos relativamente a pretensões de saber algo quando a crença nesse algo é tão imune a qualquer prova ou argumento objectivo que depende eminentemente daquilo em que a respectiva família acredita e dos costumes e crenças da sociedade na qual se cresce.

Nada disto parece perturbar minimamente Bush. Ele "sabe" que Deus enviou o seu único filho para morrer pelos pecadores como se se tratasse de saber que George Washington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos. Quando vai a Israel, mostra-se tão confiante de estar no monte onde Jesus proferiu o Sermão da Montanha que o leitor poderia supor que ele se deparara com uma inscrição de registo do acontecimento gravada pelos discípulos presentes. Em momento algum lhe passa pela cabeça que, uma vez que o evangelho segundo Lucas nos diz que o sermão foi proferido "na planície", os evangelhos poderão não ser completamente fiáveis. A maioria dos estudiosos do Novo Testamento crêem que, quem quer que tenha escrito o Evangelho Segundo Mateus, compôs ele próprio o Sermão da Montanha, baseando-o em várias frases de Jesus que haviam sido registadas anteriormente. A ser assim, não precisamos de nos preocupar com o problema da identificação do monte (ou da planície) onde Jesus teria proferido o Sermão, uma vez que ele nunca o pronunciou.

Muitos americanos não verão nisto qualquer problema. Partilham a fé de Bush e estão ainda mais dispostos a votar nele por esta razão. Mas nós estamos a considerar a ética da sua crença, e não se esta é generalizada ou politicamente conveniente. Mesmo que muitos americanos partilhem as crenças ingénuas de Bush, precisamos de nos perguntar o que devemos pensar de alguém que baseia a sua vida na fé não questionada. Por outras palavras, que devemos pensar de alguém que, embora fale e escreva muito sobre a sua crença religiosa, não dá sinais de ter analisado sequer a questão — alguém para quem a crença religiosa é um não questionado "alicerce que não cederá". Como muito bem disse o filósofo Karl Popper, a diferença entre ciência e dogma é que uma teoria científica tem sempre de estar aberta à falsificação, na base da prova. Bush parece quase vangloriar-se de a sua visão da verdade não estar aberta à falsificação na base da prova.

Também se dirá que as nossas crenças religiosas são uma questão privada e, portanto, não constituem um objecto adequado de avaliação ética. Mas Bush fez da sua religião uma questão de interesse público ao referir-se frequentemente a esta e ao afirmar que a religião influencia as suas decisões públicas. Tem importância para todos nós porque a fé de Bush, como a do armador de Clifford, pode torná-lo mais seguro de estar certo do que deveria. Em 1999, enquanto se preparava para se candidatar à presidência, reuniu importantes pastores na sua mansão de governador do Texas e disse-lhes que tinha sido "chamado" a tentar ocupar um cargo mais elevado. Após os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, disse a Karl Rove, seu conselheiro político: "Estou aqui por uma razão". No mês antes de dar início à guerra com o Iraque, Bush participou na convenção de Emissoras Nacionais Religiosas e ouviu sem pestanejar descreverem-no como "o homem escolhido por Deus para enfrentar esta hora de aflição do nosso país". Howard Fineman, escrevendo sobre Bush na revista Newsweek, diz que a fé "ajuda Bush a fixar a rota e a não olhar para trás". Não precisamos de ver muito longe para perceber aonde pode conduzir uma tal atitude perante a crença. Aqueles que planearam e provocaram a morte de três mil americanos inocentes em 11 de Setembro de 2001 eram pessoas com uma fé religiosa profunda que rezavam frequentemente e, antes de morrerem, encomendaram as suas almas ao cuidado de Deus. Uma das ironias da vida americana é estes ataques perpetrados por fanáticos religiosos terem desencadeado ainda mais demonstrações públicas religiosas do que é habitual na vida americana pública, incluindo a transmissão televisiva do "God Bless America" entoado pelos membros do Congresso na noite dos ataques. Os especialistas islâmicos, convocados apressadamente pelas estações televisivas, disseram que o problema não era o islamismo, e muito menos a própria fé religiosa. Os terroristas tinham interpretado mal a sua religião. Mas se tudo dependesse da fé, por que razão não poderiam os terroristas ter fé em que a sua versão particular do islamismo era a correcta? Por que não poderiam ter "sabido" junto de um importante mestre religioso que Deus queria que destruíssem a maior potência que se atravessava no caminho do modo de vida islâmico?

Claro que há uma diferença moral crucial entre aqueles cuja fé lhes diz que matem pessoas inocentes e aqueles cuja fé ensina a respeitar a vida. Mas a diferença não é algo que possamos obter a partir da fé. O militante islâmico que acredita estar a cumprir a vontade de Deus quando lança um avião cheio de passageiros contra o World Trade Center é tanto uma pessoa de fé como o cristão que acredita estar a fazer a vontade de Deus quando passa os seus dias em piquetes à porta de clínicas que realizam abortos. A fé não pode dizer-nos o que é correcto e o que é incorrecto, pois cada um dirá simplesmente que a sua fé é a verdadeira. Na ausência de uma disponibilidade para aduzir razões, provas ou argumentos a favor de algo e em detrimento de outra coisa, não é possível progredir. Se tentarmos dissuadir as pessoas de se tornarem terroristas islâmicas radicais, não persuadindo-as a serem mais reflectidas e ponderadas nas suas crenças religiosas, mas encorajando-as a mudar de uma fé não questionada para outra, estaremos a lutar com as mãos amarradas atrás das costas. Por conseguinte, será muito melhor insistir na existência de uma obrigação ética de basear as nossas opiniões sobre a vida em provas e raciocínio sólido. Bush, infelizmente, não está em posição de insistir numa tal obrigação ética, pois as suas próprias crenças religiosas não se baseiam mais em provas analisadas criticamente do que as crenças religiosas de Ossama Bin Laden.

Outro comentário de Clifford a propósito do efeito da credulidade adquire nova importância à luz da recente controvérsia acerca das declarações da administração de que o Iraque possuía armas de destruição maciça e ligações à Al Qaeda:

Os malefícios da credulidade numa pessoa não se limitam à promoção de um carácter crédulo nos outros e consequente defesa de falsas crenças. A falta habitual de cuidado com aquilo em que acredito conduz a uma falta habitual de cuidado, por parte dos outros, com a verdade daquilo que me dizem. Os homens falam verdade uns aos outros quando cada um respeita a verdade no seu próprio espírito e no espírito alheio; mas como pode o meu amigo respeitar a verdade no meu espírito se eu próprio sou descuidado com ela, quando acredito em coisas simplesmente por querer acreditar nelas, quando elas são reconfortantes e agradáveis? [...] O crédulo é pai do mentiroso e do intrujão [...].

Quando, mais de um século volvido sobre estas palavras de Clifford, se colocaram dúvidas sobre a utilização por parte da administração de Bush de informação questionável para compor o caso da posse de armas de destruição maciça pelo Iraque, Greg Thielmann, especialista na proliferação que trabalhava para o Gabinete de Informações e Investigação do Departamento de Estado, explicou o que acontecera de um modo que Clifford teria entendido como confirmando a sua perspectiva. Thielmann disse: "Esta administração tem para com as informações uma atitude baseada na fé: "Sabemos as respostas, dêem-nos as informações que confirmam essas respostas." Quando se pressente este tipo de atitude, sufoca-se o espírito da investigação e integridade intelectual". Al Gore, antigo vice-presidente, disse algo semelhante quando sublinhou que os americanos sempre acreditaram que a democracia depende do debate aberto e de "um respeito partilhado pela regra da razão como melhor forma de estabelecer a verdade" — e depois acrescentou que a administração de Bush não respeita esse processo porque "eles sentem que já sabem a verdade" e são "fervorosos crentes nos projectos uns dos outros".

Peter Singer

Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Retirado de The President of Good and Evil: Taking George W. Bush Seriously, de Peter Singer (Londres: Granta, 2004)
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