14 de Setembro de 2010  

A fé e a razão

A Ética da Crença
org. de Desidério Murcho
Tradução de Vítor Guerreiro
Lisboa: Bizâncio, Setembro de 2010, 208 pp.

A religião pode ser estudada de diferentes pontos de vista. Podemos estudar os seus aspectos psicológicos, históricos, sociológicos ou políticos. Mas também podemos estudar os problemas filosóficos que suscita. Esta pequena antologia oferece uma amostra de uma área da filosofia da religião conhecida por “epistemologia da fé”. Nesta, estuda-se aspectos epistemológicos da crença religiosa, ou fé. Difere, por isso, de outras áreas da filosofia da religião, nomeadamente a área metafísica central, que trata da discussão dos argumentos a favor e contra a existência de Deus.

Muitos crentes sentem que esta última discussão é algo irrelevante — pois não é em função de argumentos ou provas que têm fé. Apesar de poder haver algo de errado nesta posição (confundir o que faz alguém ter fé com a sua justificação), há também algo que aponta para um aspecto que não é estudado nessa área mais tradicional da filosofia da religião, mas sim na epistemologia da fé. Trata-se de saber se haverá justificação para ter fé sem provas, argumentos ou indícios. Sem muita reflexão, muitos descrentes responderão que não; muitos crentes responderão, talvez também sem muita reflexão, que sim. Que razões haverá para cada uma destas posições? É esse o tema deste livro.

W. K. Clifford (1845-1879) defende a primeira posição, a que se chama indiciarista: é epistémica ou racionalmente ilegítimo acreditar em algo se não tivermos provas ou indícios a favor disso. William James (1842-1910) e Alvin Plantinga (n. 1932) defendem versões diferentes da segunda posição. Na introdução, Desidério Murcho apresenta várias distinções e ideias que dão ao leitor instrumentos que lhe permitem entrar na discussão. No final do volume, apresenta-se também um conjunto de leituras recomendadas.

De máximo interesse para professores e para estudantes de Filosofia, e também de Religião, este livro é de leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em reflectir cuidadosamente sobre a crença religiosa.

Viver para quê?

Excerto

Ninguém que sustente uma crença forte sobre um dos lados de uma questão, ou mesmo deseje sustentar uma crença sobre um desses lados, pode investigá-la com a mesma imparcialidade e meticulosidade que teria se realmente duvidasse e fosse isento; pelo que a existência de uma crença que não é sustentada por uma investigação imparcial torna um homem inapto para a realização deste dever necessário.

Tão-pouco é uma crença aquilo que não influencia de modo algum as acções de quem o sustenta. Quem verdadeiramente acredita naquilo que o encoraja a realizar uma acção contemplou já a acção com um desejo intenso, já a realizou no seu coração. Se uma crença não se realiza imediatamente em acções inequívocas, é reservada para orientação no futuro. Passa a fazer parte daquele agregado de crenças que é o elo entre a sensação e a acção em cada momento de todas as nossas vidas, e que está de tal maneira organizado e compactado que nenhuma parte deste se pode isolar do resto, cada novo acrescento modificando a estrutura do todo. Nenhuma crença genuína, por mais superficial e fragmentária, é, em circunstância alguma, realmente insignificante; prepara-nos para receber mais crenças semelhantes, confirma as crenças semelhantes anteriores, e enfraquece outras; e assim, gradualmente, estabelece um fio condutor implícito nos nossos pensamentos mais íntimos, que pode um dia manifestar-se em acções inequívocas e deixar a sua marca no nosso carácter para sempre.

Em circunstância alguma a crença de um homem é um assunto privado, que apenas diga respeito ao próprio. As nossas vidas guiam-se por essa concepção geral da ordem das coisas que a sociedade criou para fins sociais. As nossas palavras, as nossas expressões, as nossas formas, processos e modos de pensamento, são propriedade comum, modificados e aperfeiçoados de época para época; um legado que cada geração sucessiva herda como um depósito precioso e uma doação sagrada a transmitir à geração seguinte, não sem modificações, mas alargado e depurado, com algumas marcas distintas do seu engenho específico. Nisto, para o bem e para o mal, se entretece cada crença de cada homem que partilha a língua dos seus semelhantes. É um terrível privilégio e uma terrível responsabilidade, ajudarmos a criar o mundo no qual viverão as gerações do futuro.

Nos dois casos hipotéticos que temos vindo a ponderar, considerou-se incorrecto acreditar com base em indícios insuficientes, ou acalentar crenças suprimindo as dúvidas e evitando a investigação. A razão deste juízo não é difícil de ver: é que em ambos os casos a crença sustentada por um homem era de grande importância para outros homens. Mas na medida em que nenhuma crença sustentada por um homem, por muito trivial que a crença pareça e por muito obscuro que seja o crente, é na realidade insignificante ou desprovida de consequências para o destino da humanidade, não temos escolha senão alargar o nosso juízo a todos e quaisquer casos de crença. A crença, essa faculdade sagrada que impulsiona as decisões da nossa vontade e une num funcionamento harmonioso todas as energias compactas do nosso ser, pertence-nos não para nosso usufruto, mas para a humanidade. É correctamente usada em verdades que foram estabelecidas pela longa experiência e pelo trabalho persistente, que enfrentaram a luz intensa do questionamento livre e intrépido. Além disso, ajuda a unir os homens, a fortalecer e orientar a sua acção comum. Profana-se a crença ao concedê-la a afirmações improvadas e inquestionadas, para consolo e prazer privado do crente; para acrescentar um falso esplendor à estrada simples e directa da nossa vida e exibir para além dela uma miragem radiosa; ou mesmo para afogar as angústias comuns da nossa espécie através de um auto-engano que lhes permite não só deprimir-nos como rebaixar-nos. Quem desejar bem aos seus semelhantes nesta matéria guardará a pureza da sua crença com o fanatismo próprio de um zelo ciumento, para que a dada altura não recaia sobre um objecto indigno, ganhando uma mancha que jamais se poderá remover.

Não é só o líder de homens, o estadista, o filósofo, ou o poeta, que tem este dever moral perante a humanidade. Cada campónio que debita na taberna da aldeia as suas frases lentas e esporádicas pode ajudar a matar ou a manter vivas as superstições fatais que toldam o seu género. Cada diligente esposa de artesão pode transmitir aos filhos crenças que manterão a sociedade coesa ou a farão em pedaços. Nenhuma ingenuidade, nenhuma obscuridade de estatuto, podem escapar ao dever universal de questionar tudo aquilo em que acreditamos.

Índice

Prefácio
Sobre os autores

  1. Fé, Epistemologia e Virtude Desidério Murcho
  2. A Ética da Crença W. K. Clifford
  3. A Vontade de Acreditar William James
  4. Será a Crença em Deus Apropriadamente Básica? Alvin Plantinga

Glossário de termos estrangeiros
Origem dos ensaios
Índice remissivo