A Evolução de Deus
4 de Julho de 2011 ⋅ Filosofia da religião

A evolução de Deus

Robert Right
A Evolução de Deus, de Robert Right
Tradução de David G. Santos
Lisboa: Guerra e Paz, 2011, 654 pp.
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Certa vez fui denunciado do púlpito da igreja da minha mãe. Foi em 1994. O meu livro The Moral Animal tinha acabado de ser publicado, e tive a sorte de ver um excerto publicado na revista Time. O excerto incidia sobre os vários modos pelos quais a nossa natureza humana evoluída complica o projecto do casamento. Uma dessas complicações é a tentação natural e universal que temos de nos transviarmos, e foi esse o ângulo que os editores da Time escolheram para figurar na capa da revista. Ladeando uma imagem gritante de uma aliança despedaçada, puseram as palavras “Infidelidade: pode estar nos nossos genes.”

O pastor da Primeira Igreja Baptista em Santa Rosa, Califórnia, encarou este artigo como uma defesa ímpia da infidelidade, e disse-o num domingo de manhã. Depois do serviço religioso, a minha mãe foi falar com ele e disse-lhe que o seu filho era o autor do artigo. Estou disposto a apostar que — tais são as maravilhas do amor maternal — o disse com orgulho.

Como eu tinha caído em desgraça! Quando tinha cerca de nove anos, na Igreja Baptista de Immanuel, em El Paso, Texas, tinha sentido o chamamento de Deus e dirigira-me para a entrada da igreja onde um evangelista visitante chamado Homer Martinez emitia o “convite” — o apelo aos pecadores sem remissão para aceitarem Jesus como seu salvador. Poucas semanas mais tarde era baptizado pelo ministro dessa igreja. Agora, quase três décadas mais tarde, outro ministro baptista atirava-me para a vizinhança de Satanás nas profundezas.

Duvido que, se tivesse lido a minha peça na Time de forma cuidadosa, este ministro fosse tão veemente nas suas palavras (de facto, eu tinha argumentado que podemos e devemos resistir ao impulso adúltero, mesmo que seja natural). Por outro lado, houve pessoas que leram não apenas aquele excerto, mas todo o livro, e concluíram que eu era um ímpio não sei quê ou não sei que mais. Eu argumentara que as partes mais etéreas e elevadas da existência humana (o amor, o sacrifício, o próprio sentido de verdade moral) eram fruto da selecção natural. O livro parecia ser um tratado materialista completo — materialista no sentido de “materialismo científico,” como em: “A Ciência pode explicar tudo em termos materiais, portanto quem precisa de Deus? Especialmente um Deus que alegadamente, de algum modo, transcende magicamente o universo material.”

Parece-me que “materialista” não é um termo muito enganador para mim. De facto, neste livro falo sobre a história da religião, e o seu futuro, de um ponto de vista materialista. Penso que a origem e o desenvolvimento da religião podem ser explicados pela referência às coisas observáveis, concretas — a natureza humana, certos factores políticos e económicos, a mudança tecnológica, e assim por diante.

Mas não creio que uma descrição “materialista” da origem, história e futuro da religião — como a que dou aqui — exclua a possibilidade de uma cosmovisão religiosa. De facto, defendo que a história da religião apresentada neste livro, apesar de ser materialista, afirma realmente a validade de uma cosmovisão religiosa; não uma cosmovisão tradicionalmente religiosa, mas sim uma cosmovisão que é, de algum modo significativo, religiosa.

Parece um paradoxo. Por um lado, penso que os deuses apareceram como ilusões, e que a história subsequente da ideia de deus é, de algum modo, a evolução de uma ilusão. Por outro lado: 1) a história desta mesma evolução aponta para a existência de algo que se pode chamar, de um modo significativo, divindade; 2) a “ilusão,” ao longo da evolução, foi-se simplificando a um ponto que a aproximou da plausibilidade. Em ambos os sentidos, a ilusão tornou-se cada vez menos ilusória.

Isto faz sentido? Talvez não. Espero que o faça no final do livro. Por agora devo apenas conceder que o tipo de deus que permanece plausível, no final de toda esta simplificação, não é o tipo de deus que a maioria dos crentes religiosos têm em mente.

Há duas outras coisas que espero virem a fazer um novo tipo de sentido no final deste livro, e ambas correspondem a certos aspectos da situação actual do mundo.

Uma é o que algumas pessoas definem como um choque de civilizações — a tensão entre o Ocidente judaico-cristão e o mundo muçulmano, tal como se manifestou de forma visível no 11 de Setembro de 2001. Desde esse dia, as pessoas perguntam-se como é que é possível, se for, que as religiões abraâmicas do mundo se relacionem entre si de modo saudável, agora que a globalização as força cada vez mais a estabelecerem um contacto mais próximo.

Bem, mas a história está repleta de choques de civilizações. E a história do papel desempenhado pelas ideias religiosas — atiçando ou enfraquecendo as chamas, e muitas vezes alterando-se nesses processos — é instrutiva. Creio que nos pode dizer algo sobre como proceder para chegar a um final feliz no “choque” actual.

O segundo aspecto da situação mundial dos nossos dias a que me vou referir é outro tipo de choque — o muito discutido “choque” entre a ciência a e religião. Tal como o primeiro tipo de choque, também este conta com uma história longa e instrutiva. Pode ser traçada até pelo menos à antiga Babilónia, onde os eclipses (desde há muito atribuídos a seres sobrenaturais inquietos e malignos) se viram de repente compreendidos e explicados como fenómenos que ocorriam a intervalos previsíveis — suficientemente previsíveis para conduzir à pergunta sobre se o problema estaria realmente naqueles famigerados seres sobrenaturais inquietos e malignos.

Desde então, houve muitas descobertas inquietantes (de um ponto de vista religioso), mas alguma noção do divino sempre sobreviveu ao confronto com a ciência. A noção teve de se alterar, mas isso não é uma acusação à religião. Seja como for, também a ciência sofreu alterações, revendo e mesmo abolindo teorias anteriores, e nenhum de nós pensa nisso como uma acusação contra a ciência. Pelo contrário, encaramos esta adaptação constante como uma cada vez maior aproximação da ciência à verdade. Talvez o mesmo se passe com a religião. Talvez, no fim das contas, uma descrição impiedosamente científica da nossa situação — como a descrição que me levou a ser denunciado do alto do púlpito da igreja da minha mãe — seja na realidade compatível com uma cosmovisão verdadeiramente religiosa, e seja parte do processo que refina a cosmovisão religiosa, aproximando-a da verdade.

Essas duas questões de “choque” podem ser traduzidas numa única pergunta: podem as religiões no mundo moderno reconciliar-se entre si, e podem elas reconciliar-se com a ciência? Penso que a sua história aponta para respostas afirmativas.

Como seriam as religiões depois de uma tal adaptação? Esta questão é surpreendentemente fácil de responder, pelo menos em linhas gerais. Em primeiro lugar, teriam de se voltar para os desafios ao bem-estar psicológico humano que são impostos pelo mundo moderno (de outro modo, não teriam qualquer aceitação).Em segundo lugar, teriam de destacar algum “propósito maior” — algum tipo de ponto ou padrão maior que poderíamos utilizar para orientar as nossas vidas diárias, reconhecer o bem e o mal, e tornar compreensíveis a alegria e o sofrimento (de outro modo, não seriam religiões, pelo menos no sentido em que utilizo a palavra “religião”).

Agora vamos às questões realmente difíceis. Como poderão as religiões atingir esses objectivos? (Presumindo que o farão; e, se o não fizerem, todos nós — crentes, agnósticos, ateus — poderemos estar em maus lençóis.) Como se adaptarão as religiões à ciência e entre si? Como deverá ser uma religião numa era de ciência avançada e globalização? A que tipo de propósito deve apontar, que tipo de orientação deve fornecer? Existe alguma cosmovisão intelectualmente honesta que se possa verdadeiramente qualificar como religiosa e que possa, no caos do mundo actual, fornecer orientação pessoal e conforto — e talvez mesmo tornar o mundo menos caótico? Não posso afirmar que detenho as respostas para estas questões, mas algumas pistas claras emergem de modo natural no decurso da narração da história de Deus. Por isso, cá vamos nós.

Robert Right

Índice

Prefácio do tradutor
Introdução

Primeira Parte
Nascimento e Crescimento dos Deuses

  1. A fé primordial
  2. O xamã
  3. A religião na era das chefaturas
  4. Os deuses dos antigos estados

Segunda Parte
A Emergência do Monoteísmo Abraâmico

  1. Politeísmo, a religião da antiga israel
  2. Do politeísmo à monolatria
  3. Da monolatria ao monoteísmo
  4. A história de Fílon
  5. Logos: o algoritmo divino

Terceira Parte
A Invenção da Cristandade

  1. O que fez Jesus?
  2. O apóstolo do amor
  3. A sobrevivência do cristianismo mais adaptado
  4. Como Jesus se tornou o salvador

Quarta Parte
O Triunfo do Islão

  1. O Alcorão
  2. Meca
  3. Medina
  4. Jihad
  5. Maomé

Quinta Parte
Deus Globaliza-se (ou Não)

  1. A imaginação moral
  2. Então, não somos especiais?

Posfácio: Já agora, o que é Deus?
Apêndice: Como gerou a natureza humana a religião?
Um apontamento sobre as traduções
Agradecimentos
Bibliografia
Índice remissivo

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