Evolution
23 de Fevereiro de 2012 ⋅ Livros

Do génesis ao apocalipse

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto
Evolution, de Stephen Baxter
Nova Iorque: Del Rey, 2003, 656 pp.
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Apesar de se tratar de um livro de ficção científica, podemos e devemos ler Evolution como um maravilhoso livro de divulgação científica — claramente na linha, aliás, do magnífico Os Dragões do Éden, do malogrado Carl Sagan. A ambição é imensa: apresentar toda a história da vida na Terra, com especial ênfase nos seres humanos. Mas Baxter acaba por ir mais longe ainda, e apresenta a história do próprio planeta Terra — da sua origem à sua extinção.

A compreensão profunda que Baxter tem das ciências relevantes — biologia evolucionista, geotectónica, climatologia, astronomia — tornam este livro uma leitura extraordinariamente informativa, ao mesmo tempo que constitui uma ficção emocionante. Aliás, os recursos a que Baxter deitou mão, como ficcionista, para resolver o imenso quebra-cabeças de desenvolver a narrativa das origens mais remotas dos seres humanos aos seus futuros mais distantes revela um autor na plena posse da tão curiosamente humana arte de contar histórias.

O livro começa no futuro não muito distante, em 2031. O mundo está mergulhado em crises políticas e ecológicas, por vezes misturadas: o terrorismo de motivação ecológica, que terá resultados desastrosos, mas também o desequilíbrio ecológico profundo, a que se seguirá mais tarde a erupção gigantesca e trágica do vulcão de Rabaul. Este prólogo situa o leitor em algo mais próximo e com o qual se pode relacionar. Mas logo entramos na primeira das três partes em que se dividem os dezanove capítulos do livro, parte esta dedicada aos nossos antecessores. E é aqui que começa a surpresa narrativa.

Baxter guia-nos pelo mundo de há cerca de 65 milhões de anos, pouco antes de um cometa ter acabado com o domínio dos dinossauros, senhores da Terra durante eternidades. Purga é um pequeno mamífero fêmea, que será a progenitora de outros mamíferos que por sua vez, ao longo de uma cadeia de milhões de anos, vem dar aos seres humanos. É a nossa avó mais distante. E é ao guiar-nos pelas vicissitudes imaginadas desse pequeno mamífero que Baxter nos revela o seu poder de ficcionista e o seu domínio das ciências relevantes: não só se lê estes capítulos com a emoção da descoberta dos aspectos científicos mais fascinantes sobre a nossa natureza biológica e o planeta que é a nossa casa, como as aventuras da pequena Purga nos parecem tão reais quanto as dos animais que são retratados nas melhores séries televisivas de divulgação científica, dedicados à vida selvagem.

Dada a imensidão temporal abrangida pelo romance, não poderemos acompanhar uma só personagem, nem um grupo de personagens intimamente relacionadas espacial e temporalmente, ao longo do livro. Ao invés, diferentes personagens irão surgir em diferentes capítulos do livro, sendo cada um deles dedicado a um corte temporal significativo. Se insistirmos em ver ao longo dos vários capítulos uma só personagem, essa personagem será a própria evolução — que certamente se torna vívida neste livro; mais vívida, real e relevante do que aconteceria se o livro fosse apenas ficção ou apenas divulgação científica.

Como se não bastasse a imensidão temporal abrangida pela história da vida dos nossos antecessores e sucessores biológicos, Baxter vai ainda mais longe e acaba por contar a história da própria Terra, da sua formação à sua destruição. Efectivamente, depois de nos apresentar as aventuras da pequena Purga, Baxter recua no tempo para nos falar da formação do planeta Terra, com o pretexto de nos explicar a origem do cometa que irá pôr fim ao domínio dos dinossauros; e fala-nos também longamente do domínio dos dinossauros e da ficcional espécie inteligente a que deram origem, mas que se extinguiu sem deixar rasto. E no final do livro assistimos à destruição da vida na Terra, devido ao fim do Sol.

Ao longo dos oito capítulos que constituem a primeira parte do livro assistimos às aventuras dos nossos antecessores biológicos, misturando o autor habilmente ciência com ficção baseada na ciência. As escalas temporais são importantes e o autor não se cansa de nos relembrar delas: depois da extinção dos dinossauros, por exemplo, os mamíferos continuaram, durante milhões de anos, a viver como se aqueles ainda existissem, não apresentando inovações biológicas assinaláveis. Isto significa que durante milhões de anos os imensos predadores que eram os dinossauros não foram substituídos pelos predadores mamíferos que surgirão mais tarde. O papel do acaso na geração das formas biológicas é imenso, e Baxter não deixa de o tornar vívido. Depois de ler este livro dificilmente alguém que o tenha compreendido cabalmente pode continuar a cometer o erro de pensar que a evolução biológica no planeta Terra tem uma direcção (que invariável e paroquialmente seríamos nós).

A segunda parte do livro conta também com oito capítulos e narra a história dos hominídeos, até à tragédia prenunciada no prólogo, ocorrida pouco depois dos anos 30 do séc. XXI. Nesta parte assistimos à lenta ascensão da consciência e da inteligência sofisticada humana, à sociabilidade complexa, à emergência dos rituais e das religiões, mas também à conquista progressiva do planeta, com viajantes corajosos que levam a humanidade a povoar todos os cantos da Terra. A expansão humana tem custos ecológicos profundos, dado que os seres humanos são predadores — mesmo quando se dedicam à agricultura e à pastorícia, as modificações genéticas e outras introduzidas pelos seres humanos têm um impacto ambiental por vezes catastrófico. É importante que Baxter sublinhe este aspecto da nossa natureza, pois o discurso do activismo ecológico contemporâneo é infelizmente para-religioso, baseando-se no ideal de um equilíbrio pré-científico e pré-tecnológico com a natureza que não passa de fantasia baseada em ignorância. A mensagem sensata de Baxter é que a nossa única alternativa é a ciência e a tecnologia, cuidadosamente pensadas e concebidas, e não o regresso a um inexistente equilíbrio com a natureza.

A terceira parte, dedicada aos nossos descendentes biológicos, conta apenas com três capítulos. Para narrar o futuro pós-humano, em que os seres humanos deram lugar a outras espécies biológicas, Baxter recorre a uma engenhosa estratégia narrativa em que quatro seres humanos como nós acordam da sua hibernação artificial, depois de um acidente militar ocorrido na guerra de meados do séc. XXI. Incapazes de determinar quanto tempo passou desde que hibernaram, estes seres humanos dão consigo num mundo em que a civilização e os próprios seres humanos há muito desapareceram. A imagem não muito generosa que Baxter pinta daqueles sobreviventes — em que a tolice e a frivolidade continuam a contar mais do que quase tudo — dá o tom pessimista ao livro, e torna gritante a sua mensagem: mesmo usando a nossa melhor inteligência para construir um futuro melhor, não sabemos se seremos bem-sucedidos; mas se nem sequer o tentamos porque estamos demasiado ocupados em frivolidades irracionais, então a nossa extinção como espécie biológica é quase uma certeza matemática.

Os capítulos finais descrevem o destino do próprio planeta Terra. A deriva dos continentes levará à formação de um novo supercontinente como outrora foi Pangeia, no qual a vida se tornará cada vez mais difícil, até a Terra ficar um planeta ressequido e morto, como Marte é hoje em dia.

Este é um livro para ler e reler. A imaginação incrível do autor, aliada aos seus conhecimentos científicos profundos, faz de Evolução uma especulação inteligente e assombrosa. Saímos da sua leitura menos provincianos. Aprendemos a apreciar melhor a fragilidade deste planeta em que nos encontramos, assim como as suas diferentes formas de vida, inevitavelmente entrelaçadas e interdependentes. E, sobretudo, vemos mais nitidamente o lugar real que ocupamos no esquema geral das coisas.

Desidério Murcho
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