1 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Exames e avaliação

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

As políticas e atitudes dos actuais responsáveis do Ministério da Educação (ME) rebentaram com um singular argumento que há uns anos se ouvia nas escolas contra os exames nacionais: que os exames serviam para avaliar os professores. O argumento sugeria que os professores não deviam ser avaliados. As políticas do actual ME tornaram os professores milagrosamente favoráveis à sua avaliação — mas "não a esta". Na verdade, só há boas razões para avaliar os professores caso se mostre que tal avaliação tem uma influência causal benéfica e razoavelmente directa na qualidade do ensino; caso contrário, é mais uma mentira política.

A maneira mais simples e eficaz de avaliar os professores de um modo que tenha eficácia causal na qualidade do ensino é através de exames nacionais. Contudo, a prestação dos estudantes em exames nacionais depende de vários factores, alguns dos quais alheios aos professores. Por exemplo, se os exames não tiverem consequências sérias na carreira escolar do estudante, a sua prestação será pior porque não se prepara. Por outro lado, o ME sabe que se fizer exames rigorosos e com consequências sérias, aumentam os temidos índices de abandono e insucesso escolar. Este problema nunca pode ser adequadamente resolvido, mas pode-se ir na direcção correcta caso se permita que o aluno transite de ano independentemente das classificações nos exames, ao mesmo tempo que fica obrigado a aulas especiais de recuperação se tiver classificações inferiores ao desejável.

Outro factor alheio aos professores é a origem do estudante. Os estudantes oriundos de famílias que prezam a escola têm prestações melhores do que os outros. Claro que o dever profissional do professor é encontrar estratégias que motivem os estudantes mais desmotivados e que os façam passar a valorizar a escola. Um professor que só sabe ensinar quem já vem motivado de casa para estudar é um mau profissional. Estatisticamente, contudo, os resultados dos exames nacionais permitem saber com razoável rigor se um professor é melhor ou pior, porque se pode cruzar dados. Assim, se um mesmo grupo de alunos tem boas classificações em exames nacionais de uma disciplina, mas más classificações nos exames de outra, algo poderá estar errado com os métodos desse professor; se além disso outros grupos análogos de estudantes da mesma escola ou de escolas vizinhas têm boas notas na disciplina desse professor, quase de certeza que esse professor está a trabalhar mal. Comparando os desvios estatísticos não é difícil ver se as classificações dos alunos, boas ou más, se devem ao trabalho do professor. E não seria difícil pôr os professores com bons desvios estatísticos a dar formação aos outros.

Nem exames nem avaliação de professores podem garantir a qualidade do ensino. Esta depende da vontade genuína dos professores, sem a qual será sempre possível furar o sistema. Mas algumas medidas na direcção certa poderão ter impacto causal relevante na qualidade do ensino.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (10 de Fevereiro de 2009)
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