Talent is Overrated The Talent Code Outliers
13 de Novembro de 2010 ⋅ Opinião

Em busca da excelência

Algis Valiunas
Tradução de Desidério Murcho

Três livros recentes, O Talento não é Tudo, de Geoff Colvin, O Código do Talento, de Daniel Coyle (cf. edição brasileira), e Outliers (cf. edição brasileira), de Malcolm Gladwell, examinam casos de realizações extraordinárias — literárias, musicais, empresariais, desportivas — através dos tempos, à luz das descobertas recentes da psicologia e da neurologia. Todos concordam, apesar de algumas diferenças ideológicas óbvias, que o trabalho duro, a chamada prática deliberada ou profunda, extremamente intensa e a que nos entregamos ao longo de muitos anos, fazem a diferença entre o notável e o menos bem conseguido. A genialidade inata, a que comummente se atribui o sucesso, é de facto tão rara que nem sequer entra nas estatísticas. Mesmo Mozart, um prodígio lendário que começou a compor aos cinco anos, objecto quase desde a infância do ensino rigoroso do seu pai, praticamente o melhor professor de música que se poderia ter, não conseguiu produzir trabalhos de mestria até chegar aos vinte anos. O adolescente Benjamin Franklin, diz-nos Colvin, seguiu um programa para melhorar a sua escrita que envolvia pôr nas suas palavras, frase por frase, ensaios da revista The Spectator dos destacados jornalistas ingleses Addison e Steele, chegando até a reescrever os seus ensaios em verso, para expandir o seu vocabulário. Quando os Beatles estavam a começar, escreve Malcom Gladwell, tocavam em clubes de strip em Hamburgo cerca de oito horas por noite, sete dias por semana; quando, de um dia para o outro, chegaram ao sucesso, tinham já qualquer coisa como 1200 actuações ao vivo, mais do que a maior parte das bandas tocam ao longo da totalidade das suas carreiras.

Um mínimo de dez mil horas de treino, habitualmente conseguidas ao longo de pelo menos dez anos, afirmam os especialistas, é necessário para atingir a proficiência numa tarefa complexa. Contudo, a compreensão há muito aceite do funcionamento do cérebro, dando apenas atenção aos neurónios e às sinapses, não podia explicar a razão de ser deste fenómeno. Recentemente, contudo, os neurocientistas começaram a reconhecer a importância de uma substância gorda e espessa, chamada mielina, ou matéria branca. Daniel Coyle cita um professor de neurologia da UCLA que declara ser a mielina nada menos do que “a chave para falar, ler, aprender competências, ser humano.”

Isto é um exagero estranho — a mielina dificilmente é a chave do que é “ser humano,” dado que há outros animais que também têm matéria branca. Mas é verdade que esta desempenha um papel crucial no funcionamento dos nossos cérebros. Os nossos “circuitos” neuronais exigem a produção de mielina para regular o seu funcionamento; a substância torna os seus sinais mais fortes e rápidos e ajuda a posicioná-los com precisão. E é o trabalho empenhado que melhor estimula a produção de mielina. Quanto mais diligentemente se pratica uma actividade particular, mais mielina se enrola em torno das fibras nervosas activas. Cada pedaço de mielina envolve a fibra em camadas sucessivas, chegando a atingir cinquenta camadas. O processo é tão esmerado e demorado que um cientista do Instituto Nacional de Saúde compara a cobertura com mielina de um só circuito neuronal com o isolamento de um cabo transatlântico. Na verdade, a mielina fortifica e acelera os impulsos nervosos, aproximadamente como o isolamento com borracha o faz com as transmissões ao longo de um cabo de cobre.

A repetição deliberada faz crescer a mielina e aprofunda por isso a competência particular que estamos a trabalhar, seja ela “jogar baseball ou tocar Schubert,” como escreve Coyle. Fala-se habitualmente de treinar a memória como quem treina um músculo quando se descreve uma competência física aprimorada como o fio de um sabre bem afiado, mas esta evocação é enganadora: o lugar do movimento aperfeiçoado não é tanto o cultivo dos nossos músculos mas antes das trajectórias neuronais.

“É tempo de reescrever a máxima de que a prática faz a perfeição,” escreve Coyle. “A verdade é que a prática faz a mielina que faz a perfeição.” Mas é um tipo particular de prática — prática profunda — que é ideal para fazer mielina. A prática profunda leva-nos aos próprios limites das nossas capacidades: é aqui que falhamos, e falhamos repetidamente, antes de sermos bem-sucedidos. Tal como ganhamos força física aumentando o peso que levantamos até chegar aos nossos limites, também ao executar vezes e vezes sem conta as competências que mal conseguimos executar bem treinamos os nossos circuitos neuronais na direcção da competência, ou mesmo da excelência. (Podemos também, contudo, treinar os circuitos para nos tornarmos incompetentes, de modo que se cairmos em maus hábitos, será necessário, para os corrigir, cobrir de mielina circuitos novos.)

A prática profunda implica a concentração muito para lá da mera repetição decorada: os melhores do mundo em muitas actividades exigentes — música, xadrez, escrita, desporto — dedicam três a cinco horas por dia à sua prática, e basta uma a duas horas diárias de prática profunda, geralmente, para ficarmos exaustos. O perito, cujas competências se automatizaram ao longo de pelo menos dez anos de prática profunda regular, pode ganhar mais com uma hora de concentração intensa do que o neófito ou o medíocre com um longo dia de esforços desregrados. Mas mesmo o mestre tem de praticar continuamente para preservar a sua mestria. Como todo o tecido vivo, a mielina deteriora-se e regenera-se continuamente; o trabalho diário assegura que a regeneração leva a melhor. Depois dos cinquenta anos, tendemos a perder mais mielina do que a que obtemos, de modo que manter a que já temos se torna cada vez mais difícil à medida que envelhecemos. Vladimir Horowitz, que continuou a fazer maravilhas ao piano até aos oitenta anos, disse que se não praticasse um só dia, notava-o logo; se não praticasse dois dias, a sua mulher notava-o; e se não praticasse três dias, o mundo inteiro o notava.

A neurociência da mielina tem uma lição subjacente: temos de trabalhar duramente para ganharmos o que temos e para o mantermos. Esta lição é adequada a uma nova era genuinamente democrática, pondo de pernas para o ar uma crença há muito acarinhada de que o talento inato determina o sucesso mais do que qualquer outro factor. Essa crença na ascensão sem esforço da genialidade imerecida e na sedimentação nos fundos das multidões desafortunadas é o vestígio democrático do princípio definidor de uma sociedade aristocrática: o berço determina o nosso lugar na vida, a sorte genética conduz-nos ao topo — sendo um dom inexplicável para falar ou escrever ou cantar ou correr muito depressa ou saltar prodigiosamente alto o equivalente moderno do sangue dos Habsburgos. Tal mundividência tem consequências danosas. Acreditar que a sorte é mais importante do que a firmeza e o empenho na determinação do curso da nossa vida é entregar o valor da escolha moral a uma qualquer fatalidade inescrutável. Com esta demasiado familiar desobrigação, é tentador sentir ressentimento perante os triunfos alheios, pois há sempre alguém com mais sucesso do que nós, mas que evidentemente não o merece mais. Muitos resignam-se e aceitam a sua posição mas com muita amargura, outros dão vazão à sua cólera perante a injustiça do sistema — político, económico ou cósmico. Estes são os inevitáveis efeitos destruidores que sofre quem vive numa meritocracia, na qual o mérito parece dispensado, num grau inquietante alto, por mera sorte.

A nova verdade que se supõe que agora aceitemos é libertadora e ao mesmo tempo faz pensar: raramente a capacidade inata, só por si, assegura um caminho triunfante na vida; quem está disposto a investir em anos de empenho é que conhece não apenas a doçura do prémio final mas também o prazer incomparável da dedicação a um chamamento. Isto é estimulante, e ficamos satisfeitos por ter origem nos últimos desenvolvimentos científicos. Mas o senso comum diz-nos que não pode constituir toda a verdade. Pois todos somos criaturas, e não seres que se criaram a si mesmos. A beleza, tamanho, força, saúde, energia, disposição, inteligência verbal ou espacial ou matemática ou emocional, o talento para a música, a pintura ou a oratória, não foram pura e simplesmente distribuídos igualmente por todos — e em qualquer actividade que escolhamos, nem mesmo a devoção tenaz, o treino especializado e a dieta integral pode assegurar que no fim todos ficaremos iguais. As desigualdades naturais farão sempre diferenças entre duas pessoas, e estas diferenças serão sempre causa de infelicidade.

Contudo, a teoria da mielina deveria de algum modo dourar a pílula dessa infelicidade. No coração da teoria está a confiança de que todas as pessoas com capacidades normais podem ultrapassar, com a ajuda de ensino de excelência e à força de perseverança, limites ao que poderá conseguir e que antes pareciam inamovíveis. Isto não significa que, como na velha piada, toda a gente estará acima da média. Mas significa que a média poderá subir e que todas as pessoas dispostas a esforçar-se conseguirão realizar mais plenamente o seu potencial, ainda que não necessariamente os seus sonhos. E deverá ser mais fácil reconciliarmo-nos com a distância entre os nossos sonhos e o que alcançámos: ao responsabilizarmo-nos mais pelas nossas falhas é mais provável que aceitemos mais prontamente o que a natureza nos concedeu, pois poderemos também ter mais orgulho no que alcançámos do que teríamos se isso parecesse imerecido.

Mas para que a sociedade da mielina não reforce os actuais ressentimentos, em vez de os aliviar, é preciso que toda a gente tenha realmente a hipótese de florescer. Uma educação de primeira categoria para todos será uma necessidade moral, mais do que nunca. Hoje tolera-se uma disparidade tão brutal entre as nossas melhores escolas e as piores em grande medida porque desistimos de uma porção enorme da população, considerando-a demasiado burra para aprender. Sob uma avalanche de desculpas cínicas para o fracasso educativo repousa o pressuposto tácito — que nos ficou das fantasias eugénicas de luminárias morais como Margaret Sanger, Walter Lippmann e Juiz Oliver Wendell Holmes — segundo o qual gerações de consanguinidade entre os mais pobres dos pobres produziram uma classe de desfavorecidos que nunca terão aquilo de que precisariam para sair da miséria. O capítulo mais tocante de Coyle descreve como o incrível sucesso do Programa Conhecimento é Poder, ou KIPP (do inglês Knowledge Is Power Program), fundado em 1993 por dois jovens professores frustrados, Michael Feinberg e David Levin, nas escolas mais pobres de Houston, provou que as ideias deste género estão erradas. Em 2008 havia já sessenta e seis escolas KIPP em todo o território dos EUA, com 16 mil estudantes. KIPP pega em crianças que parecem fadadas à mediocridade ou ao fracasso — que têm pouca ou nenhuma esperança de sair dos bairros degradados — e transforma-os em estudiosos exemplares com futuros risonhos.

A severidade generosa e uma disciplina rígida carinhosa produz maravilhas. A escola começa às 7:30 da manhã e acaba às 5 da tarde, com aulas complementares de duas em duas semanas, ao sábado. A escola KIPP é o que Coyle chama

“um bastião da prática profunda. [Os professores] recordam constantemente aos alunos do KIPP que os seus cérebros são como músculos: quanto mais os trabalharem, tanto mais espertos ficam — e há muito trabalho a fazer. Duas horas diárias de trabalhos de casa é comum; as folhas de tarefas são às centenas; o dia é preenchido com horas de trabalho intenso em silêncio.”

O KIPP opera sob o princípio — reforçado pelas descobertas da investigação de Martin Seligman — de que a autodisciplina é mais importante do que o QI na determinação do desempenho académico. Há instruções estritas sobre tudo o que se possa imaginar: quão alto falar, como ficar na cadeira enquanto se escuta, como transportar o caderno, quanto papel higiénico usar. Faz-se os estudantes compreender que podem singrar com confiança no mundo para lá da escola. “A escola é o spiritus sancti invocado centenas de vezes por dia, não tanto como um lugar mas antes como um ideal radioso.” Desde os graus menores da escola primária, os estudantes do KIPP visitam universidades, onde ex-alunos KIPP oferecem conselhos e inspiração. 80% dos estudantes do KIPP vão para a universidade. Pelo caminho, aprendem a ser rapazes e raparigas com cortesia e delicadeza. Coyle vê no sucesso do KIPP a teoria da mielina em acção:

“Habitualmente, pensamos no carácter como uma coisa profunda e inalterável, uma qualidade inata que extravasa, mostrando-se no comportamento. O KIPP mostra que o carácter poderá ser mais como uma competência — posta em marcha por certos sinais, e aprimorada por meio da prática profunda.

Visto deste modo, o KIPP repousa sobre o fundamento da mielina. Sempre que um estudante do KIPP se imagina na universidade, cria uma fonte de energia [...] Sempre que um estudante do KIPP se obriga a obedecer a uma destas regras picuinhas, dispara um circuito que é coberto de mielina e reforçado. (O controlo de impulsos, afinal, é um circuito como qualquer outro.) Sempre que a escola toda pára para resolver um problema de mau comportamento, constrói-se competências.”

O KIPP é bem-sucedido porque incorpora a verdade do comportamentalismo — o ambiente forma o carácter — com a verdade da psicologia cognitiva — os hábitos mentais dão forma à emoção e à acção. Os elementos comportamentalistas por vezes severos são essenciais porque os efeitos nocivos de ser criado nos bairros degradados têm de ser ultrapassados. Os elementos cognitivos são indispensáveis porque as escolas não estão a produzir autómatos mas a preparar jovens para vidas que têm desafios e que irão exigir escolhas ponderadas, decência e escrúpulo. Esta passagem de Coyle, plena de esperança de melhoria social ao ritmo de uma criança de cada vez, aponta para uma necessidade a que os livros de auto-ajuda nem chegam perto de responder.

Na ausência de algo melhor, os recentes livros sobre o sucesso são interessantes, mas seria desejável uma introdução moderna ao sucesso no que respeita à finalidade mais valiosa: um carácter nobre. Allan Bloom costumava gostar de dizer que nós temos vida, liberdade e a procura da felicidade, ao passo que os gregos tinham morte, escravatura e felicidade. Na Ética Nicomaqueia, Aristóteles escreveu que a felicidade, a finalidade para a qual o homem foi feito, é uma actividade de acordo com a virtude ou excelência — uma actividade, e não um sentir, como muito do que passa por sabedoria hoje em dia afirma. Uma vida de virtude moral exigia esforço contínuo, e Aristóteles sabia que o homem moralmente virtuoso tentava ser melhor do que os seus rivais, em coragem e controlo de si, generosidade e magnificência, justiça e grandeza de alma, como se estivessem a competir nos Jogos Olímpicos. Os homens democráticos modernos, por seu lado, declarou famosamente Tocqueville, tendem a cultivar intensamente a rivalidade mas a ter fracas ambições. Até o precioso Daniel Coyle se baseia demasiado em exemplos inspiradores do mundo dos desportos para promover a procura da excelência. Mas ganhar jogos fica a uma distância imensa da grandeza moral; há atletas, é claro — na verdade, gente de grandes feitos em qualquer área — cujas vidas são triviais ou desbragadas ou monstruosas. Aristóteles usava os Jogos Olímpicos como uma analogia de propósitos elevados, e não como uma instância suprema deles. Reviver o antigo espírito da competitividade com respeito às coisas elevadas seria um propósito de valor para os livros de aconselhamento mundano. Para já, contudo, mesmo que os melhores inspectores da sabedoria funcional nos oferecem menos do que na realidade precisamos. Quanto aos outros, há um mar imenso de avareza extravagante, ou de insanidade diáfana ou de tédio simplista. É de recear o futuro de uma nação mergulhada nestas baboseiras. Faz-nos falta um filósofo prático democrático que nos salve de nos afogarmos nelas.

Algis Valiunas

Publicado originalmente em The New Atlantis (Verão de 2010)
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