Filosofia e exegese

Desidério Murcho

Uma das características que distingue a forma analítica de fazer filosofia da forma continental, sobretudo portuguesa, baseia-se na diferente posição tomada em relação à exegese filosófica. Ao passo que para os continentais a exegese filosófica não se distingue da simples paráfrase, os analíticos distinguem esta da formulação, identificando com esta última o sentido da expressão “exegese filosófica” mas não com a primeira.

A distinção entre a paráfrase e a formulação pode ser facilmente captada se tivermos em conta que alguém que nada perceba de medicina ou música pode no entanto parafrasear eficientemente um texto de medicina ou música do século XVI, bastando para tal conhecer a língua em que tal texto foi escrito, ao passo que para formular o conteúdo de um texto de medicina ou música do século XVI já é necessário saber medicina ou música, consoante o caso.

Compreende-se assim por que razão outra das características que distinguem a maneira analítica de fazer filosofia da maneira continental consiste na hierarquia conceptual dada à exegese filosófica: para um filósofo analítico só é possível fazer exegese filosófica depois de já se saber filosofia, ao passo que os continentais defendem que só se aprende filosofia a fazer exegese, o que aos olhos dos analíticos é tão absurdo como defender que só se aprende medicina ou música lendo os textos clássicos da medicina ou da música.

Para um filósofo analítico a expressão “exegese filosófica” significa “formulação” e não “paráfrase”, pois não podem existir “paráfrases filosóficas”, uma vez que a filosofia pressupõe uma compreensão crítica e a paráfrase não só pressupõe apenas a capacidade mentecapta da mimese, como exclui a compreensão crítica. Esta divisão, entre analíticos e continentais, quanto ao significado da expressão “exegese filosófica” é a causa última do tipo de ensino da filosofia praticado em Portugal, e que aos olhos dos analíticos não passa de uma caricatura do verdadeiro ensino da filosofia. Nos liceus e nas faculdades, os alunos de filosofia são lançados, sem preparação, para os textos clássicos da filosofia (numa atitude que a um analítico parece autêntico terrorismo intelectual), sendo-lhes exigido em troca um conjunto mais ou menos bacoco de paráfrases em que os mais disparatados erros, as mais gritantes ambiguidades e imprecisões e a mais evidente incompreensão dos problemas, argumentos e teorias que os filósofos discutiram ao longo dos tempos são sinais infelizes de um tipo de ensino que não tem capacidade para formar pessoas que sabem, sobretudo, pensar, mas antes pessoas que sabem, sobretudo, repetir.

A formulação dos problemas, teorias e argumentos da filosofia permite ao aluno perceber os problemas, teorias e argumentos da filosofia, ao passo que a sua paráfrase não lhe permite senão a repetição mecânica das palavras dos filósofos. É por este motivo que a avaliação dos alunos de filosofia, sobretudo no liceu, é um problema sempre latente em Portugal. Uma vez que não são transmitidos aos alunos conteúdos cuja formulação, consoante for mais ou menos precisa, seja possível avaliar de forma justa, mas antes conjuntos de frases que os alunos devem repetir de forma mais ou menos vaga, o professor nunca sabe se está perante um aluno com uma excepcional verve filosófica, se perante alguém que nada percebeu, acabando todos por ser avaliados em função de critérios extrafilosóficos como a qualidade do português, a quantidade de autores referidos por cada frase e a capacidade para citar a bibliografia de forma competente.

O filósofo analítico, por outro lado, sabe exactamente o que está a avaliar, tal como um professor de música ou de medicina. Existem conteúdos filosóficos precisos cuja maior ou menor compreensão, tal como é revelada pela sua formulação escrita e oral, pode ser avaliada de forma justa. Tal como um professor de medicina avalia até que ponto um aluno compreendeu o processo digestivo dos seres humanos e tal como um professor de música avalia até que ponto um aluno compreendeu o conceito de intervalo musical, também o professor de filosofia analítica avalia até que ponto um aluno compreendeu a teoria da referência de Kripke ou os argumentos cépticos da primeira Meditação de Descartes — o que é independente de concordar ou não com qualquer deles.

O que diferencia a filosofia analítica da continental é antes de mais esta diferente atitude em relação aos textos dos filósofos — e não o tipo de temas abordados. Isto é particularmente claro quando um continental aborda a lógica e quando um analítico aborda o problema do sentido da vida. De um lado vemos a costumeira incultura filosófica que se oculta em jogos de palavras de mau gosto, incompreensões básicas, atitude acrítica, paráfrase de textos e repetição de ideias vagas — apesar de um tema como a lógica ser susceptível de um tratamento cristalino, dada a sua natureza. Do outro lado, assistimos à discussão rigorosa do problema do sentido da vida, que começa desde logo pela tentativa da sua formulação clara, avançando depois para a avaliação cuidada dos argumentos que sustentam as diferentes respostas à nossa disposição — atitude compreensível porque o que se tem em vista é, se não uma resposta clara, pelo menos uma clarificação do agregado de problemas, argumentos e respostas associados ao tema; o que se tem em vista não é a produção de um conjunto mais ou menos vago de frases que poderão ser talvez espiritualmente reconfortantes (para os espíritos menos exigentes), pois consistem basicamente, não na avaliação cuidada dos nossos preconceitos, mas na sua simples enunciação de forma lexicalmente complexa mas conceptualmente pobre.

Compreende-se agora por que motivo se pode perfeitamente fazer filosofia continental a partir de textos de filósofos analíticos e a partir de problemas que, estatisticamente, são mais estudados pelos analíticos do que pelos continentais. E por que motivo se pode abordar temas, como o sentido da vida, de forma analítica (como Nagel e Nozick o fazem). O estudante incauto pode ser levado a pensar que só pelo facto de se estar a falar de Quine, Davidson ou Kripke estamos perante um exemplo de filosofia analítica — mas isso não é verdade. Tal como pode ser levado a pensar que pelo facto de se estar a discutir um tema como a distinção entre o ser e a existência ou o problema da morte se está perante um exemplo de filosofia continental — o que também não é verdade.

Outra das consequências da diferente concepção de exegese filosófica que distingue os analíticos dos continentais é a ausência conspícua de livros de introdução à filosofia, do lado continental, e a sua abundância, do lado analítico. De facto, como escrever um livro de introdução à filosofia quando a concebemos como a arte, mais ou menos delirante, da paráfrase? Se vamos explicar o conceito de frase analítica, temos de parafrasear Kant ou Quine, citando ambos os autores abundantemente; nada mais resta para fazer. Não há quaisquer conteúdos conceptuais que possam ser organizados e apresentados didacticamente, do mais simples para o mais complexo, do mais importante para o menos importante. Quando se tem um conceito continental de filosofia nada resta excepto a paráfrase. Mas isso é negar à filosofia o papel crítico que faz parte da sua própria essência, e sem o qual ela se torna um exercício oco e culturalmente pobre — e, sem dúvida, verdadeiramente redutor.

Desidério Murcho
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