The Knowledge Sponge, de Today is a good day
28 de Abril de 2009 ⋅ Opinião

A exploração do proletariado

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Por ser um discurso que passou de moda, em parte porque a força do trabalho não é hoje em dia maioritariamente classificável como proletariado, é menos comum ouvir hoje a fausse gauche falar na exploração do proletariado por parte dos temíveis capitalistas. Mas o que é fascinante é as mesmas pessoas que continuam a pensar nestes termos em silêncio pensarem ao mesmo tempo que elas mesmas, por serem intelectuais, professores, etc., devem ser pagas pelo estado. Mas o estado nada paga seja a quem for porque o estado limita-se a redistribuir riqueza. O que os intelectuais da fausse gauche realmente defendem é uma nova forma de exploração do proletariado, mas como são eles agora a ganhar com a exploração, isso já não colide com o seu sui generis sentido de justiça económica.

Vejamos: um artista, ensaísta ou professor dedica a sua vida a coisas que são desinteressantes para a maior parte das pessoas. É aliás por isso mesmo que a maior parte das pessoas não consome esses produtos. É possível ganhar a vida escrevendo romances de cordel ou de auto-ajuda palerma, porque as pessoas compram essas coisas, tal como é possível ganhar a vida dando chutos numa bola. Mas não é possível — especialmente em mercados minúsculos como o português — ganhar a vida escrevendo, por exemplo, divulgação científica, história de qualidade ou filosofia. Não é possível porque as pessoas não gostam muito desses livros — e têm todo o direito de não gostar.

É então que surge a ideia de que tais nobres actividades devem ser financiadas pelo estado, porque se trata de produzir bens públicos. Mas em que raio de sentido é que são públicos, se a maior parte das pessoas não se interessa realmente pela origem do sistema solar, pelo que aconteceu em 325 a.C. na China ou como se desenvolvem os argumentos a favor do livre-arbítrio? Ah, está bem: é um serviço público para alguns de nós — nomeadamente os intelectuais que assim podem ganhar a vida fazendo o que realmente gostam de fazer, às custas do dinheiro das pessoas que se estão nas tintas para o que fazemos.

Esta realidade é só por si fascinante, mas torna-se positivamente delirante quando é defendida pela fausse gauche, dado que nenhuma diferença fundamental há entre isto e a tal exploração do proletariado por parte dos capitalistas. Tanto num caso como no outro trata-se de sustentar minorias à custa do dinheiro que as maiorias ganharam com o seu trabalho. E ao passo que o capitalista ainda presta um serviço genuinamente público porque dá emprego aos proletários e os proletários efectivamente querem emprego, a fausse gauche nada faz que seja interessante para os proletários — pois se fosse interessante, os proletários comprariam isso em vez de carros caros, roupas da moda, TV por cabo, ligações de alta velocidade de Internet ou telemóveis caros; e se comprassem livros de história, filosofia ou ciências, se assistissem a teatros e óperas e música clássica, estas coisas seriam economicamente viáveis e não seria necessária a mentira política do interesse público.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (21 de Outubro de 2008)
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