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21 de Março de 2006   Filosofia Aberta

Um clássico moderno da estética

Linguagens da Arte
Linguagens da Arte: Uma Abordagem a uma Teoria dos Símbolos
de Nelson Goodman
Introdução de Aires Almeida
Tradução de Vítor Moura e Desidério Murcho
Lisboa: Gradiva, 2006, 288 pp.

Esta obra, originalmente publicada em 1968, tornou-se rapidamente um "clássico moderno" da estética filosófica, motivando inclusivamente o desenvolvimento exponencial que a disciplina tem conhecido desde então. Sem abandonar os seus pressupostos a-realistas e nominalistas, Nelson Goodman, aborda de forma profunda e estimulante vários problemas centrais da filosofia da arte: o problema da natureza da representação pictórica realista (recusando a teoria da arte como imitação ou mimesis), o problema mais geral da representação artística, o problema da autenticidade na arte e o papel cognitivo das artes. Abordando não apenas a pintura, a literatura e a música, mas também a dança e a arquitectura, Goodman apresenta uma perspectiva polémica das artes, que urge discutir criticamente.

Do máximo interesse para estudantes de Filosofia, Artes, Arquitectura e Literatura, esta é uma obra central da bibliografia filosófica contemporânea.

"A diferença entre arte e ciência não é a que existe entre sentimento e facto, intuição e inferência, deleite e deliberação, síntese e análise, sensação e cerebração, concreção e abstracção, paixão e acção, mediação e imediação ou verdade e beleza, mas antes uma diferença de dominância de certas características específicas de símbolos." — Nelson Goodman

Como Dewey, Goodman revoltou-se contra o dogma empirista e os dualismos kantianos que compartimentalizaram o pensamento filosófico […] Ao contrário de Dewey, Goodman fornece uma argumentação pormenorizada e incisiva, e mostrou precisamente onde os dogmas e dualismos se desfazem. — Richard Rorty, The Yale Review

Sobre o autor

Nelson Goodman (1906–1998) foi um dos mais importantes filósofos americanos do séc. XX. Conhecido sobretudo pelo seu trabalho relativo ao problema da indução (Facto, Ficção e Previsão, 1954), abordou também temas da metafísica (Modos de Fazer Mundos, 1978) e da filosofia da arte. Partindo do positivismo lógico, Goodman aceita algumas das ideias centrais deste movimento, como o nominalismo (a crença de que não há universais, como a brancura), rejeita outras (como a suposta superioridade da ciência na tarefa de conhecer o mundo) e abraça algumas das consequências mais polémicas desse movimento (o extremo anti-realismo, que declara ser tudo uma construção linguística).

Excerto

Uma tradição persistente retrata a atitude estética como uma contemplação passiva do imediatamente dado, uma apreensão directa do que é apresentado, não contaminada por qualquer conceptualização, isolada de todos os ecos do passado e de todas as ameaças e promessas do futuro, dispensada de todos os afazeres. Através de ritos de descomprometimento e desinterpretação purificadores vamos procurar uma visão do mundo prístina, imaculada. Dificilmente preciso enumerar os defeitos filosóficos e absurdos estéticos de uma perspectiva destas até alguém ir ao ponto de defender seriamente que a atitude estética apropriada perante um poema equivale a olhar fixamente para a página impressa sem a ler.

Defendi, pelo contrário, que temos de ler a pintura tão bem quanto o poema, e que a experiência estética é dinâmica e não estática. Envolve a discriminação delicada e o discernimento de relações subtis, a identificação de sistemas de símbolos e de caracteres nesses sistemas e o que estes caracteres denotam e exemplificam, interpretar obras e reorganizar o mundo em termos das obras e as obras em termos do mundo. Grande parte da nossa experiência e muitas das nossas competências são chamadas a intervir e podem ver-se transformadas pelo encontro. A “atitude” estética é agitada, inquisitiva, experimentadora — é menos atitude do que acção: criação e recriação.

O que distingue, contudo, tal actividade estética de outros comportamentos inteligentes como a percepção, a conduta corrente e a investigação científica? Uma resposta imediata é que o estético não se dirige a qualquer fim prático, não se ocupando da autodefesa ou da conquista, da aquisição de bens primários ou de luxos, da previsão e do controlo da natureza. Mas se a atitude estética repudia fins práticos, dificilmente a ausência de fins é, mesmo assim, suficiente. A atitude estética é inquisitiva, contrastando com o aquisitivo e a autoprotecção, mas nem toda a investigação que não seja prática é estética. Pensar que a ciência é em última análise motivada por fins práticos, avaliada e justificada por pontes, bombas e o controlo da natureza, é confundir ciência com tecnologia. A ciência procura o conhecimento sem atender a consequências práticas, ocupando-se da previsão enquanto teste da verdade e não enquanto guia do comportamento. A investigação desinteressada compreende simultaneamente a experiência científica e a estética.

Tenta-se muitas vezes distinguir o estético em termos de prazer imediato; mas esta ideia levanta e multiplica problemas. É evidente que a pura quantidade ou intensidade de prazer não pode ser o critério. Não é de forma alguma claro que uma imagem ou poema dá mais prazer do que uma demonstração; e algumas actividades humanas que não têm relação com estas dão suficientemente mais prazer para tornar insignificantes quaisquer diferenças em quantidade ou grau entre vários tipos de investigação. A afirmação de que o prazer estético é de uma qualidade diferente e superior é a esta hora uma escapatória demasiado transparente para ser levada a sério. A inevitável sugestão seguinte — que a experiência estética não se distingue de maneira alguma pelo prazer mas por uma emoção estética especial — pode ser deitada no cesto dos papéis das explicações do tipo das “virtudes dormitivas”.

Índice

Introdução à edição portuguesa Aires Almeida

Prefácio
Prefácio à segunda edição

Introdução

I — A realidade recriada

  1. Denotação
  2. Imitação
  3. Perspectiva
  4. Escultura
  5. Ficções
  6. Representação-como
  7. Invenção
  8. Realismo
  9. Representação pictórica e descrição

II — O som das imagens

  1. Uma diferença de domínio
  2. Uma diferença de direcção
  3. Exemplificação
  4. Amostras e etiquetas
  5. Factos e figuras
  6. Esquemas
  7. Transferência
  8. Modos da metáfora
  9. Expressão

III — Arte e autenticidade

  1. A falsificação perfeita
  2. A resposta
  3. O infalsificável
  4. A razão
  5. Uma tarefa

IV — A teoria da notação

  1. A função primária
  2. Requisitos sintácticos
  3. Composição de caracteres
  4. Conformidade
  5. Requisitos semânticos
  6. Notações
  7. Relógios e contadores
  8. Analógico e digital
  9. Tradução indutiva
  10. Diagramas, mapas e modelos

V — Partitura, esboço e guião

  1. Partitura
  2. Música
  3. Esboço
  4. Pintura
  5. Guião
  6. Projecção, sinonímia e analiticidade
  7. Artes literárias
  8. Bailado
  9. Arquitectura

VI — Arte e a compreensão

  1. Imagens e parágrafos
  2. Procurar e mostrar
  3. Acção e atitude
  4. A função do sentimento
  5. Sintomas do estético
  6. A questão do mérito
  7. Arte e a compreensão

Índice de assuntos
Índice de nomes