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7 de Abril de 2007   Filosofia Aberta

Descomplicar a filosofia

Elementos Básicos de Filosofia
Elementos Básicos de Filosofia
de Nigel Warburton
Edição revista e aumentada
Tradução de Desidério Murcho e Aires Almeida
Revisão científica de António Franco Alexandre
Gradiva, Abril de 2007, 284 pp.

Agora numa nova edição, esta é uma das mais bem-sucedidas introduções à filosofia editadas nos últimos tempos. Numa linguagem clara, precisa e despretensiosa, esta obra introduz de forma estimulante os seus leitores no mundo fascinante da filosofia. Cada capítulo aborda uma disciplina filosófica, da ética à filosofia da ciência, passando pela filosofia da religião e pela epistemologia, pela filosofia política, pela filosofia da mente e pela filosofia da arte. Questões como a natureza da própria filosofia, a existência de Deus, a vida após a morte, a liberdade de expressão, a distinção entre corpo e mente, a natureza da ciência, a definição da arte, entre outras, são aqui apresentadas de forma bastante apelativa e discutidas criticamente.

Nesta segunda edição portuguesa (quarta edição inglesa), Warburton acrescentou secções em vários capítulos, reviu outros e actualizou a lista de leituras complementares. Se alguma vez quis saber se o mundo é realmente como pensa que é, então este é o livro indicado para si.

Essencial para estudantes de filosofia, esta obra é também do máximo interesse para estudantes de direito, teologia, ciências naturais, psicologia e artes, para além de constituir uma excelente fonte de reflexão para o público em geral, pois mostra como pensar rigorosa e sistematicamente sobre temas que a todos interessam, como a eutanásia e a democracia.

Aclamação

"Elementos Básicos de Filosofia continua, com todo o mérito, a ser a mais recomendável introdução à filosofia disponível no mercado. Warburton é metódico, cuidadoso e, acima de tudo, claro. Não há melhor introdução breve à filosofia." (Stephan Law, Universidade de Londres)

"Nigel Warburton escreveu um excelente guia para a prática do pensamento filosófico." (Dave Deal, Universidade de Oxford)

"Passados dez anos e várias edições, este continua a ser o melhor livro dentro do seu género." (Don Cupitt, Universidade de Cambridge)

"Elementos Básicos de Filosofia, de Warburton, proporciona uma visão sistemática dos problemas e teorias da disciplina e, para além disso, ensina a dominar as técnicas elementares que permitem investigar esses problemas e avaliar essas teorias. Ambas as coisas são condições prévias para ler proveitosamente as grandes obras clássicas e contemporâneas." (Pedro Galvão, Público)

Excerto

O que é a filosofia? Esta é uma questão notoriamente difícil. Uma das formas mais fáceis de responder é dizer que a filosofia é aquilo que os filósofos fazem, indicando de seguida os textos de Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Russell, Wittgenstein, Sartre e de outros filósofos famosos. Contudo, é improvável que esta resposta possa ser realmente útil se o leitor está a começar agora o seu estudo da filosofia, uma vez que, nesse caso, não terá provavelmente lido nada desses autores. Mas mesmo que já tenha lido alguma coisa, pode mesmo assim ser difícil dizer o que têm em comum, se é que existe realmente uma característica relevante partilhada por todos. Outra forma de abordar a questão é indicar que a palavra “filosofia” deriva da palavra grega que significa “amor da sabedoria”. Contudo, isto é muito vago e ainda nos ajuda menos do que dizer apenas que a filosofia é aquilo que os filósofos fazem. Precisamos por isso de alguns comentários gerais sobre o que é a filosofia.

A filosofia é uma actividade: é uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A actividade dos filósofos é, tipicamente, argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam os argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas. Os filósofos também analisam e clarificam conceitos. A palavra “filosofia” é muitas vezes usada num sentido muito mais lato do que este, para referir uma perspectiva geral da vida ou para referir algumas formas de misticismo. Não irei usar a palavra neste sentido lato: o meu objectivo é lançar alguma luz sobre algumas das áreas centrais de discussão da tradição que começou com os gregos antigos e que tem prosperado no século XX, sobretudo na Europa e na América.

Que tipo de coisas discutem os filósofos desta tradição? Muitas vezes, examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente “o sentido da vida”: questões acerca da religião, do bem e do mal, da política, da natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos outros assuntos. Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra “dever”? Estas são questões filosóficas. Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas — uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas.

Desde o tempo de Sócrates que surgiram muitos filósofos importantes. Já referi alguns no primeiro parágrafo. Um livro de introdução à filosofia poderia abordar o tema historicamente, analisando as contribuições desses grandes filósofos por ordem cronológica. Mas não é isso que farei neste livro. Ao invés, abordarei o tema por tópicos: uma abordagem centrada em torno de questões filosóficas particulares e não na história. A história da filosofia é, em si mesma, um assunto fascinante e importante; muitos dos textos filosóficos clássicos são também grandes obras de literatura: os diálogos socráticos de Platão, as Meditações, de Descartes, a Investigação sobre o Entendimento Humano, de David Hume e Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche, para citar só alguns exemplos, são todas magníficos exemplos de boa prosa, sejam quais forem os padrões que usemos. Apesar de o estudo da história da filosofia ser muito importante, o meu objectivo neste livro é oferecer ao leitor instrumentos para pensar por si próprio sobre temas filosóficos, em vez de ser apenas capaz de explicar o que algumas grandes figuras do passado pensaram acerca desses temas. Esses temas não interessam apenas aos filósofos: emergem naturalmente das circunstâncias humanas; muitas pessoas que nunca abriram um livro de filosofia pensam espontaneamente nesses temas.

Qualquer estudo sério da filosofia terá de envolver uma mistura de estudos históricos e temáticos, uma vez que se não conhecermos os argumentos e os erros dos filósofos anteriores não podemos ter a esperança de contribuir substancialmente para o avanço da filosofia. Sem algum conhecimento da história, os filósofos nunca progrediriam: continuariam a fazer os mesmos erros, sem saber que já tinham sido feitos. E muitos filósofos desenvolvem as suas próprias teorias ao verem o que está errado no trabalho dos filósofos anteriores. Contudo, num pequeno livro como este, é impossível fazer justiça às complexidades da obra de filósofos individuais. As leituras complementares, sugeridas no fim de cada capítulo, ajudam a colocar num contexto histórico mais vasto os assuntos aqui discutidos.

Defende-se por vezes que não vale a pena estudar filosofia uma vez que tudo o que os filósofos fazem é discutir sofisticamente o significado das palavras; nunca parecem atingir quaisquer conclusões de qualquer importância e a sua contribuição para a sociedade é virtualmente nula. Continuam a discutir acerca dos mesmos problemas que cativaram a atenção dos gregos. Parece que a filosofia não muda nada; a filosofia deixa tudo tal e qual.

Qual é afinal a importância de estudar filosofia? Começar a questionar as bases fundamentais da nossa vida pode até ser perigoso: podemos acabar por nos sentir incapazes de fazer o que quer que seja, paralizados por fazer demasiadas perguntas. Na verdade, a caricatura do filósofo é geralmente a de alguém que é brilhante a lidar com pensamentos altamente abstractos no conforto de um sofá, numa sala de Oxford ou Cambridge, mas incapaz de lidar com as coisas práticas da vida: alguém que consegue explicar as mais complicadas passagens da filosofia de Hegel, mas que não consegue cozer um ovo.

Uma razão importante para estudar filosofia é o facto de esta lidar com questões fundamentais acerca do sentido da nossa existência. A maior parte das pessoas, num ou noutro momento da sua vida, já se interrogou a respeito de questões filosóficas. Por que razão estamos aqui? Há alguma demonstração da existência de Deus? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz com que algumas acções sejam moralmente boas ou más? Poderemos alguma vez ter justificação para violar a lei? Poderá a nossa vida ser apenas um sonho? É a mente diferente do corpo, ou seremos apenas seres físicos? Como progride a ciência? O que é a arte? E assim por diante.

Sobre o autor

Nigel Warburton é Senior Lecturer na Open University. É autor de Grandes Livros de Filosofia (Edições 70, 2001), Thinking From A to Z (Routledge, 2.ª ed., 2000), Freedom: An Introduction with Readings (Routledge, 2000) e The Art Question (Routledge, 2002), além de co-autor e organizador de outros livros.

"O meu objectivo é oferecer ao leitor instrumentos para pensar por si próprio sobre temas filosóficos [...]. Esses temas não interessam apenas aos filósofos: emergem naturalmente das circunstâncias humanas; muitas pessoas que nunca abriram um livro de filosofia pensam espontaneamente nestes temas." (Nigel Warburton)

Índice

Prefácio
Introdução

A filosofia e a sua história / Porquê estudar filosofia? / A filosofia é difícil? / Os limites do que a filosofia pode fazer / Como usar este livro / Leitura complementar

1 — Deus

O argumento do desígnio / Críticas ao argumento do desígnio / O argumento da causa primeira / Críticas ao argumento da causa primeira / O argumento ontológico / Críticas ao argumento ontológico / Conhecimento, demonstração e existência de Deus / O problema do mal / Tentativas de solução do problema do mal / A defesa do livre-arbítrio / Críticas à defesa do livre-arbítrio / O argumento dos milagres / Hume e os milagres / O argumento do apostador: a aposta de Pascal / Críticas ao argumento do apostador / Não realismo acerca de Deus / Críticas ao não realismo acerca de Deus / Fé / Conclusão / Leitura complementar

2 — Bem e Mal

Teorias baseadas no dever / A ética cristã / Críticas à ética cristã / A ética kantiana / Críticas à ética kantiana / Consequencialismo / Utilitarismo / Críticas ao utilitarismo / Utilitarismo negativo / Crítica ao utilitarismo negativo / Utilitarismo das regras / Teoria da virtude / Críticas à teoria da virtude / Ética aplicada / Eutanásia / Ética e metaética / Naturalismo / Críticas ao naturalismo / Relativismo / Críticas ao relativismo moral / Emotivismo / Críticas ao emotivismo / Conclusão / Leitura complementar

3 — Política

Igualdade / Distribuição igualitária de dinheiro / Críticas à distribuição igualitária do dinheiro / Igualdade de oportunidades no emprego / Discriminação positiva / Críticas à discriminação positiva / Igualdade política: democracia / Democracia directa / Democracia representativa / Críticas à democracia / Liberdade / Liberdade negativa / Críticas à liberdade negativa / Subtrair a liberdade: o castigo / O castigo como retribuição / Críticas ao retributivismo / Dissuasão / Críticas à dissuasão / Protecção da sociedade / Críticas à protecção da sociedade / Reabilitação / Críticas à reabilitação / Desobediência civil / Críticas à desobediência civil / Conclusão / Leitura complementar

4 — O Mundo Exterior

Realismo de senso comum / Cepticismo acerca dos dados dos sentidos / O argumento da ilusão / Críticas ao argumento da ilusão / Poderei estar a sonhar? / Alucinação / Memória e lógica / Penso, logo existo / Crítica ao cogito / Realismo representativo / Críticas ao realismo representativo / Idealismo / Críticas ao idealismo / Fenomenismo / Críticas ao fenomenismo / Realismo causal / Críticas ao realismo causal / Conclusão / Leitura complementar

5 — Ciência

A perspectiva simples do método científico / Críticas à perspectiva simples / O problema da indução / Tentativas de solução do problema da indução / Falsificacionismo: conjectura e refutação / Críticas ao falsificacionismo / Conclusão / Leitura complementar

6 — Mente

Filosofia da mente e psicologia / O problema da mente/corpo / Dualismo / Críticas ao dualismo / Dualismo sem interacção / Fisicalismo / Teoria da identidade-tipo / Críticas à teoria da identidade-tipo / Teoria da identidade-espécime / Críticas à teoria da identidade-espécime / Behaviourismo / Críticas ao behaviourismo / Qualia / Funcionalismo / Críticas ao funcionalismo / Mentes alheias / O argumento por analogia / Críticas ao argumento por analogia / Conclusão / Leitura complementar

7 — Arte

Pode a arte ser definida? / O conceito de parecença familiar / Críticas à perspectiva da parecença familiar / A teoria da forma significante / Críticas à teoria da forma significante / A teoria idealista / Críticas à teoria idealista da arte / A teoria institucional / Críticas à teoria institucional / Crítica de arte / Anti-intencionalismo / Críticas ao anti-intencionalismo / Apresentação, interpretação, autenticidade / Autenticidade histórica na interpretação musical / Críticas à autenticidade histórica na interpretação / Imitações e valor artístico / Conclusão / Leitura complementar

Índice analítico