Abril de 1997  

Saber defender ideias correctamente

A Arte de Argumentar
de Anthony Weston
Tradução de Desidério Murcho
Revisão científica de João Branquinho
Gradiva, Fevereiro 1996, 145 pp.

Este pequeno livro ensina a escrever e a avaliar textos argumentativos que se distinguem dos textos meramente expositivos. Os argumentos são um elemento imprescindível na descoberta da verdade. Qual é a verdade acerca da eutanásia? Deve ser tolerada, ou não? Quer se defenda uma coisa ou outra, é preciso mostrar que temos razão. E isso faz-se através de argumentos. Em matéria de argumentos não vale tudo o mesmo, e não valem sobretudo os maus argumentos — ainda que convençam o auditório por serem sofisticamente apresentados como bons. Por mais que quem nos dá o troco do jornal da manhã tenha muita habilidade para nos enganar, há um padrão aritmético objectivo que nos mostra se o troco que recebemos é ou não justo. O mesmo acontece com os argumentos.

Mas o que são afinal os argumentos? Os argumentos são formas de organizar informações, a que se chama as premissas, com vista a um determinado fim, a que se chama a conclusão. Há vários tipos de argumentos: dedutivos, por analogia, de autoridade, através de exemplos e causais. Para todos eles existem regras que distinguem os bons dos maus argumentos. Este livro apresenta essas regras de forma rigorosa mas simples, sempre ilustrando com exemplos claros.

Excerto

Algumas pessoas pensam que argumentar é apenas expor os seus preconceitos de uma forma nova. É por isso que muitas pessoas pensam também que os argumentos são desagradáveis e inúteis. Argumentar pode confundir se com discutir. Neste sentido, dizemos por vezes que duas pessoas discutem, como numa espécie de luta verbal. Acontece muito. Mas não é isso o que os argumentos realmente são.

Neste livro, “apresentar um argumento” quer dizer oferecer um conjunto de razões a favor de uma conclusão ou oferecer dados favoráveis para uma conclusão. Neste livro, um argumento não é apenas a afirmação de certos pontos de vista, e não é apenas uma disputa. Os argumentos são tentativas de apoiar certos pontos de vista com razões. Neste sentido, os argumentos não são inúteis; na verdade, são essenciais.

Os argumentos são essenciais, em primeiro lugar, porque são uma forma de tentar descobrir quais os melhores pontos de vista. Nem todos os pontos de vista são iguais. Algumas conclusões podem ser apoiadas com boas razões; outras, com razões menos boas. Mas muitas vezes não sabemos quais são as melhores conclusões. Precisamos de apresentar argumentos para apoiar diferentes conclusões, e depois avaliar tais argumentos para ver se são realmente bons.

Neste sentido, um argumento é uma forma de investigação. Alguns filósofos e activistas argumentaram, por exemplo, que criar animais só para fornecer carne causa um sofrimento imenso aos animais e que, portanto, isso é injustificado e imoral. Será que eles têm razão? Não se pode decidir consultando os preconceitos que se têm. Estão envolvidas muitas questões. Temos obrigações morais para com outras espécies, por exemplo, ou é só o sofrimento humano que é realmente mau? Podem os seres humanos viver realmente bem sem carne? Alguns vegetarianos viveram até idades muito avançadas. Será que este facto mostra que as dietas vegetarianas são mais saudáveis? Ou é esse facto irrelevante, considerando que alguns não vegetarianos também viveram até idades muito avançadas? (É melhor perguntar se uma percentagem mais elevada de vegetarianos vivem até idades avançadas.) Talvez as pessoas mais saudáveis tenham tendência para se tornarem vegetarianas, ao contrário das outras? Todas estas questões têm de ser consideradas cuidadosamente, e as respostas não são, à partida, óbvias.

Os argumentos também são essenciais por outra razão. Uma vez chegados a uma conclusão bem apoiada por razões, os argumentos são a maneira pela qual a explicamos e defendemos. Um bom argumento não se limita a repetir as conclusões. Em vez disso, oferece razões e dados para que as outras pessoas possam formar a sua própria opinião. Se o leitor ficar convencido que devemos realmente mudar a forma como criamos e usamos os animais, por exemplo, terá de usar argumentos para explicar como chegou a essa conclusão: é assim que convencerá as outras pessoas. Ofereça as razões e os dados que o convenceram a si. Ter opiniões fortes não é um erro. O erro é não ter mais nada.

As regras para argumentar não são, pois, arbitrárias: elas têm um objectivo específico. Mas os estudantes (tal como outros escritores) nem sempre compreendem qual é o objectivo quando pela primeira vez lhes pedem para escrever um ensaio argumentativo — e se não se compreende o objectivo do que nos é pedido, é improvável que o façamos bem. Muitos estudantes, quando lhes pedem que argumentem a favor dos seus pontos de vista acerca de um qualquer assunto, escrevem declarações intrincadas dos seus pontos de vista, mas não oferecem verdadeiramente nenhumas razões para pensar que os seus pontos de vista são correctos. Escrevem um ensaio, mas não escrevem um ensaio argumentativo.

Este erro é natural. Na escola secundária, a ênfase é colocada na aprendizagem de assuntos que são razoavelmente pouco ambíguos e incontroversos. Não é necessário argumentar que foi Vasco da Gama que descobriu o caminho marítimo para a Índia, ou que Eça de Queirós escreveu Os Maias. Estes são factos que o estudante se limita a dominar, e que os seus ensaios se limitam a relatar.

Os estudantes vão para o ensino superior e esperam que as coisas sejam mais ou menos iguais. Mas muitos cursos superiores — especialmente os que exigem ensaios escritos — têm um objectivo diferente. Estes cursos tratam das bases das nossas crenças; exigem que os estudantes questionem as suas crenças, que elaborem e defendam os seus pontos de vista. Os assuntos discutidos nos cursos superiores são frequentemente os mais ambíguos e menos precisos. Sim, é verdade que foi o Vasco da Gama que descobriu o caminho marítimo para a Índia, mas quais foram verdadeiramente as causas da política expansionista? Sim, é verdade que o Eça de Queirós escreveu Os Maias, mas qual é o significado do romance? Há razões e dados favoráveis a diferentes respostas. Aos estudantes destes cursos é pedido que aprendam a pensar por si próprios, que formem as suas próprias opiniões de forma responsável. A habilidade para defender as suas opiniões é um sinal dessa capacidade, e é por isso que os ensaios argumentativos são tão importantes.

De facto, tal como os capítulos VII-IX irão explicar, para escrever um bom ensaio argumentativo o estudante tem de usar argumentos simultaneamente como um meio de investigação e como uma maneira de explicar e defender as suas conclusões. Para se preparar para escrever um ensaio, o estudante tem de explorar os argumentos que existem para os pontos de vista opostos; é necessário depois escrever o próprio ensaio como um argumento, defendendo as suas conclusões com argumentos e avaliando criticamente alguns dos argumentos dos pontos de vista opostos.

Índice

Prefácio
Introdução
I — A redacção de um argumento curto: algumas regras gerais

  1. A distinção entre premissas e conclusão
  2. Apresente as suas ideias numa ordem natural
  3. Parta de premissas seguras
  4. Use uma linguagem precisa, específica e concreta
  5. Evite a linguagem tendenciosa
  6. Use termos consistentes
  7. Limite se a um sentido para cada termo

    II — Argumentos com exemplos

  8. Use mais do que um exemplo
  9. São os exemplos representativos?
  10. A informação de fundo é fundamental
  11. Existem contra-exemplos?

    III — Argumentos por analogia

  12. A analogia requer um exemplo que seja semelhante num aspecto relevante

    IV — Argumentos de autoridade

  13. As fontes devem ser citadas
  14. São as fontes informadas?
  15. São as fontes imparciais?
  16. Compare as fontes
  17. Ataques pessoais não desqualificam uma fonte

    V — Argumentos acerca de causas

  18. O argumento explica como a causa conduz ao efeito?
  19. A conclusão propõe a causa mais razoável?
  20. Os acontecimentos simultâneos não estão necessariamente relacionados
  21. Acontecimentos correlacionados podem ter uma causa comum
  22. Qualquer um de dois acontecimentos correlacionados pode causar o outro
  23. As causas podem ser complexas

    VI — Argumentos dedutivos

  24. Modus ponens
  25. Modus tollens
  26. Silogismo hipotético
  27. Silogismo disjuntivo
  28. Dilema
  29. Reductio ad absurdum
  30. Argumentos dedutivos em vários passos
VII — A redacção de um ensaio argumentativo: A) A exploração do tema
  1. Explore os argumentos de todos as posições
  2. Interrogue e defenda cada premissa do argumento
  3. Reveja e repense os argumentos à medida que emergem
VIII — A redacção de um ensaio argumentativo: B) Os pontos principais do ensaio
  1. Explique a questão
  2. Faça uma afirmação ou uma proposta definida
  3. Desenvolva completamente os seus argumentos
  4. Considere ojeccções possíveis
  5. Considere alternativas
IX — A redacção de um ensaio argumentativo: C) Escrever o ensaio
  1. Siga o seu esboço
  2. A introdução deve ser breve
  3. Apresente os seus argumentos um por um
  4. Clarifique, clarifique, clarifique
  5. Sustente objecções com argumentos
  6. Não afirme mais do que mostrou
X — Falácias

Apêndice: a definição
Estudo complementar
Apêndice à edição portuguesa