A Arte de Argumentar
Abril de 1997 ⋅ Filosofia Aberta

Instrumentos críticos

André Barata
A Arte de Argumentar, de Anthony Weston
Tradução de Desidério Murcho
Revisão Científica de João Branquinho
Gradiva, Fevereiro 1996, 145 pp.
Comprar

Este não é propriamente um livro de filosofia; no entanto, enquanto obra que pretende fornecer aos leitores "instrumentos críticos" para a investigação filosófica, cai seguramente na sua região de influência.

Embora seja um livro que pode responder às necessidades imediatas dos estudantes de Filosofia (em especial os do 11.o ano), vale seguramente como um excelente auxiliar para qualquer prática da argumentação, em áreas profissionais tão diversas como a política e o jornalismo, mas igualmente naquelas em que a decisão é o fim a alcançar.

Uma primeira observação prende-se com a matéria do livro. Weston afirma que "neste livro 'argumentar' é oferecer um conjunto de razões a favor de uma conclusão ou oferecer dados favoráveis a uma conclusão" (pg. 13). A teoria constituída sobre a actividade argumentativa é entendida como uma lógica informal. Porém, esta lógica informal ainda tende, paradoxalmente, para uma formalização, relevando sobretudo o aspecto sintáctico, em desfavor dos aspectos semântico e pragmático, este último, aliás, praticamente anulado. Não há um tratamento do desempenho do auditório na argumentação e do modo como repercutem nesta os aspectos retóricos de qualquer discurso persuasivo. Mas não é justamente aí, no espaço das figuras da retórica, que está o lado artístico da argumentação, criativa e portanto irredutível à "mimesis" de um cânone? Ou, invertendo a ordem das razões, não é a formalização apenas mais uma forma de bem argumentar: ou seja, de persuadir?

De qualquer modo, não era objectivo de Weston escrever um tratado de argumentação nem uma arte de argumentar, mas um livro de regras, "regras simples para redigir bons argumentos" (pg. 10), expostas com clareza e brevidade. Por isso, talvez estivesse mais de acordo com o espírito da obra uma tradução literal do título ("A Rulebook for Arguments"). Digo talvez porque, simultaneamente, a tradução tem o mérito inesperado de exprimir a tensão entre a lógica informal, enquanto produção de discurso argumentativo, e o trabalho de análise "a posteriori" desse discurso, análise formalizante, a que se referem as regras da argumentação expostas por Weston.

As 44 regras são apresentadas por uma ordem numérica não arbitrária, mas segundo um crescente grau de complexidade. As primeiras respeitam à redacção e avaliação de argumentos "curtos", tais como deduções, induções e analogias; as últimas, pressupondo as primeiras como base para a sua compreensão, têm por objecto os ensaios argumentativos.

O último capítulo, já fora do contexto do "livro de regras", trata do estudo das falácias de argumentação, sendo apresentada uma extensa lista de ocorrências falaciosas acompanhada pelos meios adequados para lhes identificar os erros. Em apêndice, Weston publica um pequeno estudo onde dá conta das principais espécies de definições.

André Barata

Texto publicado no jornal Público (1996).
Termos de utilização: http://criticanarede.com/termos.html
Não reproduza sem citar a fonte