Crítica
criticanarede.com · ISSN 1749‑8457
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Mente, Homem e Máquina, de Paul T. Sagal Abril de 1997 · Filosofia Aberta

Mente, Homem e Máquina, de Paul T. Sagal
Tradução de Desidério Murcho
Revisão Científica de M. S. Lourenço
Gradiva, Abril 1996, 92 pp.
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Críticas: Jornal Público

Apresentação

Este livro consegue de forma admirável mostrar o que é a filosofia no seu melhor: uma troca estimulante e criativa de argumentos que visam a demonstração de uma tese subtil ou a formulação de um problema interessante. A filosofia é uma actividade que exige uma inteligência viva e crítica, mas a sua divulgação, em particular junto dos mais novos, é sempre um risco, uma vez que exige um elevado grau de subtileza e de maturidade cognitiva, para além de pressupor muitas vezes uma formação intelectual apreciável noutras áreas, como a matemática ou a teologia, a física ou a linguística, o direito ou a música.

O tema central deste livro, que pode formular-se inexactamente na pergunta «podem as máquinas pensar?», é um dos problemas filosóficos que exige um amplo conjunto de conhecimentos em áreas como a computabilidade, a lógica e a metamatemática. Mas Paul Sagal teve a felicidade de escrever um livro que não exige quaisquer conhecimentos prévios; que tem apenas 92 páginas; que é absolutamente rigoroso na formulação dos problemas, teses e argumentos mais técnicos; e que para mais se lê com o entusiasmo de um daqueles romances que não conseguimos largar até à última página. É mais do que se podia razoavelmente esperar de um livro de introdução à filosofia. E é talvez a melhor maneira de introduzir temas cujo interesse é por vezes ofuscado pelo grau de tecnicidade exigido.

Uma das características do filósofo é a audácia de fazer as perguntas incómodas que ninguém quer fazer, e a coragem para conduzir o raciocínio até aos limites que ninguém deseja desafiar. A forma do diálogo acaba por se revelar um meio privilegiado de introduzir o estudo da filosofia, uma vez que permite dramatizar a troca de argumentos, o refinamento das formulações e a consideração de consequências que por vezes nos conduzem onde não desejávamos.

Terá sido talvez parcialmente por estes motivos que Platão escreveu os seus diálogos, que constituem aliás a primeira, e uma das mais impressionantes bibliotecas de filosofia do mundo. Platão não foi todavia o único filósofo a escrever sob a forma de diálogo, apesar de ser em geral o único filósofo de que se fala sempre que o uso deste recurso literário é mencionado na filosofia. Este facto deve-se talvez a duas razões: por um lado, a esmagadora maioria da obra de Platão (as únicas expepções são as Cartas e as Leis) foi escrita sob a forma de diálogo, o que é um caso único; por outro lado, o seu génio literário e filosófico produziu uma obra admirável, em nada inferior, e talvez superior, a qualquer outra realização cultural, religiosa ou científica do mundo antigo.

Muitos outros filósofos além de Platão escreveram diálogos filosóficos, como Santo Agostinho, Berkeley e Hume. Em geral, os diálogos filosóficos não são diálogos no verdadeiro sentido do termo, uma vez que um dos personagens se limita quase sempre a seguir o raciocínio do outro, sem jamais reagir criticamente. Uma honrosa excepção a esta regra são os Diálogos sobre a Religião Natural, de David Hume, como se prova pelo facto de os exegetas não concordarem sobre a questão de saber qual dos personagens representa as opiniões do autor.

Neste diálogo de Paul Sagal, todos os personagens formulam argumentos, teses e problemas. Todos os personagens exercem as suas capacidades críticas, e fazem-no de forma despretensiosa e clara, como deve idealmente acontecer, e rigorosa, como não pode deixar de acontecer, sob pena de a filosofia se tornar uma fantasia diletante. O resultado é um livro que ensina a fazer filosofia, que não é outra coisa senão o uso disciplinado e livre das capacidades críticas que todos possuímos, e que constitui o único meio de escapar à aceitação acrítica das frases delirantes e fáceis. Espero que este pequeno livro estimule o leitor a libertar-se da aceitação acrítica, e a entrar assim definitivamente no mundo fascinante da filosofia.

Índice

Prefácio
O primeiro dia
O segundo dia
O terceiro dia
Quatro horas depois
Depois de almoço
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