Mente, Homem e Máquina, de Paul T. Sagal
Maio de 1997 ⋅ Filosofia Aberta

O que é pensar?

André Barata
Mente, Homem e Máquina, de Paul T. Sagal
Tradução de Desidério Murcho
Revisão Científica de M. S. Lourenço
Gradiva, Abril 1996, 92 pp.
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Sob a forma de um diálogo ficcionado, em que intervêm um estudante, um matemático e um filósofo, Paul T. Sagal desenvolve neste pequeno livro uma reflexão sobre algumas das questões recorrentes em filosofia, como os problemas da mente/corpo e da existência de outras mentes, e sobre algumas das respostas mais recentes a estas questões.

O diálogo é encetado quando o estudante manifesta o seu espanto com a situação de uma máquina poder vencê-lo numa partida de xadrez se, em boa verdade, ela nem sequer pensa; o que o filósofo responde pondo em questão se, de facto, uma máquina, no caso um computador, não pensa. A questão decidir-se-ia, no parecer do filósofo, por meio do teste da máquina de Turing, que descreve nos seguintes termos: "é uma competição entre um ser humano, A, e um computador, B. São feitas perguntas a A e a B, consistindo o objectivo de A, ao responder a essas perguntas, em convencer um juiz, C, de que ele, A, é o ser humano e o objectivo de B em fazer com que C o identifique erradamente como humano ou, pelo menos, não consiga identificar nenhum dos dois como uma máquina." (pág. 23). Pensar a possibilidade de uma máquina ganhar este jogo não significa necessariamente pensar que a máquina pensa; no limite, o que não é o mesmo, apenas significa que não tenho melhores razões para pensar que existam outras mentes que pensam senão as que tenho para pensar que uma máquina pensa.

Como recusar, então, que as máquinas podem pensar dando por certo que as outras mentes pensam? Rapidamente, perante os argumentos do filósofo, o estudante vê-se incapacitado de prosseguir a discussão, propondo-se, então, trazer um matemático capaz de defender a tese de que as máquinas efectivamente não podem nem nunca poderão pensar. Para isso, o matemático emprega o conhecido argumento de J. R. Lucas que, em síntese, consiste numa interpretação do teorema de Gödel aplicado ao conceito de máquina, entendido como uma realização de um sistema formal.

O teorema afirma que um sistema formal não pode ser, simultaneamente, completo e consistente, isto é, não pode derivar todas as verdades sem admitir contradições. Se o sistema admitir contradições então tudo é derivável, se não as admitir então nem todas as frases verdadeiras do sistema são deriváveis. Ora, segundo Lucas e o nosso matemático, esta consequência aplica-se às máquinas, pelo que, para não serem inconsistentes não podem alcançar certas verdades, ou seja, estão necessariamente limitadas e não possuem verdades para lá da demonstrabilidade. Conclui daqui o matemático que "somos diferentes das máquinas; somos diferentes em pelo menos um aspecto: podemos identificar algumas verdades que as máquinas não podem" (págs. 41-42).

Confrontado com semelhante conclusão, o filósofo, em vez de procurar rebater o argumento de Lucas no que respeita às limitações de uma máquina, pergunta se as mentes humanas não estão sujeitas às mesmas limitações ou mesmo a maiores. Com efeito, a incompletude de uma máquina que realiza um sistema formal consistente não é seguramente pior do que a inconsistência da língua portuguesa (como a inglesa ou a francesa) que contém algumas frases que são verdadeiras se, e somente se, são falsas.

Regressados ao impasse, o matemático, na esteira de John Searle, aflora outra estratégia argumentativa que diz qualquer coisa como o seguinte: os computadores são sistemas formais, que só podem operar sintacticamente; logo, são desprovidos de intencionalidade, incapazes de atribuir significados. Mais uma vez, o filósofo não procura rebater as limitações dos computadores, mas mostrar como "o problema do significado, da semântica, parece todo ele bastante obscuro" (pág. 62). Decorrem daqui duas hipóteses: ou explicamos a semântica em termos de uma sintáctica, o que implica que as nossas crenças acerca do que julgamos ser o pensamento são, em grande medida, ilusórias; ou mantemo-las numa relação irredutível e, então, nem as máquinas podem pensar nem temos razões suficientes para confirmar se outras mentes pensam. O certo é que a resposta à pergunta "podem as máquinas pensar?" tem muito menos a ver com máquinas do que com o ser humano. A grande pergunta é, ainda, saber o que é pensar.

André Barata

Texto publicado no jornal Público (12 de Abril de 1997).
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