Mente, Homem e Máquina, de Paul T. Sagal
Filosofia da mente

Podem as máquinas pensar?

Paul T. Sagal

Stu acabou de chegar, depois de mais uma sessão do torneio de xadrez, onde perdeu, frente ao computador Fischkov III.

Stu: Detesto perder, especialmente com os computadores. Como podem eles pensar melhor do que eu se na realidade nem sequer podem pensar?

Phil: Tens assim tanta certeza que eles não podem pensar? Talvez existam mais coisas que podem pensar do que pensas.

Stu: Deves estar a brincar. Os computadores pensam tanto quanto um papagaio ou um disco. Os discos e os papagaios limitam- se a fazer sons. Mas não há nenhum pensamento por detrás dos sons.

Phil: Mas como sabes que não há pensamento por detrás dos sons? Como sabes quando há pensamento?

Stu: Sei pelo menos, com certeza, quando eu estou a pensar. É como se ouvisse o som dos meus próprios pensamentos. Talvez o pensamento seja uma espécie de conversa interior, mantida connosco mesmos.

Phil: Como sabes que existe pensamento por detrás desses “sons” que dizes ouvir? Como podes de todo dizer que eu estou a pensar? Não podes ouvir a minha conversa interior, pois não? Como sabes sequer que ela existe?

Stu: Posso perguntar-te.

Phil: Claro que podes, mas se o fizeres e eu responder “Sim”, não podes fazer nada para verificar se a minha resposta é verdadeira ou não. Se perguntasses ao papagaio se ele está a conversar consigo mesmo, ele diria talvez igualmente que sim.

Stu: Bom, o pensamento não é apenas a conversa interior. O pensamento é o tipo de processo que acompanha a conversa, processos como a conceptualização, o raciocínio e coisas desse género.

Phil: Em primeiro lugar deixa-me notar que, mesmo quando me observo a pensar, existem com certeza mais coisas para além de uma espécie de conversa, como é o caso da capacidade de formar imagens mentais: posso pensar no último dia em que fui pescar e “ver” o lago onde estive. Ao mesmo tempo, tenho uma espécie de conversa interior sobre o lago. Mas acabaste de afirmar que o pensamento não é apenas isto. Afirmas que existe o que algumas pessoas chamam “os processos mentais superiores”. Deixa-me perguntar-te o seguinte: alguma vez te observaste a conceptualizar?

Stu: De facto não.

Phil: Mas então como sabes de todo que conceptualizas?

Stu: Como podia eu usar conceitos senão os formasse de alguma maneira?

Phil: Portanto, inferes a existência desses actos mentais. Mas tens de me explicar o que entendes por usar conceitos. Como é que usas os conceitos?

Stu: Quando produzo juízos sobre cadeiras ou monstros, uso os conceitos de cadeira e monstro.

Phil: Por que razão não dizes apenas que sabes usar os termos “cadeira” e “monstro”? Não poderemos dispensar a referência aos conceitos e à conceptualização e falar unicamente de aprender e usar uma linguagem? Nesse caso, a questão interessante é a de saber se as máquinas podem aprender e usar uma linguagem. Se podem, então parece que a tua objecção principal contra a tese que defende que as máquinas pensam se evapora.

Stu: Estou a ver onde estás a tentar chegar. Parece realmente mais claro falar do uso de uma linguagem do que de conceitos. Se há uma coisa que um jogador de xadrez como eu aprecia é a clareza. No entanto, parece que não me disseste claramente o que é o pensamento. Defendes que qualquer uso de uma linguagem implica a existência de pensamento? Parece que os papagaios usam uma linguagem, mas eles não pensam, pois não? Nem todos os usos de uma linguagem envolvem pensamento — ou será que apenas os usos de uma linguagem que envolvem pensamento podem contar como usos de uma linguagem? Parece que estamos a andar em círculos — definimos pensamento em termos do uso de uma linguagem, e explicamos o uso de uma linguagem em termos de um uso de uma linguagem que envolva pensamento. Admito que não comecei da melhor maneira, isto é, com uma definição de pensamento ou raciocínio. Mas parece que tu também não ofereceste uma tal definição.

Phil: É verdade que o ideal seria começar com uma definição. Mas há diferentes tipos de definições. Os filósofos ocupam-se com definições desde o tempo de Sócrates. Sócrates costumava fazer perguntas ambiciosas, como “o que é a justiça?”, “o que é a virtude?”, “o que é o conhecimento?” Será que nos podemos limitar a consultar o dicionário para responder a Sócrates, ou para resolver o nosso problema? Definições lexicais ou de dicionário não oferecem em geral a clarificação que procuramos. O dicionário oferece-nos provavelmente qualquer coisa mais ou menos semelhante a uma lista de sinónimos. Mas esses sinónimos precisariam igualmente de ser definidos. É claro que não podemos continuar a definir eternamente. Mas é verdade que precisamos de chegar a algo mais inteligível do que o ponto de partida. Que desejamos nós de uma definição de pensamento? Acho que precisamos de uma definição útil que possa oferecer critérios, uma combinação de condições necessárias e suficientes que identifiquem o pensamento. Afinal, o que desejamos saber é se o Fischkov III e outras máquinas desse género podem pensar, pelo que precisamos de um qualquer processo que teste se existe pensamento ou não. Se usarmos termos como “conceptualizar” e “raciocinar”, temos de garantir que esses termos estão ligados a critérios observacionais ou verificáveis. Sempre que possível, é preferível referir coisas concretas, como falar, manter uma conversa ou realizar cálculos.

Paul T. Sagal

Texto retirado de Mente, Homem e Máquina, de Paul T. Sagal (tradução de Desidério Murcho, Gradiva, 1996)
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