Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn
Maio de 1997 ⋅ Filosofia

Filosofia da História

Simon Blackburn
Universidade de Cambridge

A Filosofia da História é a reflexão sobre a natureza da história ou sobre o pensamento histórico. A expressão foi usada no século XVIII (por exemplo, por Voltaire) para referir o pensamento histórico crítico, que se opõe à mera colecção e repetição de histórias sobre o passado. Em Hegel, a expressão adquire o significado de história universal ou mundial. No Iluminismo, acreditava-se que a idade da superstição e da barbárie estava a ser progressivamente substituída pela ciência, pela razão e pela compreensão, atribuindo-se à história uma linha evolutiva de carácter moral. Sob a influência de Herder, Kant levou esta ideia mais longe, de tal modo que a filosofia da história se converteu na procura de um sistema grandioso sobre o desdobramento da evolução da natureza humana, testemunhado em fases sucessivas (o progresso da racionalidade ou do Espírito). Esta filosofia da história essencialmente especulativa encontrou um complemento extra-kantiano em Fichte, para quem a associação da mudança temporal com a implicação lógica introduz a ideia de que os próprios conceitos são o instrumento dinâmico da mudança histórica. Esta ideia só é imediatamente inteligível no quadro do idealismo absoluto, onde o mundo da natureza e do pensamento acabam por identificar-se. A obra de Herder, Kant, Fichte e Schelling foi sintetizada por Hegel: a história tem um enredo. Este consiste no desenvolvimento moral do homem, concebido como algo que é equivalente à liberdade no Estado; esta liberdade, por sua vez, consiste no desenvolvimento da autoconsciência do espírito, um processo de desenvolvimento lógico ou intelectual onde sucessivamente se atingem e superam vários momentos necessários na vida de um conceito. O método de Hegel atinge o seu melhor quando o assunto é a história das ideias, e quando a evolução do pensamento avança a par e passo com as oposições lógicas, e com a sua resolução apresentada pelos diversos sistemas de pensamento.

Com Marx e Engels emerge um tipo de história bastante diferente, baseada na estrutura progressiva de Hegel, mas que remete a realização do objectivo da história para um futuro onde surgirão as condições políticas para a liberdade, sendo assim os factores políticos e económicos, e não a “razão”, o motor da história. Embora se tenha continuado a escrever história especulativa generalista (O Declínio do Ocidente, de Spengler, 1918, é um exemplo tardio notável), no final do século XIX a especulação generalista desse tipo foi suplantada por um interesse mais crítico pela natureza da compreensão histórica e, em particular, pela comparação entre os métodos das ciências naturais e os do historiador. Para autores como Windelband e Dilthey é importante mostrar que, por um lado, as ciências humanas como a história são objectivas e legítimas, mas que, por outro lado, estas diferem de algum modo da investigação do cientista. Já que o seu assunto é o pensamento e as acções dos seres humanos do passado, é necessária uma capacidade para reviver esse pensamento do passado, conhecendo as deliberações dos agentes do passado como se pertencessem ao próprio historiador. Collingwood foi o autor britânico mais influente nesta área; A Ideia de História (1946, trad. 1972) contém uma ampla defesa da abordagem da verstehen. O problema da forma das explicações históricas, e o facto de as leis gerais ou não terem qualquer lugar, ou não ocuparem um lugar importante nas ciências humanas, são também proeminentes no pensamento sobre a natureza distinta da nossa compreensão histórica dos outros e de nós mesmos.

Simon Blackburn

Texto retirado de Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn (Lisboa: Gradiva, 1997).
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