Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton
Junho de 2002 ⋅ Filosofia Aberta

O essencial de filosofia

Leônidas Hegenberg
Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton
Edição revista e aumentada
Tradução de Desidério Murcho
Revisão Científica de António Franco Alexandre
Gradiva, Abril de 2007, 284 pp.
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Em 1954 (há quase cinqüenta anos, portanto), foi publicado um pequeno livro de 127 páginas, formato bolso, de François Gregoire, professor de filosofia do Lycée Français e da Faculdade de Letras de Kaboul, no Afeganistão. Era o n.º 623 da coleção "Que sais-je?" (que já ultrapassou a casa dos três mil volumes). O livro de Gregoire continha bem feito resumo da metafísica e, segundo imagino, ajudou muitos estudantes daquela época e deve ter agradado àqueles insaciáveis leitores que se debruçavam sobre as questões filosóficas.

Os oito capítulos de Les Grands Problémes Métaphysiques focalizavam 1) o conhecimento; 2) a existência do mundo; 3) a matéria; 4) a vida; 5) a alma e o corpo; 6) a liberdade; 7) Deus. Um nono capítulo complementar (de nove páginas) abordava, ligeiramente, o que o autor denominou "metafísica" (entre aspas) do oriente, dando atenção ao islamismo, ao budismo e ao pensamento chinês.

Esse resumo da metafísica continua em minha estante e me serviu, algumas vezes, para formular, de modo sucinto, uma ou outra idéia que permitisse dar "fecho" a certas (raras) exposições que, sabidamente, acabariam conduzindo o debate para os "muito perigosos" terrenos "de além da física".

É provável que vários outros livros do mesmo gênero tenham aparecido — no exterior e, quero crer, até mesmo aqui em Portugal e no Brasil. Não necessitando deles, deixei de acompanhar o que se passou nas editoras, relativamente à discussão, em níveis elementares (ou avançados), dos problemas metafísicos.

No fim de 1994, adquirindo alguns livros da Routledge (cujas coleções, em geral, são perfeitamente "afinadas" com meus interesses), deparei com o pequeno estudo de Warburton, formado em Bristol, doutor por Cambridge, professor da University of Nottingham. Rápido exame da obra levou-me a inclui-la na lista das próximas leituras.

Warburton, abordando as questões filosóficas fundamentais, focaliza alguns problemas que François Gregoire também examinou. No livro de Warburton há capítulos relativos a 1) Deus; 2) o certo e o errado; 3) o mundo exterior; 4) a ciência; 5) a mente e 6) a arte. Comparando as obras de Gregoire e de Warburton, a diferença, mais "visível" é a presença da arte (estética), aqui, e a presença do oriente, ali. Todavia, convém ressaltar que os temas, na obra do autor britânico, são analisados por um prisma diverso do adotado pelo escritor de Kaboul. Em The Basics, ao lado das idéias clássicas de Descartes, Hume ou Kant — que não poderiam faltar em estudos desse gênero — faz-se alusão freqüente a contribuições que Gregoire não podia conhecer e que só se difundiram e consolidaram nos últimos cinqüenta anos, como, por exemplo, as idéias de A. J. Ayer, N. Goodman, N. Malcolm, e J. Searle.

Os dois pequenos livros se complementam e, para não-especialistas, oferecem o essencial que caberia desejar saber de filosofia, encarada sob as luzes de enfoques metafísicas. (Para leitores mais exigentes, entretanto, A. C. Grayling preparou Philosophy: A Guide Through the Subject, que a Oxford University Press lançou em Agosto de 1995, e que certamente merecerá comentários independentes.)

O livro de Warburton é agradável, de leitura fácil e prazerosa. Ele deve ser bom professor, capaz de fornecer uma apreciável quantidade de informações em curto espaço de tempo, para, em seguida, registrá-las em letra de forma com muita clareza. Exemplificando, consideremos o capítulo "Right and Wrong". O autor examina dois tipos de teorias: 1) "duty based" e 2) "consequentialist". Para as teorias do primeiro tipo, os seres humanos têm certos deveres: ações que devem (ou não devem) executar. Agir moralmente, portanto, é apenas cumprir com o dever. A ética do cristianismo, por exemplo, assenta-se nos dez mandamentos. Moral é aquele que obedece a tais mandamentos. Essa ética está sujeita a críticas. Parte do pressuposto de que Deus existe e de que, além disso, conhecemos Sua vontade. (Conflitos: matar é sempre pecaminoso ou seria algo tolerável na guerra?)

Outro exemplo é o de Kant (1724-1804), cujas idéias tiveram profunda e ampla influência no pensamento ocidental. Para Kant, o motivo de uma ação e as conseqüências que pode trazer são muito mais importantes do que a própria ação. A fim de saber se alguém age moralmente (afirma Kant) não basta considerar sua ação; é preciso ter em conta suas intenções. O único motivo aceitável para a ação moral, no entender de Kant, seria o "senso do dever". Como só podemos ser moralmente responsabilizados por atos sobre os quais tenhamos algum controle (ele dizia: "Deve acarreta pode") e como as conseqüências de atos por nós executados escapam, freqüentemente de nosso controle, segue-se que tais conseqüências não podem ser relevantes para a moralidade. Daí a célebre máxima (o imperativo categórico de Kant) que poderíamos adotar sem reservas: Age com base em preceitos que você possa desejar transformar em leis universais. Não custa observar que a ética de Kant padece de alguns defeitos. Em particular, parece inadequada, se a contemplarmos como teoria das emoções (compaixão, piedade, simpatia).

As teorias "consequencialistas", por sua vez, caracterizam o certo e o errado em termos das conseqüências das ações praticadas. A mais conhecida dessas teorias é a de John Stuart Mill (1806-1873), batizada com o nome de "utilitarismo". Segundo Mill, "bom" se define como "aquilo que traz maior bem-estar para o maior número possível de pessoas". Essa forma de entender o bem (ou o bom) está seriamente comprometida porque a) não é possível "medir" felicidade (falha que não se elimina considerando "prazeres" maiores e menores); e b) é difícil a avaliação das conseqüências dos nossos atos.

Warburton examina, também, a "metaética", ou seja, a teorização a respeito de teorias éticas. Apreciando questões da metaética, discute o naturalismo, para mostrar que o maior engano dos defensores dessa corrente está em confundir fatos e valores. Lembra, por exemplo, o que Sartre (1905-1980) acentuou em muitas ocasiões: "Faz parte da natureza humana a necessidade de formular juízos de valor; contudo, não temos, para tanto, outro guia além de nós mesmos". Warburton comenta, ainda, o emotivismo, claramente representado nas obras de A. J. Ayer (1919-1988). Para os adeptos dessa corrente, as asserções éticas são, literalmente, destituídas de sentido; não expressam qualquer fato, mas apenas as emoções de quem as formula. Se alguém afirma "A tortura é inaceitável", nada mais faz do que externar seus sentimentos perante a tortura. A afirmação não é verdadeira nem falsa; equivale, apenas e simplesmente, a uma "vaia" ("Buuuu!").

Encerrando o capítulo, o autor sublinha que a filosofia moral é um vasto e complicado ramo da filosofia, cujos problemas, na atualidade, têm sido discutidos por dois ângulos principais. De um lado, há os debates metaéticos; de outro, há a intensa preocupação com questões "práticas" — por exemplo, eutanásia, aborto, pesquisa feita com embriões, experimentos com animais, e assim por diante. (Hoje, incluiríamos a clonagem.)

Esta apreciação do capítulo 2 do livro The Basics permite perceber qual foi a "tática" adotada por Warburton — mantida ao longo de todo o livro.

Quem pretende iniciar estudos filosóficos, terá, neste pequeno volume da Routledge, ora trazido para Portugal, um livro de especial valia.

Comentários "negativos", em torno do livro de Warburton, faço apenas um. Adotando atitude que se tem tornado habitual (nem por isso menos antipática), o autor escreve, a todo momento, "he" e "she", imaginando, parece, poder contornar várias costumeiras críticas de feministas exasperados. Exemplificando, no capítulo a respeito de Deus, diz que "This is the view that one God exists, that he or she is omnipotent". A emenda não foi boa: faltou certa "delicadeza": cabia escrever "she or he" — as damas sempre em primeiro lugar...

Leônidas Hegenberg
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